Todo mundo precisa de uma hora do dia para fazer nada. Não precisa necessariamente ser uma hora. Podem ser dez minutos, cinco. Não precisa ser dia. Pode ser noite, madrugada. Tanto faz. O importante é ter um momento para fazer absolutamente nada. Não pensar. Parar. Olhar. Contemplar. Sentir. Perceber o mundo ao redor. O mundo no qual vivemos e do qual fazemos parte. Não o mundo das notícias, dos jornais, portais e redes sociais. Não o mundo da correria, da conversa, da interação, da ação. O mundo pelo mundo, pelo olhar de cada um.

A minha hora favorita para fazer nada é o fim da tarde. Quando a luz de um sol cansado, pronto pra dormir, pinta a vida de amarelo cor de aconchego, de quem cumpriu a labuta com orgulho e se prepara para descansar. Gosto de parar um instante e sentir a tarde cair, escorrer de fininho por mim. Eu posso estar feliz. Posso estar triste, desesperada, aos prantos. Posso estar na expectativa de um grande momento, nos cacos de uma dor. O fim da tarde sempre irá chegar, e partir. Mesmo que as nuvens encubram o sol e minha doce luz amarela. Mesmo que chova ou vente forte. Mesmo que eu não queira. Ou já não esteja aqui. O dia irá amanhecer. Será longo e gordo. E o fim da tarde virá de mansinho, anunciando uma noite longa e gorda, e um novo dia virá. Somos nós que corremos. Os dias são sempre iguais. As horas não mudam o caminhar.

Tirar alguns minutos para fazer nada ajuda a perceber isso. A nossa insignificância diante da vida como um todo. Da natureza e do universo. Somos apenas uma parte mínima de uma enorme e complexa engrenagem. E justamente por isso, é nosso dever viver da melhor forma possível. Dar o melhor de nós para nós mesmos e para os que estão à nossa volta, porque para eles não somos insignificantes, somos muito. Devemos agradecer e fazer valer cada instante por aqui. Viver por inteiro. Que é infinitamente melhor do que viver pela metade. Porque mais um fim de tarde está por vir. Mais uma noite. Outro dia. Outra tarde. E sempre será assim.