As últimas duas décadas não foram generosas para Axl Rose. O vocalista prodígio que estourou nos anos 1980 viu sua banda se desfazer na mesma velocidade em que sua performance singular nos palcos parecia minguar. Dos brilhantes Use Your Illusion I e II (1991) para cá, a turma de Axl lançou apenas um disco de inéditas, Chinese Democracy (2008). Os custos foram caríssimos. As idas e vindas de integrantes obrigaram o Guns a fazer inúmeras regravações das mesmas faixas. Um fã menos ortodoxo, que se permite ouvir o álbum sem julgamentos, percebe que não é ruim. Está tudo ali: as muitas linhas de guitarra, a bateria marcante, os refrões para levantar estádios. Até a desgastada voz de Axl parece ser problema pequeno em meio a toda produção. O conjunto da obra funciona. Mas estamos ouvindo um disco daquele Guns N’ Roses que uma vez foi a banda que dominou o rock? A resposta é não. É esse sentimento que fica ao assistir a um show do grupo hoje.

A apresentação que o Guns repaginado mostrou na sexta-feira, 28, no Anhembi, em São Paulo, é caprichada. Efeitos pirotécnicos pontuam todo espetáculo – sim, é um grande espetáculo. Clássicos como Live And Let Die e Paradise City têm direito a fogos, canhões de gelo seco e chuva de papel picado. Tecnicamente, a banda de Axl nunca esteve melhor. Se não tem um Slash, “o chefe”, como é chamado nos bastidores, contra-atacou com três guitarristas de primeira: DJ Ashba, Ron “Bumblefoot” Thal e Richard Fortus. Eles fizeram a lição de casa e hoje vão além e já improvisam (bem) na hora de executar aqueles solos e riffs que marcaram uma geração. Mas, para um fã antigo que usa camisetas do Slash, o saudosismo fala mais alto, o pouco carisma da turma não convence… E dá-lhe muitos fogos na próxima canção.

A pergunta mais feita quando se trata do novo Guns N’ Roses merece um tópico à parte: e a voz de Axl? Bem, ela não sumiu, como gostam de dizer aqueles que acreditam que o vocalista destruiu o grupo por causa de seu ego imenso. Há momentos em que ele dá provas evidentes de sua potência vocal – seja com vocalizações improvisadas ou em um agudo que parece ter saído de uma gravação dos bons tempos. Quando Axl se envolve, o resultado é nítido. Ontem, o público paulistano pôde testemunhar um desses momentos em Knocking On Heaven’s Door. E, quando isso acontece, os fãs vão a loucura: palmas, gritos, palmas e mais palmas. Todos estavam esperando por aquilo. Porém, até o mais ardoroso seguidor há de convir que, na maior parte do tempo, falta fôlego ao rapaz. O que não acontece a seus companheiros sobreviventes dos anos 1980: Steven Tyler, Jon Bon Jovi, Bono, Bruce Dickinson e tantos outros. A comparação é chata, mas inevitável.

Moral da história: vale a pena ir a um show do Guns N’ Roses em 2014? Se você nunca assistiu a uma apresentação do grupo ou conseguir deixar o passado de lado, sim. Verá todos os clássicos – foram 2h30 de show – muito bem executados, embalados em uma produção Hollywoodiana. Ontem, muitos adolescentes pulavam ensandecidos no Anhembi. Pouco ligavam para o saudosismo e, no fim das contas, saíram satisfeitos com o belo show de rock que testemunharam. Agora, se você estiver olhando para trás e esperar por aquelas apresentações dignas do que já foi uma das melhores bandas de rock do mundo… É melhor ficar em casa.

O set-list do show:

Chinese Democracy
Welcome to the Jungle
It’s So Easy
Mr. Brownstone
Estranged
Better
Rocket Queen
Live and Let Die
This I Love
Holidays in the Sun (Sex Pistols cover)
Catcher in the Rye
You Could Be Mine
Sweet Child O’ Mine
November Rain
Abnormal (Bumblefoot cover)
Don’t Cry
Knockin’ on Heaven’s Door
Civil War
Nightrain

Bis:
Patience
The Seeker (The Who cover)
Paradise City

(Deu saudade? Ouça aqui um playlist com todos os clássicos da banda)