PIXABAY

Tinha toda munição para virar uma dessas brigas intermináveis entre ‘bolsominions’ e ‘petralhas’ num ringue qualquer da internet. Mas quiseram os protagonistas dar um outro destino a essa história.

… Baseada em fatos reais …

O pai entra na sala e dispara: “Filho não é bicho de estimação”.

Ele estava revoltado porque começou a receber críticas veladas no prédio onde mora por estar incentivando a violência através da brincadeira de guerra do seu filho. O menino curtia brinquedos militares, como armas e soldados, e atraía os amiguinhos vizinhos para a diversão aos gritos de ‘vou te matar’ ou ‘morri’.

Aquela alegria do filho imitando heróis que aniquiliam inimigos despertava no pai uma feliz lembrança de quando ele era criança e brincava de guerra com o pai ou amigos, como fez praticamente toda a nossa geração de pais na infância.

Para arrematar o conflito com os pais vizinhos, que passaram a proibir que seus filhos brincassem com o menino da guerra, ele decidiu comprar uma AK-47 (fuzil soviético) de brinquedo para o garoto, só de sacanagem.

O disparo fez eco.

Outro pai entra na sala e elogia a postura do colega. Condena o patrulhamento ideológico existente na sociedade hoje e afirma que as crianças sabem diferenciar o que é brincadeira e o que é realidade.

Soa o sinal de alerta.

Logo, um batalhão de pais invade o ambiente bombardeando os rapazes com argumentos contrários, uns mais outros nada ofensivos. Apostam num diálogo construtivo para desarmar a bomba. Afinal, havia sobre o tabuleiro um julgamento externo contestável, uma legítima defesa compreensível e um caminho a percorrer entre as duas trincheiras.

Não é porque brincamos de algo na infância que devemos repetir a prática com nossos filhos. Cabe uma reflexão se esse tipo de brincadeira não reforça uma visão de relação de poder ou de resolução de conflitos pela violência.

Os pais vizinhos podem estar preocupados com que as crianças não repitam o comportamento violento da brincadeira. Talvez não queiram que seus filhos brinquem juntos de guerra porque armas de brinquedo podem mexer com valores que variam de pessoa pra pessoa.

Novamente, o pai da AK-47 aciona o gatilho. Diz que as crianças terão contato com a violência em desenhos e filmes e que a brincadeira seria uma forma lúdica delas poderem distinguir realidade de ficção. Critica pais que direcionam a espontaneidade dos filhos e sustenta que toda brincadeira pode ser educativa se no final as crianças estão sorrindo.

A contraofensiva foi rápida.

Uma arma de brinquedo talvez não seja o catalizador da violência, mas pode, sim, influenciar comportamentos.

As crianças são bombardeadas por diversas referências e influências externas, por isso não dá pra dizer que brincar de guerra seja algo totalmente espontâneo. Nosso papel enquanto pai é filtrar essas exposições e incentivar ou não de acordo com nossos valores.

Surge um franco-atirador que diz que o politicamente correto está retirando até mesmo a liberdade de pensamento infantil.

Um escudeiro questiona: liberdade de pensamento infantil?

E segue a trocação de falas.

Não teria o pai que vestiu o filho de soldado transformado a cria num bicho de estimação?

Tem pai e mãe obcecados em ver o filho falar fofuras. Por que não deixar as crianças viverem as narrativas que as encantam?

A intenção de não estancar a espontaneidade da criança é honesta, mas comprar uma AK-47 de brinquedo só de sacanagem é provocação aos outros pais. Troca-se o diálogo pelo embate, justamente o que jogos de guerra simbolizam. Entre na brincadeira, mas estimule a resolução de conflitos pelo diálogo e não pela arma. Chama esses pais vizinhos de lado e tenta entender as razões deles.

Sobe a bandeira branca.

“No fim vocês me abriram os olhos”.

Foram 60 comentários numa manhã de sábado até que o pai da AK-47 desistiu do presente bélico do filho.

Ressaltou como foi importante desabafar no grupo de pais e ter humildade em reconhecer que estava indo para o conflito desnecessário, impondo um ponto de vista e ignorando as aflições dos outros pais.

“Não tenho palavras para dizer o quanto me torno um pai melhor aqui”.

Vitória na paz, vibramos.

… Minha história de violência …

Também empunhei algumas armas de brinquedo quando criança. Travei algumas batalhas que simulavam (e praticavam) violência com meus amigos. Sou hoje um adulto completamente pacifista, mas lembro bem que ao longo da infância machuquei intencionalmente, e mais de uma vez, um vizinho nessas brincadeiras de guerra. Ele, aliás, era a vítima preferida do pelotão de garotos de classe média que moravam naquela rua. Apanhou muito mais do que bateu. Hoje ele tem 34 anos como eu e talvez, com a razão das cicatrizes, seja um desses pais que abomina as brincadeiras de guerra das crianças.