No fim, não foi um desastre: quando Lady Gaga subiu ao palco para sua primeira apresentação em São Paulo, 50 mil pessoas a aguardavam na plateia, segundo a organização. Não chegou a lotar o enorme do Estádio do Morumbi, que já abrigou shows para mais de 80 mil, mas não se pode dizer que atrair tanta gente com apenas 4 anos de estrada seja pouca coisa. Mérito de seu sucesso internacional e das várias promoções lançadas pela produtora brasileira para desovar os ingressos – bem salgados para alguém com só 4 anos de carreira. Ela agradeceu: “Sei que as entradas foram caras, mas farei a melhor noite possível. Alguém aqui vai trabalhar amanhã? Eu não dou a mínima. Vamos dançar a noite toda”. E entregou mesmo mais de 2h30 de show.

A performance de Lady Gaga é um caldeirão de influências, que vai da arte contemporânea às raízes da pop music. É toda teatral. No palco, é possível ver desde traços de Andy Warhol no cenário a Queen em alguns samples (na bela balada You & I). Nada ali é novo, mas a cantora soube reciclar, misturar e imprimir sua marca. Tradicional comoção gringa à parte, sua surpresa com o calor do público brasileiro parecia verdadeira. Ela cantou com vontade, dançou à beça e deixou meia dúzia de fãs adolescentes atônitos ao levá-los ao palco com sua mensagem de “seja diferente, seja você e acredite nos seus sonhos”. Ponto para ela.

São durante os momentos de excesso de teatralidade, porém, que o show se perde. Gaga parece querer passar muitas mensagens, mas ainda não tem lá muito a dizer. As performances mais elaboradas são as que menos empolgam: a apresentação começa em um clima medieval com Highway Unicorn (Road To Love) e emenda com Government Hooker, que tem direito até a uma simulação de sexo oral. Depois, mais alguns minutos com a cantora saindo de uma vagina para começar Born This Way, quando a máquina realmente engrena e o público se entrega. Passado o êxtase, Gaga declama um manifesto nos telões (em inglês) e lá se vão mais alguns minutos de discurso até começar outro bloco. E assim a apresentação vai se mesclando entre excelentes canções pop e alguns dedos de pretensão à toa.

Pelo menos aqui, estava claro que o público não lidava bem com aquilo. Nem compreendia. Seus fãs querem dançar e gritar refrões fáceis – coisa que Gaga entrega aos poucos. Se ela deixar de lado as comparações com outros bastiões do pop (não vamos citar Madonna), vai longe. Se investir nas músicas cada vez mais longas, nos clipes de 10 minutos e em turnês megalomaníacas, corre o risco de se perder no próprio hype e apagar (também não vamos falar em Michael Jackson).

Na saída do Morumbi, um casal comentava: “Quando ela não ficava de lenga-lenga, foi muito bom”. Impossível não concordar. Just Dance, seu primeiro single, vem com uma das performances menos elaboradas, mas que mais cativam apenas pela força da canção. O mesmo vale para o encerramento simples, eficiente e quase épico com Marry The Night. Gaga vale o show quando faz o que sabe: pop para dançar, com personalidade e pouco discurso. Que ela entenda o recado.