Guiando o irmão. FOTO: Arquivo Pessoal

Imagine que você trabalha há um certo tempo na mesma empresa a ponto de já ter criado intimidade com seu chefe, desenvolvido alguns vícios e conquistado algumas regalias. Seu desempenho é quase sempre elogiado e muitas vezes compensado com algum tipo de gratificação. Você é uma referência do seu departamento e todos te admiram.

Até que chega um funcionário novo na firma, com pouco conhecimento, mas muita disposição. Por ser mais experiente, você é convocado a ensiná-lo o be-a-bá do trabalho, enquanto passa a ser mais cobrado pelo seu rendimento e ‘castigado’ pelos seus erros, afinal, é o veterano na parada. Parece até que todos aqueles anos de dedicação de nada valeram e o novato vira a grande jóia protegida a ser lapidada.

Você, então, decide questionar seu chefe por que as coisas mudaram tanto desde a chegada do novo colega. Ele demonstra surpresa com a pergunta e te responde com algo mais surpreendente: “parabéns, você foi promovido”. Nessa hora você se indaga: “mas que raio de promoção é essa que só aumenta a responsabilidade, mas não aumenta o salário?”.

Às vezes eu me vejo exercendo o papel desse chefe injusto com as minhas filhas em casa. Desde que o meu caçula nasceu, há 9 meses, as meninas, que estão prestes a completar 4 anos, foram ‘promovidas’ a irmãs mais velhas, título que elas adoram, mas que carrega uma carga oculta que ainda estamos  assimilando por aqui.

Por mais que eu ressalte e mostre para elas as vantagens de ser uma criança em relação a um bebê (mais autonomia e liberdade para brincar, por exemplo), percebo que em muitos momentos elas querem a mesma atenção dedicada ao pequeno, a mesma forma de carinho, e eu acabo me esquivando com a famigerada frase “mas você já é uma criança”.

Noto que, na prática, acabo impondo às meninas uma ruptura em um processo natural de amadurecimento infantil, no qual regressões e digressões são perfeitamente normais.

“Não é possível que você ainda não aprendeu isso!”

“Quantas vezes preciso falar a mesma coisa?”

“Isso é coisa de bebê”.

“Para! Você vai machucar seu irmão”.

Essas são algumas das reprimendas padrões que já reproduzi em casa no piloto automático. E, passados alguns meses, posso dizer que elas são muitas vezes injustas e quase sempre ineficientes. A criança não assimila e torna a repetir a ação.

O cansaço de cuidar de três filhos e as diferentes demandas que surgem das meninas mais velhas e do menino caçula embaralham as coisas de tal forma que acabo descontando nelas o estresse provocado por uma crise de choro ou pela inapetência dele. Afinal, elas são as veteranas na parada, não é?

Se antes um escape de xixi rendia uma conversa, depois da chegada do bebê o diálogo cedeu lugar à bronca. O pedido de colo passou a ser negado com mais frequência e as idas na cama do papai no meio da noite começaram a gerar um certo conflito.

Se antes havia uma atenção exclusiva para elas, agora elas são repreendidas quando imploram, aos gritos, para que eu participe de suas atividades como participava até pouco tempo atrás, antes da chegada do irmãozinho. Ou seja, algo super legítimo.

Por outro lado, quando as coisas apertam e estou sozinho, é às meninas que eu recorro para me ajudarem com o pequeno, delegando algumas ‘responsabilidades’ no cuidado do irmão, o que elas adoram fazer, mas só quando querem (óbvio).

“Filhota, dá uma olhada lá no seu irmão pra ver se está tudo bem”.

“Filhota, não deixa seu irmão comer papel”.

“Filhota, vai lá brincar com seu irmão enquanto eu dou banho na sua irmã”.

Mas daí basta a filhota de 4 anos brigar com o filhinho de 9 meses por um objeto qualquer no chão da sala, o que é perfeitamente normal, para esgotar a paciência e aquele urro de quem está cansado, com fome, sozinho e desesperado subir à garganta.

Antes de estourar de novo eu tenho recorrido à metáfora da falsa promoção no trabalho, que só convém para o chefe e não para o funcionário. Ela me ajuda a lembrar que se eu não quero que minhas filhas de 4 anos ajam como bebês, também não posso exigir que elas assumam funções que não condizem com a idade delas. Uma criança de 4 anos deve ser tratada como tal e ponto. Agora, se é preciso que elas colaborem mais em algum momento de tensão porque não há outra saída, por que não ceder então em outros momentos, em aspectos que não comprometam o desenvolvimento da criança?

Acho que transformar algumas demandas superadas que voltam à tona, como andar no carrinho de bebê, tomar leite do peito e dormir no colo, em diversão é uma solução muito mais interessante do que simplesmente dizer não. Isso demonstra para a criança que você continua amando muito ela mas que aquelas coisas de bebê agora são só de brincadeira.

Pensa comigo, se nós pais marmanjos ainda gostamos de passar um sábado à tarde jogando bola ou vídeo-game lembrando a nossa infância, por que negar esse revival aos nossos filhos.

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