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A primeira lembrança que me veio à mente ao saber sobre o decreto flexibilizando a posse de armas foi a do meu filho, sempre tão bonzinho e obediente, com o vidrinho de remédio na mão, vazio. Ele tinha escalado o guarda-roupa, alcançado a última prateleira, aberto a caixa de remédios que estava ‘escondida’ no fundo da prateleira (mas sem cadeado porque ‘meu filho não é de aprontar’, eu sempre dizia) e tomado todo o vidro de Berotec, medicamento usado para o tratamento da bronquite. Tivemos de correr com ele para o hospital que, felizmente, ficava a poucos quilômetros de casa. Chegou lá com os batimentos cardíacos altíssimos e foi direto para a emergência, onde passou 12 horas sendo desintoxicado.

Quem é mãe ou pai sabe: uma criança é capaz de tudo – porque é curiosa, porque não tem noção do perigo, porque vive em um delicioso mundo da fantasia. E é por isso que nós, os adultos, seus cuidadores, tomamos algumas precauções quando elas chegam em nossas vidas: colocamos redes nas janelas, instalamos protetores de tomada, compramos fogão com trava antivazamento de gás, trancamos os armários com os produtos de limpeza. Mesmo com tantas mudanças e os olhos atentos dos pais e dos cuidadores, elas sempre “aprontam”. Pulam do sofá e quebram algum osso, engolem o brinquedinho que o amigo levou para o parquinho e por aí vai. Cada pai e mãe tem sua história de perrengue gravada na memória e sabe de quantas formas já foi surpreendido pela sagacidade do próprio filho.

Mas agora alguns de nós, os adultos tão espertos, decidimos que pode ser uma ótima ideia ter uma arma em casa, ‘os bandidos têm armas, por que a gente não pode se defender?’. Uma arma não. Até quatro, segundo o decreto assinado pelo presidente. E olhamos para a nossa própria régua para concluir que tudo bem, “não tem perigo”, porque para ter a posse da arma “tem que ter um cofre em casa”. Claro que lá pelas tantas alguns podem achar que nem precisa de tanto cuidado, porque o filho já está grande e “tem noção do perigo”. Também porque se a casa for invadida, é preciso agir rápido, melhor deixar a arma na primeira gaveta do criado-mudo durante à noite, de manhãzinha ela volta para o cofre. Um belo dia você acorda atrasado e esquece de trancar o revólver. Para a tragédia acontecer bastam apenas alguns segundos, a gente sabe bem disso, não sabe?

Mas vamos supor que a gente tenha arma em casa e não abra exceções. Sempre trancada. Mas e o nosso vizinho? Será que terá o mesmo cuidado? Ontem li algumas mães discutindo o assunto no Facebook e a questão era essa: vamos ter de perguntar aos pais daquele amiguinho tão legal se eles têm armas em casa? Se as mantêm sempre no cofre? Você teria coragem de deixar seu filho frequentar a casa de uma família que tem um revólver em casa? Eu não teria, mas talvez eles não contassem a novidade a ninguém, “para não assustar”.

Mesmo com todos esses cuidados, não estaríamos seguros. A arma não trancada do pai do coleguinha cuja casa seu filho não frequenta poderia ser levada à escola escondida dentro da mochila. Esse filme americano começou a ser passado no Brasil recentemente, você com certeza tem acompanhado o noticiário. Ano passado um garoto de 15 anos, na cidade de Medianeira, no Paraná, levou a arma do pai e feriu dois alunos da escola onde estudava. Em Goiânia, também ano passado, um adolescente de 14 anos matou a tiros dois colegas e feriu outros quatro. Filho de policiais militares, ele usou a arma da mãe, que havia levado à escola escondida na mochila. O motivo? Bullying, algo comum em 9 em cada 10 escolas de todo o mundo, um comportamento com efeito destruidor sobre as vítimas, mas encarado como “mimimi” pela galera do “sempre fui zoado na escola e nunca matei ninguém”. Talvez porque seu pai não tivesse um revólver em casa. Talvez porque você seja mais forte psicologicamente. Talvez porque o governo restringisse a posse de armas.

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