Cansaço. FOTO: Arquivo Pessoal

O Brasil parou esta semana por causa da greve dos caminhoneiros, que bloquearam estradas e refinarias País afora em protesto contra o preço do diesel. Muita gente correu para os postos de gasolina com medo de fcar sem combustível. O drama nacional dominou as manchetes dos jornais.

Desculpa nação, sei que o assunto é sério, mas pra mim o colapso circunda uma outra greve ignorada pela imprensa, que ocorre na calada da noite em muitos lares brasileiros e, no meu caso, já esgotou todo o combustível: a greve de sono dos meus filhos.

Não é que eles nunca dormem. O ponto (crítico) é que eles sempre acordam, e muito, durante a noite. Virou rotina, drama pessoal, motivo de estresse, fadiga, discussão com a mulher, queda de rendimento no trabalho e descrença no futuro (noturno) melhor. O cara que inventou a expressão ‘dormir como um bebê’ devia ser condenado a dormir o resto da vida numa creche com 20 crianças por gerar fake news.

Só nesta última madrugada Martin (8 meses) chorou cino vezes (abaixo da média do mês) por causa de nariz entupido, fome, posição incômoda, querendo arrotar e sei lá mais por quê. Olívia (4 anos) teve febre, veio duas vezes pra nossa cama (abaixo da média do mês) e engatou um ataque de tosse seca e choro que durou das 2 às 7 da manhã. Já Clara (4 anos), que nas últimas noites concentrou nossa atenção por causa de uma gripe forte, gemeu só duas vezes de dor (abaixo da média da semana) e levantou uma vez pra fazer xixi (Tks God!).

Na semana passada, foram os pesadelos da Olívia e a tosse da Clara. Na retrasada, a internação do Martin com bronquiolite na UTI. E por aí foi e por aí vai. Parece que te jogaram dentro do triturador e esqueceram de desligar. Parece que todo o dia é segunda-feira e que as férias foram definitivamente cassadas pela ‘reforma’ familiar que você promoveu na sua vida.

“E aí, como estão as crianças?”, perguntam parentes e amigos nos dias que se sucedem. Cara, é isso aí, elas estão ótimas, os vírus vem e vão na mesma velocidade com que uma brincadeira vira uma briga e depois volta a ser brincadeira. Agora, se você quer saber do pai (ou da mãe), eu te conto: tô aqui sucumbido, com as costas arrebentadas, o pescoço travado e a cabeça prestes a estourar. Faz mil noites que eu não durmo, mano, tá ligado como é isso? Acho que somando os minutos foram três horas de sono na última noite. Esquece aquela cerveja que marcamos no ano passado, meu amigo. Sem chance de ir no seu aniversário na quarta à noite em São Bernardo, tia.

Para não surtar tenho tentado assimilar internamente que as doenças são mesmo frequentes nessa idade, ainda mais nessa época do ano, e que, embora o sono seja uma necessidade básica e natural dos humanos, dormir é uma arte sagrada que precisa ser ensinada aos nossos filhos desde pequeno. Ainda estamos nessa batalha em busca da noite perfeita. Uma utopia.

A rotina que estabelecemos em casa (refeições sempre no mesmo horário e crianças na cama antes das 21h) tem ajudado a preservar o que resta de energia no fim do dia, o convívio como casal e a sanidade mental. Na paternidade a noite deixa de ser uma criança e vira o próprio capeta em forma de guri, como diria o poeta Sérgio Malandro. Alimentar-se bem nas três refeições (reduzir ou cortar leite e glúten) e uma dose de vitamina D dão um belo ‘up’ na disposição.

Enquanto uma mente brilhante não inventa a fórmula mágica do sono (como tirar os espinhos da cama e o pesadelo dos sonhos), eu sigo no modo placa de energia solar, recarregado a bateria durante o dia, com o próprio amor das crias e o ‘repouso’ no trabalho, para conseguir ficar ligado na jornada noturna.

Entonces, deixa eu parar por aqui e ir lá encher meu tanque com o combustível das crianças enquanto é dia porque a próxima noite promete.