Passeio com a neta. ARQUIVO PESSOAL

Parece uma cena qualquer, mas se você olhar bem o que está atravessando a rua é capaz de se emocionar. O avô caminha de mãos dadas com a neta, desbravando o novo, suplantando o velho. Com passos curtos, porém firmes, escreve uma história diferente da que viveu como pai, como filho e como neto. Com o coração aberto, dedica mais carinho, esbanja mais afeto.

Toda vez que falo sobre a falta de referência paterna no início da minha paternidade presente eu me sinto um pouco desertor, aquele filho que abandona a pátria amada após descobrir seu “pretérito imperfeito” mesmo depois de tudo o que ela proporcionou a ele no “futuro do pretérito”, o que, no meu caso, não foi pouco.

Toda mudança num primeiro momento implica uma certa negação do modelo antigo. Não raro escuto de outros pais algo do tipo: “Eu amo meu pai, ele é muito foda, nossa relação sempre foi incrível, mas muito do que eu faço hoje como pai não é inspirado nele”.

Mas sábia a língua portuguesa que nos reservou o “futuro do presente” para podermos enxergar novos sujeitos e predicados na vida mesmo depois de já termos conjugado tantos verbos no passado. O pai de ontem virou o avô de hoje e, assim como na paternidade, o papel do avô também mudou. Nosso antigo modelo paterno também se transformou, agora como pai do papai ou pai da mamãe.

Esses homens sexagenários, cabeças brancas ou calvas, brincam mais, beijam mais e estão mais presentes na vida dos netos do que os avôs de ontem. Pense na sua relação com o seu avô na infância e observe agora a relação do seu pai ou do seu sogro com seu filho. Quanta mudança, não é?

Há homens que fazem hoje com seus netos e netas coisas que jamais fizeram com seus filhos. Vejo com frequência avôs levando e buscando seus netos na escola, dando banho nos pequenos sozinhos depois da natação, passeando no parque ou no teatro, servindo comida, levando ao banheiro e colocando para dormir.

Vejo isso na minha família. Desde o nascimento das minhas filhas, há quatro anos, o Vovô Magu (meu pai) e o Vôwa (meu sogro) foram amadurecendo como avôs assim como eu fui amadurecendo como pai. Somos frutos de um mesmo fenômeno de transformação nas relações familiares que convoca os homens a exercerem novos papéis.

Nessas férias escolares de julho, por exemplo, foi o Vovô Magu quem levou as meninas todos os dias para fazer xixi de madrugada na semana em que elas ficaram na casa dele. Sem contar a comida que preparou e os passeios que proporcionou. Já o VôWa foi sozinho com a Clara e a Olívia ao teatro e depois teve de se virar para levá-las ao mesmo tempo no banheiro feminino. Sem contar suas mágicas gastronômicas e seus vários personagens. Ser avô hoje não é só diversão, é diversão, comida e arte.

Eles romperam certas travas, superaram alguns medos e se apoderaram da função avô completo de tal forma que hoje deixamos a dose dupla (em breve o trio, quem sabe) só com eles de olhos fechados. Uma confiança que emergiu da segurança que eles foram adquirindo a partir da presença, do convívio com os netos, identificando as demandas das crianças e aprendendo a executar tarefas.

Ao menos hoje, quando se comemora o dia dos avós, em vez de falar o que eles não faziam quando eram ‘apenas’ pais, vamos valorizar o que eles fazem hoje como avôs. É muito, é muito incrível. O que demonstra que eles estão conectados com o presente, assim como deviam estar lá no passado, quando eram cobrados para serem os melhores provedores.