A culpa devia ser apresentada às crianças desde cedo. Na verdade, ela se apresenta, sim, mas não nua e crua, como deveria ser. Vem disfarçada de frases dramáticas ou curtas, simples ou complexas, que a criança toma ao pé da letra e carrega como um peso por toda sua vida adulta e, assim, sem saber porquê se sente sempre pesada e acaba repetindo as mesmas frases para os próprios filhos. Começam como uma espécie de declaração condicionada de amor: “Eu faço tudo por você”, “Eu dou minha vida por você”, “Eu abri mão da minha vida por você”, e vão ganhando uma carga chantagista maior nos momentos de raiva e frustração que assombram a rotina de qualquer pai e mãe.

Nas ocasiões de maior tensão começam a surgir pressões do tipo “Eu faço tudo pra você e é isso o que eu ganho em troca?”, “Não foi isso que eu imaginei para o meu filho”, “Se você for embora, não precisa voltar”, “Só vou te apoiar se fizer o que eu acho que é melhor, porque EU sei o que é melhor”, “A vida dá voltas, você ainda vai ver”, “Bem feito, eu avisei”, “Não é justo você fazer isso comigo, eu fiz tudo por você”, “Assim eu não vou mais gostar de você”, “É culpa sua”, e por aí vai.

Os pais – dos quais eu não me excluo – geralmente dizem essas gigantescas bobagens sem dar muita importância ao que dizem. Na correria do dia a dia e de tentar convencer o filho, falamos as coisas que, naquele momento, apresentam-se como uma solução, um argumento. Mas não são nem uma coisa, nem outra. Frases desse tipo são um jogo sujo, que incutem na criança e no adolescente o sentimento de culpa.  E nenhum outro sentimento é tão marcante e prejudicial para o desenvolvimento emocional, social e intelectual de um ser humano quanto a culpa.

Nós adultos, pais e mães, deveríamos nos policiar para não agirmos assim e não usarmos a culpa como nossa aliada na educação dos nossos filhos. Crescer livre de culpa é tão fundamental para uma criança quanto crescer amada, cuidada, nutrida, educada, desenvolvida. Não adianta dar tudo do bom e do melhor, dar amor, dar carinho e, na contramão, encher o coração dos pequenos de uma culpa que não lhes cabe.

É impossível ser um pai ou uma mãe perfeitos, é claro que vamos errar. Mas seria muito mais saudável e honesto da nossa parte se, ao escapar da nossa boca algo como “Eu faço tudo por você e é isso que ganho em troca?”, respirássemos fundo e explicássemos: “Desculpe, eu não sinto isso, eu disse isso só pra fazer você se sentir culpado”. Quem sabe assim teremos uma geração futura livre dos incontáveis complexos de culpa que destroem as relações, o coração e o caráter. Quem sabe se as pessoas se sentirem menos culpadas por coisas que não tem culpa, conseguirão se tornar pessoas melhores e fazer menos bobagens das quais realmente são elas as grandes e únicas culpadas.