Sou uma sedentária confessa, assumida e conformada. Ou melhor, era até dois meses atrás. Desde que me mudei para São Paulo, há nove anos, minha atividade física se resumia a andar alguns passos dentro do apartamento ou do escritório (geralmente da cadeira para a garrafa de café), e algumas voltas com os filhos pela rua. Antes de vir para cá, quando vivia em Três Pontas, no sul de Minas, e mesmo durante a faculdade em BH, minhas tentativas de me movimentar se limitavam a algumas passagens pela hidroginástica e pelo pilates. Nada que pudesse fazer escorrer uma gota de suor.

Mas eu tenho trinta e seis anos e comecei a ficar literalmente esgotada ao ter que subir ou descer um lance de escada. Minha saúde vai bem, mas se eu não fizesse algo a respeito, sabia que em breve não estaria tão bem assim. Aliado a esse cansaço e preocupação começando a rondar meus pensamentos, algum empresário desgraçado abriu uma academia no prédio vizinho ao meu e, como estratégia para captar novos clientes, colocou o preço de R$ 69,90 reais por mês. Esse valor, para uma academia novinha, em São Paulo, no prédio ao lado? Era praticamente um insulto. Um tapa na cara. Algo tipo: “Tá fazendo o que aí, sua sedentária? Não tem mais desculpa, pode vir se matricular”. Em outubro, fui. Fomos. Toda a família.

Comecei animadíssima e resolvi tentar a musculação. Os aparelhos estavam com trinta quilos de peso. Como consegui levantá-los, não me preocupei em diminuir a carga. Fiz braços no primeiro dia. Pernas no segundo. No terceiro, eu não conseguia me mover. Parecia que eu tinha sido picada pelo mosquito da dengue e atropelada por um caminhão no mesmo dia. Com dores em todas as juntas, ligamentos, músculos. Tive que tomar antinflamatório, analgésico e desapareci da academia por um mês e meio.

Quando voltei, no começo de novembro, coloquei os pés no chão. Vinte minutos de caminhada na esteira, era o que eu conseguia. Meu marido ia junto e, enquanto corria (não sei como ele conseguia, porque também ficou muito tempo parado), me dizia que vinte era pouco, que eu devia andar mais e começar a correr. Em pouco menos de um mês eu já conseguia andar por cinquenta minutos. Até que, no dia 15 de dezembro, de tanto ele falar, resolvi ver como era essa história de correr. Corri por três minutos. E não parei mais. Hoje, 23 de janeiro, passaram-se 39 dias e estou correndo trinta e cinco minutos direto. Caminho cinco, corro trinta e cinco, ando dez. Ou vou intercalando de outras formas. Corro na esteira, corro na rua. No sol, na chuva, na ventania. Todos os dias, quando começo a correr, fico espantada de ver como estou conseguindo. Como meu corpo respondeu. Como está me fazendo bem. Correr parecia algo inatingível.

Eu tive várias conquistas na minha vida até aqui e me sinto realizada. Conquistas pessoais e profissionais. Conquistas que eram extremamente difíceis e complexas. Tenho filhos, plantei árvores e escrevi livros. Tive sonhos aparentemente impossíveis e consegui coloca-los em prática. Mas nunca duvidei da minha capacidade para fazê-los acontecer, porque eram coisas que estavam no meu radar de interesses e competências, coisas que eu sabia que tinha capacidade para fazer. Correr nunca esteve no meu radar. Nunca foi algo por que me interessei e sempre convivi bem com a minha inabilidade para qualquer atividade física. Não me achava capaz. E posso dizer que essa foi uma das grandes surpresas da minha vida. Ver que eu era capaz de fazer algo que não me julgava minimamente capacitada.

Hoje, quando eu corro, me sinto livre. Sinto um orgulho imenso de mim mesma. Mais do que isso, sinto que as minhas possibilidades são infinitas. Temos o hábito de investir apenas – ou principalmente – naquilo em que somos bom ou temos uma certa facilidade, ou gostamos muito. Deixar de explorar outras áreas, deixar de enveredar pelo desconhecido, não nos traz segurança nem conforto, ao contrário, mina as diversas chances de nos descobrirmos, progredirmos e sermos ainda mais felizes. Na minha lista de desejos do ano novo, inclui “correr por cinquenta minutos seguidos”. Estamos em janeiro e estou quase lá. Em 2016, quero participar de uma maratona e, depois, fazer um curso de restauração, aprender crochê ou qualquer outra coisa que seja totalmente estranha para mim. Quero me redescobrir, a cada dia. Libertar os meus limites e viver a vida feliz.