É preciso ser magro e musculoso a qualquer preço. Certo? Não, errado. A saúde deve vir em primeiro lugar. Mas, na busca por corpos perfeitos, ela tem sido deixada de lado por muitos. Educador físico, coach em treinamento integral e qualidade de vida, Nuno Cobra Jr é autor de “O Músculo da Alma – A chave para a sabedoria corporal (Editora Voo). No livro, fala sobre a importância de buscar equilíbrio, valorizar a saúde e deixar de lado o modelo atual.

“Existe uma inversão de valores. Ao invés de priorizar a saúde como o objetivo e a estética como consequência, atualmente esta fórmula se encontra invertida e de ponta cabeça. O treinamento se transformou em uma área estética, infelizmente. Todo o marketing do treinamento é dominado pela indústria bilionária do fitness e do bodybuilding (culto ao fortalecimento muscular). O corpo da moda é um corpo extremamente magro, musculoso, rígido ou “bombado”. E o sarrafo não para de subir”, afirma.

Na entrevista ao blog, Nuno Cobra Jr fala sobre a indústria do fitness e dos emagrecedores e o risco à saúde. Vale a leitura.

Como o senhor define o atual modelo de treinamento?

Nuno Cobra Jr – O modelo atual da alta intensidade implica em diversos efeitos colaterais, como aumento dos radicais livres, envelhecimento precoce, riscos cardíacos, lesões ortopédicas, aumento de hormônios ligados ao estresse e um efeito depressor sobre o sistema imunológico, dentre outros, já bem relatados e comprovados em diversos estudos. Existe uma inversão de valores. Ao invés de priorizar a saúde como o objetivo e a estética como consequência, atualmente esta fórmula se encontra invertida e de ponta cabeça. O treinamento se transformou em uma área estética, infelizmente. Todo o marketing do treinamento é dominado pela indústria bilionária do fitness e do bodybuilding (culto ao fortalecimento muscular). O corpo da moda é um corpo extremamente magro, musculoso, rígido ou “bombado”. E o sarrafo não para de subir. Leia a capa de todas as revistas de treinamento que estão nas bancas. Podemos resumir quase todos os títulos a “perca peso e ganhe músculos no menor tempo possível”. Este é um sintoma claro dos rumos que o treinamento tomou nas últimas três décadas. Chegamos a dois extremos: o modelo de beleza ligado à anorexia e o modelo da vigorexia (transtorno psíquico ligado a uma compulsão com treinamento e uma obsessão pelo crescimento muscular)). Existe um “vale tudo” no treinamento, nesse contexto, um exercício passa a valer apenas pelo resultado estético que ele pode proporcionar, independente do mal que ele pode causar ao seu corpo a médio e longo prazo. O resultado desse modelo é a explosão do uso de anabolizantes e o excesso de lesões devido à sobrecarga no treinamento. Só nos EUA três milhões de pessoas consomem anabolizantes com finalidades estéticas. A indústria do fitness se transformou em um problema de saúde pública. Vejo muitos jovens nas academias se gabando, dizendo: “Cara! O treino hoje foi insano” . E essa é, realmente, a melhor definição para esta forma de treinamento. O que vemos hoje é uma insanidade. Saúde é o que menos importa. Obviamente não se pode generalizar.Mas, atualmente, a regra é o treinamento cosmético e a exceção é o treinamento com um foco na saúde. Precisamos reverter este cenário.

Por que esta forma de treinamento não é considerada sustentável e inclusiva?

Nuno Cobra Jr – Deixa eu lhe contar um pouco do meu percurso. Eu me tornei uma espécie de “Ativista corporal”, levantando a bandeira do treinamento sem sofrimento, um treinamento mais humanizado e consciente. Realizei uma pesquisa durante 12 anos, nesse processo eu me propus a conversar com alguns dos maiores estudiosos do conhecimento corporal, como fisiologistas, doutores em educação física, cardiologistas, fisioterapeutas e ortopedistas, entre outros. É surpreendente, todos são muito críticos em relação a indústria do treinamento e defendem um modelo de treinamento mais ligado a saúde e a prevenção. O fisiologista Dr. Diego leite de barros, um grande estudioso sobre o assunto, tem uma frase lapidar sobre esta questão: “É uma filosofia que causa lesões e que enchem o consultório hoje em dia. A consequência mais comum ao adotar esta estratégia do “sem dor, sem ganho”, é uma lesão ou a desistência da atividade física. A minha percepção é que um modelo de treinamento baseado na dor e no sofrimento não colabora na adesão do aluno, por isso digo que ele não é sustentável. Resumindo: este modelo já caiu em desuso para os maiores estudiosos do corpo e do treinamento, há mais de uma década, e, no entanto, ele continua em pleno vapor para os treinamentos da moda. Segundo o relatório anual da IHRSA, associação que reúne as academias em todo o mundo, a taxa de desistência nas academias é alta, girando em torno de 50% após três meses. Ou seja, este modelo tem se mostrado extremamente ineficiente, e exclui uma enorme parcela da população. Treinamentos da moda como o HIIT (Treinamento intervalado de alta intensidade) vivem uma grande contradição: eles se vendem como a melhor solução para a perda de peso, e, no entanto, não são indicados para que esta acima do peso, exatamente o público que mais se favoreceria desta novidade. O que equivale a 52,9% da população brasileira (alunos obesos e com sobrepeso). Correr a 7 km/ h, equivale a uma carga de 7 a 8 vezes o nosso peso corporal agindo sobre a articulação do joelho. Por exemplo, para um aluno que pesa 100kg, a carga sobre a articulação do joelho será de 700kg. E, quanto maior a velocidade, mais a carga vai agir sobre as articulações. Neste exato momento, milhares de pessoas estão se lesionando em todo o mundo devido a esse modelo de treinamento.

 

O senhor diz que “a indústria do corpo” é uma aliada da obesidade e do sedentarismo. De que forma?

Nuno Cobra Jr – Os dois focos motivacionais da indústria do Fitness, mais atrapalham do que ajudam, de forma efetiva, a combater o sedentarismo. São eles: a estética e a perda de peso. Ao investir nestes subprodutos da atividade física, bastante superficiais e narcisistas, estes argumentos associam e transformam, automaticamente, a própria atividade física em algo superficial, em uma obrigação, ou seja, em algo chato e necessário que precisamos fazer para atingirmos certos resultados. Transformar a atividade física em uma pílula ruim que deve ser tomada para termos saúde, beleza e magreza, alimenta e colabora com o sedentarismo. Como a indústria do Fitness transformou a atividade física em uma pílula intragável para a grande maioria da população através do treinamento com sofrimento, automaticamente, ela se transformou em um aliado do sedentarismo, por mais paradoxal que isso possa parecer. As indústrias do Fitness, junto com a Indústria da Moda, sustentam um modelo radical de beleza que estimula a anorexia e a vigorexia. Isto causa um grande impacto na saúde pública, estimulando o uso de anabolizantes e criando uma eterna insatisfação com o próprio corpo, que por fim, serve também como mais um fator de stress, aumento da ansiedade e aumento dos casos de depressão. Você percebe que é possível identificar dezenas de correlações e associações entre estas diversas Indústrias do Corpo? Estes pensamentos, de forma circular, retornam para o mesmo ponto, e assim seguem. Por exemplo, a indústria do Fitness junto com a indústria dos Emagrecedores, são, atualmente, um dos grandes obstáculos no combate a obesidade. Exatamente, porque uma grande parte destas duas indústrias só está interessada em métodos de curto prazo e resultados rápidos e superficiais. Sendo assim, estimulam e levam os alunos a seguirem uma receita que está fadada ao insucesso, para a imensa maioria das pessoas, através de formas radicais de dieta e de treinamento.

 

O senhor afirma também que o “fast training” não é indicado a mais de 90% da população. Qual a razão?

Nuno Cobra Jr – Criei o conceito de “fast training” para explicar de uma forma didática uma questão bastante simples.O fast training se assemelha ao conceito de fast food, só que aplicado ao treinamento. Traduzindo: isto mostra que o treinamento foi empacotado, formatado, dentro de uma lógica comercial e vendável de curto prazo. O nosso corpo, como todo organismo vivo, vive de processos de médio e longo prazo, você não joga uma semente no chão e dela nasce uma arvore adulta em três meses, como defende a indústria do fast training. Quem consome fast food, ingere um alimento vazio, sem qualidade e artificial. Da mesma forma, quem pratica o fast training faz um treinamento esvaziado de sentido, sem qualidade e artificial. O princípio é exatamente o mesmo. Ambos são danosos à saúde. Esta forma de treinamento só serve a uma elite, e mesmo assim, eles irão pagar um custo alto devido a estes excessos. Pode demorar 10 ou 20 anos, mas quando a conta vem, ela costuma ser muito cara. Um pequeno desgaste em um disco intervertebral em nossa coluna, pode evoluir para uma incapacidade de se exercitar para o resto da vida. O treinamento de alta intensidade também causa um enorme stress ao organismo, provocando um efeito depressor sobre o sistema imunológico, expondo o aluno a diversas doenças oportunistas e infecções. Este modelo não é recomendado para mais de 90% da população, somando os sedentários, obesos, alunos com sobrepeso, idosos, alunos sem regularidade e alunos sem adaptação a este modelo radical. Para estes alunos, a combinação entre pouca massa muscular e falta de adaptação articular ao exercício, resulta em um extremo risco de lesão, frente a atividades de alto impacto.

A proposta de uma atividade física que seja equilibrada, lúdica e prazerosa, não é uma utopia? Se ela existe, não é excludente, ou seja, apenas poucas pessoas têm acesso?

Nuno Cobra Jr – Com meu livro “O músculo da Alma, a chave para a sabedoria corporal”, eu me estabeleci como uma das principais vozes da contracultura do treinamento físico no mundo. Mas é da contracultura que nascem as maiores mudanças. Analisando o cenário atual, esta proposta pode soar como uma utopia, realmente. Mas, como toda utopia, ela acena com um novo caminho, com uma solução inovadora e criativa para a grave situação da obesidade e do sedentarismo.  Veja bem, a psicologia social já provou que a maior motivação em relação a mudança de hábitos e as nossas ações está ligado ao prazer. Nenhuma outra motivação é mais eficiente e eloquente. É muito simples, assim como os animais, quando vivemos uma experiência agradável e prazerosa queremos repetir está experiência. Porém, quando vivemos uma experiência desagradável e dolorosa, fazemos de tudo, mesmo que de maneira inconsciente, para fugir dessa experiência. O melhor exercício não é aquele que queima mais calorias, mas aquele que você gosta de fazer. Esse sim, vai dar resultado. Para ser efetiva, a atividade física deve ser incorporada a uma rotina. Esse é o grande segredo. Caso esta atividade seja prazerosa, lúdica e equilibrada, o desafio será muito mais acessível e convidativo para uma grande parcela da população.

 

Até semana que vem!