Foto: Banco de imagem

Obviamente não quero que meu filho seja pai ‘antes da hora’. Por isso, assim que ele tiver um pouco mais de maturidade, vamos conversar sobre sexo para que entenda de onde vêm os bebês, quais são as formas de evitar uma gravidez e as doenças sexualmente transmissíveis. Também vou explicar para ele que sexo é bom, mas só pode ser feito quando duas pessoas dizem sim, e que a responsabilidade dos homens quando uma criança vem ao mundo é igual a das mulheres. Se tivesse uma filha o papo seria ainda mais amoroso, já que há uma sociedade inteira para culpabilizá-la por uma gestação não planejada e quase ninguém para pressionar na mesma medida o pai dessa criança, o que diz muito sobre a nossa sociedade patriarcal.

Mas cada casa é uma casa, então você também pode conversar com seus filhos sobre todas essas questões ou optar por não dizer nada – por vergonha, talvez, muitos de nós foram criados em lares onde esse assunto era tabu. Também pode achar que essa é uma questão a ser discutida sob a ótica religiosa e defender a tese de que sexo só pode ser feito depois do casamento, acreditando que se seus filhos seguirem essa orientação à risca estejam protegidos da Aids, da sífilis, da gonorreia, da hepatite C e de uma gravidez não planejada (um bebê perto dessas doenças todas até parece boa notícia, não?) Optar por esse ou aquele caminho são escolhas pessoais e intransferíveis.

Mas o governo não pode fazer isso. O governo não.

O poder público e seus gestores têm obrigação de deixar a vergonha, o tabu, o ‘achismo’, a religião e a opinião pessoal de lado e promover políticas públicas baseadas em evidências científicas para lidar com os altos índices de gravidez na adolescência e assegurar a saúde dos seus jovens. E a abstinência sexual escolhida como mote para a campanha publicitária ‘Tudo tem seu tempo: Adolescência primeiro, gravidez depois’ do Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos, no ar desde o começo do mês, é uma abordagem “completamente ineficaz”, segundo a revista britânica de medicina ‘The Lancet’. O periódico publicou no último dia 15 um editorial rechaçando o modo como o Brasil decidiu tratar a questão, lembrando que a Comissão de Saúde do Adolescente da publicação concluiu, em 2016, baseada em uma série de pesquisas, que estimular a abstinência sexual dos adolescentes não é a abordagem recomendada. “Mas o Ministério da Saúde brasileiro subestima essa orientação uma vez que a considera como única opção (para reduzir os índices de gravidez na adolescência)”, pontua a revista. Bom lembrar que a defesa dessa tese na TV aberta, nos outdoors e na internet vai custar R$ 3,5 milhões aos cofres públicos.

Mas temos de fazer justiça aos pesquisadores brasileiros. Muito antes de a ‘The Lancet’ se manifestar, muitos deles já haviam vindo a público explicar que a educação sobre métodos contraceptivos, inclusive nas escolas, era comprovadamente o melhor caminho. A Sociedade Brasileira de Pediatria também apresentou um documento com posicionamento contrário ao incentivo à abstinência sexual. Todas as opiniões de especialistas gabaritados foram solenemente ignoradas por Damares Alves, que está no comando da pasta e que tem o hábito de misturar alhos com bugalhos toda vez que é questionada pela medida. À Folha de S.Paulo, disse que se alguém provasse a ela “que o canal da vagina de uma menina de 12 anos está pronto para ser possuído todo dia por um homem” ela pararia de falar, raciocínio que não tinha relação alguma com o questionamento inicial dos jornalistas.  Os repórteres queriam saber se as crenças religiosas da ministra, autodeclarada “terrivelmente cristã”, não estariam influenciando na defesa da abstinência sexual. Ninguém em sã consciência encampa a ideia de que uma menina de doze anos possa fazer sexo com um homem, o que é crime segundo o Código Penal Brasileiro. É óbvio que uma criança não está pronta para o sexo, Damares, de onde você tirou uma ideia dessas?

Evidências científicas não deveriam ser sagradas apenas para os britânicos, mas também para os brasileiros. Por que você pode até sugerir ao seu filho que não faça sexo ‘antes da hora’, mas há grande chances de que ele não siga seu conselho, afinal ele é um adolescente. Por isso o governo tem que agir como adulto, promovendo políticas públicas eficazes para evitar a gravidez e o aumento de doenças sexualmente transmissíveis entre os jovens que, além dos óbvios efeitos nocivos em suas vidas, ainda oneram os cofres públicos, que já estão R$3,5 milhões mais vazios desde o início da campanha comprovadamente inócua pela abstinência sexual.

Leia mais: ‘A gente é julgada se trabalha de mais ou de menos. Se nos divertimos de mais ou de menos.’

Leia também: Trabalhar como se não tivesse filhos, ser mãe como se não trabalhasse fora