Gol da Alemanha. FOTO: Nilton Fukuda/Estadão

“Qual foi seu 7 a 1?”

Foi com essa pergunta que o técnico Luiz Felipe Scolari iniciou uma recente palestra no mundo corporativo para falar sobre superação. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, a trágica goleada sofrida pelo Brasil diante da Alemanha na Copa de 2014, sob o comando de Felipão, deixou de ser motivo de vergonha e virou uma arma retórica do treinador depois que ele reconstruiu a carreira conquistando sete títulos no futebol chinês.

A premissa do pai da ‘Família Scolari’ pentacampeã do mundo em 2002 é a de que cada um de nós carrega seu próprio 7 a 1. Até a Alemanha, nosso algoz há quatro anos, quem diria, acabou de ser eliminada na primeira fase desta Copa, fato que não ocorria há 80 anos e que a imprensa alemã logo comparou ao vexame brasileiro dos 7 a 1.

Siga o Tô de Pai no Facebook

“Qual foi seu 7 a 1? Qual foi sua pior derrota?”, insistiu Felipão em sua palestra, numa provocação que parecia ter sido direcionada a mim.

Na semana que antecedeu a reportagem eu estava completamente combalido, me sentindo fraco e impotente como jamais havia me sentido desde que me tornei pai, curiosamente, durante a Copa do nosso 7 a 1. As crianças haviam acabado de se recuperar daquelas viroses que tornam os dias e as noites uma sessão de tortura física e psicológica. Chegara a hora do meu corpo se entregar. Eu me sentia aquele goleiro buscando a bola no fundo da rede do próprio gol e o capitão sem ânimo para liderar uma reação.

Faltou energia para educar, brincar e até para levar as crianças para tomar vacina ou na aula de natação. Faltou fôlego para pegar meu caçula no colo toda vez que ele erguia os braços na minha direção aos prantos. Faltou disposição e inspiração para escrever aqui. Faltou concentração no trabalho e, principalmente, paciência em casa. Substituí o diálogo pelas broncas, apelei aos gritos e apertões e entreguei as crianças à televisão em busca de um pouquinho de sossego. Deu vontade de desabar como o zagueiro David Luiz naquele 8 de julho de 2014 ou se esconder de vergonha dentro da camisa como fizeram torcedores no Mineirão.

Respondendo à pergunta do Felipão, acho que esse foi meu 7 a 1 enquanto pai. Foi quando me senti frágil e incapaz. Foi quando me senti incompetente e negligente com meus filhos e não conseguia pensar em mais nada a não ser esperar o apito final acabar com o martírio daqueles dias.

Pensando bem, acho que aquele nem foi meu primeiro 7 a 1 na paternidade e, certamente, não será o último. A eliminação precoce da Alemanha nesta Copa mostrou que para você se sentir humilhado ou envergonhado como no 7 a 1 você não precisa necessariamente levar uma goleada dentro de casa. Dependendo do tamanho da frustração, o placar pode ser um mero detalhe. E toda frustração resulta de uma expectativa inalcançada. E a minha expectativa era dar conta do recado (os meus 50% na criação dos filhos) sozinho. Por algumas semanas senti que falhei.

Siga o Tô de Pai no Facebook

Passados alguns dias, um leitor do blog me escreveu relatando o seu dilema paterno. Advogado autônomo de Niterói (RJ), Rodrigo Neves me contou que estava precisando de ajuda porque não conseguia mais conciliar o cuidado praticamente full time do filho Téo (6 meses) com o trabalho em home office, solução que ele adotou ainda durante a gestação de risco da mulher e manteve depois que ela voltou a trabalhar fora com um mês de vida do pequeno.

“Eu continuei sendo um pai pró ativo, realizando todas as tarefas que antes eram impostas exclusivamente à mãe. Entretanto, meu ritmo de trabalho foi afetado, e consequentemente, eu não conseguia produzir a renda que eu conseguia antes do nascimento do Téo”, destacou Rodrigo.

“Tive que parar com as minhas atividades físicas, que são muito importantes para o meu metabolismo. Ou seja, fiquei em uma encruzilhada: eu estava realizando um sonho, acompanhando de perto todo o desenvolvimento do meu filho, mas a minha vida profissional estava sendo muito prejudicada”, concluiu.

Ele não estava arrependido da decisão, só queria dividir sua angústia com outro pai semelhante a ele depois de ter decidido com a esposa que procurariam uma babá para ajudá-lo no dia-a-dia. “Resolvi mandar esse e-mail por que outros pais podem estar passando por uma situação parecida”, escreveu.

E veja como são as coisas. O e-mail do Rodrigo me fortaleceu naqueles dias de 7 a 1. Me alertou para a importância de dividir minha angústia com a minha companheira e despertou em mim a necessidade de erguer a cabeça, pegar a bola e retomar as rédeas do jogo em casa, como se nós dois estivéssemos no mesmo time.

Da mesma forma a minha resposta a ele dizendo que era importante reconhecer a necessidade de ajuda e sugerindo que procurasse uma creche para o Téo em vez de uma babá também surtiu um efeito positivo. “Foi muito bom para mim dividir essa situação com um outro pai”, disse Rodrigo.

Na sequência, ele emendou:

“Li seu artigo sobre procurar minha turma, e eu ainda não achei. Quase a totalidade dos meus amigos ainda não são pais, e os que são pais não são proativos. Então, não passaram pelos conflitos que passo. Geralmente, deixam  seus filhos com a esposa ou com a mãe e não dividem as funções, se preocupando somente em prover a casa”.

Adicionei o Rodrigo no Paternando, grupo de pais do Whatsapp, e ele foi prontamente acolhido por muitos homens que vivenciam ou já passaram por dilemas semelhantes na paternidade. De todas as mensagens de apoio, uma me chamou mais a atenção. Um texto escrito pelo designer gráfico Victor Farat, que coordena rodas de conversas com pais em São Paulo.

Nele, Victor fala como alguns pais, “na boa intenção de não criar atritos na relação, se tornam permissivos e acabam não expondo seus pontos de vista, nem suas necessidades, e o buraco de falta de comunicação e isolamento vai ficando ainda mais fundo”. Para ele, o equilíbrio das divisões paternas e maternas precisa ser construído pelo casal porque a “essa balança não se regula sozinha”.

“Como eu e você podemos apoiar nossas parceiras em um movimento de autonomia e criação de novos modelos sem que ninguém perca suas potências? Se você está vivendo isso na sua casa, dê um passo para trás e converse com ela sobre o que seria uma parceria saudável entre vocês antes que se distanciem demais. Ao exercitar a reflexão sobre nosso papel de pai, e em como equilibrar todos os nossos ‘pratos’ profissional, pessoal, familiar e amoroso, encontramos um espaço maior para ambos se sentirem mais leves na rotina, e o amor poder brotar novamente, mais maduro do que antes”, afirma.

Você pode até achar Felipão um técnico ultrapassado, incapaz de levar um time grande ou a própria seleção a uma nova conquista. Mas é preciso reconhecer a capacidade do comandante do 7 a 1 em superar possíveis traumas. Em vez de fugir do estigma que o persegue há quatro anos, hoje ele fatura uma grana falando sobre a maior derrota do futebol brasileiro e como aquele vexame mundial serviu de lição para ele vencer novos desafios na carreira.

Então, vamos aproveitar o gancho da Copa e falar sobre o 7 a 1.

Qual foi o seu?

Siga o Tô de Pai no Facebook – www.facebook.com/todepai/

Mande sugestões para o e-mail todepai.blog@gmail.com