Se você pretende assistir às apresentações restantes de Madonna no Brasil para dançar e esquecer dos problemas, como pregava Holiday, cuidado: pode sair decepcionado. Aos 54 anos, a garota do Michigan ainda tem muito a dizer, e quer que você escute. Se na turnê anterior uma recém-divorciada cinquentona desfilava seus hits com pouca roupa, agora ela já começa matando seu amante no palco, (muito bem) vestida até o pescoço. “Vou direto para o inferno, e vou encontrar um monte de amigos lá”, brinca durante a performance de Gang Bang, a segunda do show.

Pós-divórcio, Madonna está mais introspectiva. No palco, parece querer exorcizar seus demônios. Logo no primeiro bloco, dispara: “Eu tentei ser uma boa garota, tentei ser sua mulher e me diminuí (…) Tentei ser tudo o que você espera de mim, e se falhei, estou pouco me f*”. Este é o tom da MDNA Tour, uma obra cênica, escura, que parece Tarantino e reforça sua autoafirmação.

Tecnicamente, Madonna continua imbatível: ela não se permite errar. Todo o cenário é projetado através de telões imensos, que se transformam conforme a música – ora assumem o formato de uma catedral gótica, ora dão espaço a cenários futurísticos. A banda, as backing vocals e os dançarinos estão acima de qualquer deslize. São tantos detalhes e acontecimentos no palco que fica difícil concentrar sua visão em apenas um ponto. Madonna é a engrenagem principal daquela monstruosa estrutura, mas sua MDNA Tour tem vida própria.

Para quem não é fã ou acompanha pouco a popstar, o show talvez pareça cansativo em alguns momentos. Não há Music, Into The Groove, Holiday e aquela leva de canções fáceis e deliciosas. Mesmo os hits receberam roupagens mais densas, como é o caso de Hung Up. E soam pior, apesar da louvável tentativa de reinvenção. Além disso, os paulistanos não ouviram Like a Virgin e Love Spent, cortadas do repertório, nem viram a tão falada tatuagem de “periguete” que a estrela mostrou no Rio.

Assim, mesmo com todo seu aparato monstruoso e futuros recordes imbatíveis, a MDNA Tour não é o melhor show de Madonna. Mas entrega o que promete: uma apresentação pop de primeiríssima linha, com aquela meia dúzia de hits unânimes que justifica outra dúzia de caprichos. E ela sabe o que seus súditos querem: o refrão de Like a Prayer, a penúltima, foi cantado em uníssono por 58 mil pessoas ontem, no Estádio do Morumbi, com um belíssimo coral no palco. Nesses momentos temos a certeza de que sim, Madonna ainda é a dona do jogo. E não tem por que parar.