– Eu não sou o menino da selva – disse meu filho Antônio, de dois anos, enquanto assistíamos a um desenho na tv.

– Eu sou o menino da casa.

Mas a nossa casa não é casa. É um apartamento pequeno em São Paulo, sem quintal, com grades nas janelas. Ainda assim, se ficamos um período maior fora, como nas férias que passamos em Três Pontas, no sul de Minas, ele pede para vir embora. “Quero a minha casa”, diz. Troca os quintais, a roça, a piscina, as brincadeiras nas ruas calmas pelo apartamento no décimo quarto andar. Porque ali é o seu lugar. É onde se sente protegido, é o terreno conhecido e inabalável da rotina, a fronteira visível do seu pequeno reino de criança.

Meus pais se separaram quando eu era muito pequena, na idade em que a gente não tem idade para lembrar depois. Passei boa parte da minha infância nas casas dos meus avós em Três Pontas e Belo Horizonte. Aquelas eram a minha casa, o meu lugar. O lugar onde eu me sentia segura, acolhida. Foram o reino da minha infância, das minhas mais queridas, profundas e doces lembranças. Das descobertas, das frustrações, da necessidade constante – que não me abandonou – de sonhar. Foi na barra das saias e calças dos meus avós que eu descobri o mundo, e me apaixonei por ele.

O Thesouro da Juventude, na estante da vó Norma, também repleta de contos, prêmios Nobel, Guaranis, Senhoras, Lírios do Campo. Foi pela estante dela e do meu avô Rodrigo, agrônomo-jornalista e fundador do “Ruralista” – jornal no qual publiquei meu primeiro texto, aos onze anos – que aprendi o universo maravilhoso da literatura. Através deles conheci o quão poderosa pode ser uma história. Por eles, descobri um dos meus maiores prazeres, que me completa e satisfaz: ler e escrever.

Graças ao meu outro avô, Ismael, os anos dessa minha infância foram marcados por períodos. O período do vidro jateado, das galinhas, dos doces cristalizados na estufa em cima do telhado, das gaiolas, das gaivotas de madeira, das miniaturas, dos lombos com abacaxi. Ele estava sempre procurando algo novo para fazer, e quanto mais trabalhoso, melhor. Assim como minha avó Maria Lúcia, que passava horas e horas diante das vitrines de boutiques chiques da Savassi para copiar, linha por linha, o modelo mais complicado para mim. Dos dois, aprendi o gosto pela inventação de moda, pela mania de começar algo novo mesmo que esteja tudo bem assim. Afinal, para que fazer o mesmo se pode fazer algo diferente?

Eram dois mundos, duas casas distantes ligadas por uma estrada e uma menina, a neta que ia e vinha. Em Três Pontas, a reza com minha avó Norma em torno da mesa com um copo de água, na casa do Tio João Corrêa, seguida pelo canto forte e o acordeon. Em Belo Horizonte, escondido do meu pai, minha avó Maria Lúcia me levava ao culto. De um lado, os ensinamentos do Krishnamurti. Do outro, as pregações do Edir Macedo. Dois universos opostos em muitas coisas, mas iguais no principal: eram o meu lugar, onde o amor era tanto que dava para pegar com as mãos. Um amor que preencheu a minha alma e fez de mim quem eu sou.

Quando meu filho pequeno pede para deixar a vida calma e livre no interior para vir para o dia a dia cercado pelas grades nas janelas, me coloco no lugar dele – e entendo. O que faz da nossa infância um lugar seguro não é a liberdade de andar pelas ruas sem medo nem o quintal nem a piscina nem o brinquedo mais caro do mundo ou o parque mais fabuloso de toda a eternidade. O que faz da nossa infância um lugar seguro é o amor, é nos sentir protegidos e amados. E aqui, na rotina da sua vida no décimo quarto andar, é onde ele se sente assim.