Aerosmith mostra quase cinco décadas em SP. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Aos 68 anos, a voz de Steven Tyler continua praticamente a mesma. O fato é notável para quem conhece sua história. A serviço do rock há quase cinco décadas, o frontman do Aerosmith é outra daquelas lendas que passaram por uma vida inteira de altos e baixos, dividindo-se entre turnês intermináveis e problemas com drogas, entregando clássicos que se tornaram a trilha sonora de gerações enquanto lutava contra seus demônios pessoais. Em sua autobiografia, o best-seller O Barulho da Minha Cabeça Te Incomoda? (2011), Tyler calcula ter gasto nada menos que US$ 20 milhões em narcóticos de todos os tipos e deixa uma reflexão para o leitor: como chegou tão longe? Se soubesse a resposta, o vocalista certamente deveria vendê-la a seus colegas nem tão bem sucedidos na arte de sobreviver e recuperar esses milhões todos. Não que precise: com um legado sólido de hits construído nas décadas passadas, o Aerosmith continua lotando estádios com turnês de grandes sucessos e vendendo mais coletâneas do que material inédito, assim como os Rolling Stones, Guns N’ Roses, AC/DC e outras grandes bandas que continuam na ativa.

No show que mostrou neste sábado em São Paulo, diante de 45 mil pessoas, o Aerosmith entregou tudo o que se espera de um grupo que integra a primeira linha do rock há tanto tempo. Os hits estavam lá — e, é claro, não há repertório de duas horas que dê conta de tantos sucessos. Hole In My SoulAmazing e Jaded foram algumas das pérolas entoadas pelos fãs, mas não houve tempo para atender aos pedidos, embora o vocalista tenha soltado um protocolar “o que vocês querem ouvir?” durante a apresentação, que ainda trouxe dois clássicos que estavam de fora da turnê: Eat The Rich e Draw The Line. A execução é cirúrgica. Com tantos anos de estrada, Joe Perry, Tom Hamilton, Brad Whitford e Joey Kramer passeiam pelo hard rock sem errar, improvisando com um toque de blues sempre que podem. A performance de Tyler – com direito a muitos lenços, visual coloridíssimo e estampas oitentistas – é tão icônica quanto sua voz. Na terceira música, Cryin’, grande sucesso nas FMs brasileiras em 1993, ele saca uma gaita do bolso e os fãs deliram. Entre uma balada e outra, não há como não se deixar envolver pelo roteiro. Dá-lhe celulares, ligações, beijos e abraços.

A banda diz que fará sua despedida com esta turnê Rock’n’Roll Rumble, que ainda passa por Recife, Bolívia, Peru, México e Estados Unidos. No ano que vem, eles voltam para o Rock In Rio. Não seria surpresa se retornassem a São Paulo com uma apresentação bem parecida a que mostraram ontem. Apesar do velho script, o Aerosmith vale o show.

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