Dia dos Namorados. FOTO: Pixabay

“Filha, quem é mais bonito, o papai ou o Julio?”

Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando, eu poderia estar pagando de paizão bem-resolvido que nem dá bola, mas…

Eu só estou aqui desabafando que não ter ouvido “papai” como resposta pela primeira vez nesse tipo de brincadeira com uma das minhas filhas foi como tomar cerveja quente no verão. Não desceu redondo.

Nunca me senti tão amado pelas minhas filhas como agora — deve ter um lance do Complexo de Édipo feminino aí no meio. Sei que ainda vivi muito pouco da paternidade, mas tenho a impressão de que em nenhuma outra fase essa demonstração de amor por parte delas vai ser tão intensa e espontânea como agora — espero estar enganado.

Deve ter sido essa sensação reinante que me fez subir no salto a ponto de fazer aquela pergunta boba do começo do texto com a certaza de uma outra resposta, igual a madrasta da Branca de Neve. Uma brincadeira que, refletindo agora, simula uma competição inapropriada para uma criança.

“Por que o Julio, filha?”, insisti.

“Porque ele é muito fofo”, Clara respondeu.

Nos últimos meses, o nome do Julio tem aparecido com frequência nas conversas entre as meninas. Ele é o melhor amigo da Clara no momento (são da mesma classe na escola) e ela tem insistido para eu levá-la na casa dele para jogar vídeo-game, o que ela só fez uma vez na vida com o tio dela. Prometi levar.

No ano passado, era a irmã Olívia quem só falava do Vicente, ex-coleguinha de sala, ressaltando que ele era “forte igual o Hulk”. Eles foram separados de turma na virada de ano e as citações a ele cessaram.

Nesses horas, ainda que de brincadeira, pessoas próximas se voltam para o pai como quem cobra uma atitude autoritária e soberana: “Olha lá, abra o olho. Fica esperto com esses meninos”.

Ainda mais comum são aqueles que pegam essas primeiras demonstrações de afeto da criança pelo sexo oposto e já projetam um casal de namoradinhos, reproduzindo o termo diante das crianças e estimulando beijos e abraços neste contexto.

Acontece que esse tipo de conduta, mais uma herança da nossa sociedade machista, só alimenta a erotização precoce das crianças e coíbe o relacionamento fraternal de gêneros. A mensagem absorvida pela menina, por exemplo, é de que ela só pode se aproximar de meninos se for para namorar e que amizade mesmo só se for com outras meninas. Mais: e se o menino for o namoradinho ela pode querer fazer com ele o mesmo que vê casais adultos fazendo na rua ou na televisão.

Essa ‘sutileza’ pode ser tão nociva para o desenvolvimento cognitivo das crianças que no ano passado o governo do Amazonas lançou uma campanha chamada “Criança não namora, nem de brincadeira”, com o objetivo de combater pela raiz a exploração infantil, problema grave da região.

Aqui em casa esse papo de namoradinho nunca entrou. Por mais que as respostas nos surpreendam, precisamos lembrar que somos os adultos da história e que as crianças são somente crianças. Por isso, também é preciso tomar cuidado com as nossas perguntas (mea culpa).

Não faz muito tempo, a Clara perguntou pra mãe com quem ela iria se casar.

“A gente casa com quem a gente ama”, a Fernanda explicou.

“Então, eu quero casar com minha irmã Olívia”, respondeu minha pequena.

 

Siga o Tô de Pai no Facebook – www.facebook.com/todepai/

Mande sugestões de temas para o e-mail todepai.blog@gmail.com