Quando o telefone tocou, sabia que era ela. As ligações são sempre uma seguida da outra.

– Alô.

– Rosa? Rosa?

– Não é a Rosa.

– Eu queria falar com a Rosa.

– Mas aqui não mora nenhuma Rosa, senhora.

– Ah…

– Senhora?

– (silêncio)

– Senhora?

– Oi…

– Tem algumas semanas que a senhora está ligando aqui em casa, atrás da Rosa ou do Arley, mas acho que o número deve estar anotado errado, porque eles não moram aqui.

– Ah… Me desculpe minha filha, é que a minha vista tá curta. Qual é o seu nome mesmo?

– Maria. E o seu?

– Ester.

– Não se preocupe, Dona Ester, pode ligar quantas vezes quiser. Será um prazer falar com a senhora.

– Obrigada minha filha, eu ligo outro dia então.

Trocamos ainda algumas palavras e ela desligou, desanimada por não conseguir falar com a Rosa. Dona Ester mora sozinha. Mora sozinha e precisa muito falar com a Rosa, e com o Arley. Dia sim, dia não. Dia sim, dia sim, Dona Ester percorre na agenda os pequenos algarismos que levam à Rosa, e ao Arley. Percorre até onde a vista alcança, e como o alcance já é pouco, os números acabam por trazê-la aqui, para o meu telefone, a minha casa, a minha vida.

Fico pensando na Dona Ester. Onde ela mora? São Paulo é tão grande. Pode ser do outro lado da cidade, ou ela pode estar no quarteirão de cima, olhando pela janela nesse exato momento, enquanto eu olho pela minha. Dona Ester tem filhos? Vizinhos com quem pode contar? Teve um marido que deixou saudades? Rancor? Construiu uma carreira mesmo quando era praticamente impossível ou viveu dedicada ao lar e à família? Tem família? Prepara quitutes deliciosos de avó ou é uma ativista pelos direitos dos animais que nunca se deu bem com a cozinha?

Uma vez eu escrevi uma história em que a personagem se chamava Ester. Era uma jovem de cabelos vermelhos, andar firme e elegante, que dançava para ganhar a vida em um circo mambembe viajando pelo interior. Era alegre, altiva, totalmente segura de si, e poderia ter sido tudo aquilo que quisesse ser.

Deixo meu pensamento voar e imagino se a Dona Ester teria algo em comum com a personagem da minha história que ainda não coloquei num livro. Mas não consigo encontrar, faltam elementos para julgar. Da Dona Ester sei apenas que vive sozinha, não ouve muito bem, tem a vista curta, não desiste fácil, está perdendo a batalha para as coisas práticas do dia a dia e, claro, precisa muito falar com a Rosa ou com o Arley.