Já vi de tudo na avenida Paulista. Elvis Presley. Michael Jackson. O senhor de cabelos brancos compridos e sua clarineta. A guitarra. O palhaço. A campanha dos gatos. Dos professores. Contra a corrupção. Já vi luzes de Natal. Luzes de neon. Prédios de led. Instalações. Mascarados. Todo tipo de arte. Todo tipo de gente, esquisita ou não. Mas nada me chamou tanto a atenção quanto as quatro meninas do outro lado da calçada na tarde de ontem, quando eu voltava de um almoço na Liberdade.

Na casa dos vinte anos, jeans, tênis, uma blusa qualquer, óculos de grau, cada uma com seu cartaz na mão. Em tinta guache azul e caixa alta, ofereciam a quem passasse, de forma simples e clara: ABRAÇO GRÁTIS. Alguns passavam reto. Mas a maioria aceitava a oferta. Uma mulher indo para o trabalho. Uma mãe e o filho pequeno. Um rapaz de patins. Um casal de velhos. Não havia conversa, nem troca de palavras, nem olhares, nem segunda intenção. Só um longo, profundo e verdadeiro abraço. E cada qual continuava o seu caminho. E as meninas continuavam ali, oferecendo o que estava ao seu alcance, e ao alcance de todos, mas há muito tempo sem espaço, o abraço.

O abraço, como deve ser, virou artigo de raridade. Privilégio de poucos. Ausência de muitos. O abraço envolve o abraçado, aconchega, protege. O abraço liberta o abraçador, porque no ato de abraçar ele se expõe, se entrega. Quem abraça desnuda a alma, coloca os pés no chão sem vergonha de estar descalço e se livra das barreiras e dos medos, dos orgulhos e dos recalques, porque oferece o que há de mais íntimo e profundo: o seu corpo para acolher o outro. Receber um abraço verdadeiro é um presente. Dar um abraço verdadeiro é doação. Dar e receber. Simples e claro como a tinta guache azul no cartaz.

Mas, as pessoas não se abraçam mais. No máximo aquele abraço formal com a mãozinha no ombro, à distância segura para não constranger, não se expor, não se deixar envolver. E de uma maneira tão mecânica e inconsciente que nem nos damos conta. Basta parar e pensar: “quantas pessoas você realmente abraça”? Poucas. Ou uma, quando muito. Nenhuma, talvez. Eu queria ganhar na loteria, fazer projetos para ajudar os outros, a família e os amigos. Tinha planos grandiosos de fada madrinha. Melhorar o mundo, a vida das pessoas, fazer a minha parte. Me dei conta de que nada valerá de fato se eu não começar pelo primeiro pequeno gigante passo. Se eu não começar pelo abraço.