Leitura matinal. FOTO: Arquivo Pessoal

Antes de parir, um pedido.

Mulheres, desculpem-nos pelos momentos de inanição, pelos anos de solidão, pela remanescente omissão. Por nos assumirmos provedores (às vezes nem isso) e nos isentarmos (em grande número) como educadores de nossos filhos. Por não enxergarmos que o mundo mudou e fecharmos os olhos à noite sem nenhuma culpa. Desculpem-nos pelo passado e pelo que ainda acontece no presente.

Mas acreditem, mães, tem uma geração de pais querendo romper com isso aí. Caras que se incomodam com a sobrecarga histórica imposta a vocês na criação dos pequenos e que discutem em grupo como reduzir esse abismo escavado ao longo de décadas na nossa sociedade. Homens que não toleram a hierarquia de gênero dentro de casa, pregam um apego maior a suas crias e que por causa dos novos hábitos passaram a se ver ‘vítimas’ coadjuvantes do machismo que, de uma forma ou de outra, ajudaram a perpetuar.

“Tá de babá?” é o que escutam hoje quando saem com seus filhos sem uma presença feminina ao lado. Sim, algo sutil e incomparável com o que as mães ouvem nos pré-julgamentos diários (enquanto o tribunal da maternidade tortura as mulheres na primeira instância, o foro da paternidade continua sendo privilegiado). Porém, um exemplo sintomático de que o ponta-pé inicial foi dado mas o jogo ainda está na retranca.

O movimento

Tô de Pai não é apenas uma resposta a essas circunstâncias. Este blog recém-nascido se propõe um novo canal de informação e reflexão sobre o que passou a ser chamado de paternidade ativa. Há um movimento em curso que está transformando a vida de famílias e, principalmente, a relação entre pai e filho. Ele ainda engatinha no chão da sala, é verdade, mas já esboça grandes conquistas na construção do vínculo paterno desde a primeira infância e na criação compartilhada. Precisa de projeção.

Há pais que desejam ser mais ativos, assumir mais responsabilidades e partilhar com as mães a difícil missão de cuidar e educar os pequenos, mas muitas vezes não sabem como fazê-lo, não possuem referências e, pior, temem o erro e suas consequências. Precisam de apoio, literatura e troca de experiências com outros pais, assim como as mães já fazem há tempos, para construírem a necessária credibilidade paterna. Mas a falta de costume e o isolamento os tornam reféns dos clichês que surgem na primeira página do Google ou então meros cumpridores de tarefas delegadas pelas mulheres.  

Gerações

Não se trata aqui de condenar as gerações passadas de pais, a forma como meu pai me criou ou como ele foi criado pelo meu avô. Naqueles tempos paternidade era quase um termo jurídico restrito a processos de reconhecimento ou guarda dos filhos na Justiça. Havia uma divisão arraigada na sociedade de que o pai tinha de pôr o arroz e o feijão dentro de casa e a mãe deveria cozinhar e ensinar o filho a comer. Sei que há novos pais que ainda pensam assim. Acontece que mesmo antes de o movimento feminista queimar os primeiros sutiãs nos anos 60 as mulheres já saíam de casa para ajudar no rateio do rango, mas continuaram sozinhas na função doméstica, amargando uma dupla jornada cruel.

A nova paternidade é o reconhecimento de que essa balança precisa ser reequilibrada associado à consciência paterna de que não vale mais a pena ‘sacrificar’ a convivência com o filho pelo trabalho ou pelo dinheiro. Ou seja, ela nasce ‘pós-termo’ (como dizem nos hospitais), num parto a fórceps, como consequência das conquistas maternas. E esse é um dos motivos pelo qual o post de estreia do Tô de Pai começa falando com as mães (o outro, não vou negar, é editorial, afinal, a chance de você, pai, ter chegado até aqui por indicação de uma mãe é de 95%, sem margem de erro).

Mais do que isso, o próprio blog foi concebido pela maternagem. Foi Fernanda Aranda, minha companheira e mãe extraordinária, quem me sugeriu, há meses, escrever sobre minha vivência como pai da Clara, da Olívia e do Martin aqui no Estadão, onde trabalho desde 2013. Também foi ela quem insistiu até ontem para eu parar de dilatar e contrair essas frases, criar coragem e parir logo esse rebento aqui. Dedico esse texto a ela, minha parceira, que foi fundamental para o meu nascimento como pai, e à minha mãe, em quem me espelhei no início da minha trajetória paterna.

Start-up

Fiquei gestando esse projeto e demorei um pouco a dar o start porque não queria ter um blog somente para descrever a minha rotina de pai. A internet já está cheia de boas histórias paternas, blogueiros e youtubers lacradores. Nesse período fui pesquisar as poucas referências bibliográficas que existem sobre paternidade, entrei em um grupo com mais de 150 pais para compreender nosso universo além do próprio umbigo e criei um outro grupo de pesquisa (PaterPoll) sobre paternidade cujos resultados trarei aqui no Tô de Pai.

Virei pai aos 30 com o nascimento nada planejado da duplinha Clara e Olívia em plena Copa de 14. Desde o início me dediquei exaustivamente à função. Foram inúmeras trocas de fralda, banhos na banheira, madrugadas em claro fazendo elas arrotarem. Incontáveis idas ao mercado, farmácia, pediatra, vacina, banhos de sol e muita brincadeira. Uma lista de tarefas cumpridas que rendiam elogios dos mais chegados aos mais estranhos. Eu me sentia o super-pai, fazendo coisas que nenhum pai havia feito antes. E apesar do cansaço, estava achando aquilo fácil.

Até que a licença-maternidade acabou (sabe nada inocente!). Com cinco meses, Fernanda voltou ao trabalho, as meninas começaram a frequentar a creche meio-período e toda angústia que ela externava antes e eu minimizava passou a fazer sentido. Por trás do trabalho braçal que eu exercia (puro músculo, diria Peppa Pig) havia uma carga mental oculta na rotina dela que eu só comecei a me dar conta quando passei a ficar cinco horas sozinho com nossas pachucas todas as manhãs.

Só foi quando eu me empoderei (para usar um termo da moda) da rotina doméstica e familiar que eu deixei de ser um pai reativo e tarefeiro e me tornei um pai que tenta ser mais ativo e propositivo. Foi quando tive de comandar a introdução alimentar das meninas, propor atividades lúdicas sozinho, fazer dormir sem mamar, levá-las à creche e falar com as cuidadoras do berçário, cortar as unhas, dar remédio etc. A partir dali constatei que o trabalho é o verdadeiro momento de ‘descanso’ do dia.

Agora, convido você, pai, a refletir sobre a divisão desse latifúndio na sua casa. Quais tarefas você executa com seu filho sem ter sido demandado pela mãe? Quantas vezes pesquisou na internet ou consultou outros pais para tentar resolver um problema relacionado ao seu filho? Quantas vezes você faltou ao trabalho porque seu filho estava doente?

Cara, não é fácil, não é nada romântico, mas faz um bem danado para sua auto-estima como pai, estreita seu vínculo com o filho e alivia a sobrecarga da mãe. Lá em casa sobrou disposição até para fazer o Martin, nosso terceiro filho que nasceu há seis meses (Eita!)

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