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Segunda-feira, dia 16 de março de 2020, foi o aniversário de dez anos do meu filho. Tinha preparado um bolo para que seus amigos da escola cantassem ‘parabéns’ e encomendado uma música de Tom Jobim à Roberta Martinelli do programa ‘Som a Pino’, da Rádio Eldorado – estava tudo combinado para tocá-la ao meio dia e meia, bem no momento em que ele estivesse no carro, a caminho do colégio, com um recadinho meu e do pai, aquela coisa toda.

Mas a escola fechou.

Escutamos a música em casa, sozinhos e meio incrédulos, nos perguntando até onde aquilo iria durar. O bolo também foi só nosso e passamos um bom tempo sem ter coragem de sair até que começaram a nos explicar que tínhamos que usar máscaras e só frequentar espaços públicos se fosse extremamente necessário.

Desde então, há um ano e quatro meses, meu filho se mantém em EAD –  nesses últimos tempos por escolha nossa, já que as atividades presenciais retornaram por alguns dias da semana. Com perdas de pessoas da família, a variante delta à solta e um platô altíssimo de internações e mortes diárias, decidimos deixar as coisas como estão por mais um semestre pelo menos, mesmo reconhecendo o custo altíssimo para a socialização e o aprendizado do nosso filho. E sabendo que poder escolher é, sim, um privilégio.

Mas o apoio ao fechamento das escolas é o menor desde o início da pandemia, aponta a terceira rodada da pesquisa ‘Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes’  feita pelo Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, com o apoio do IPEC. Foram realizadas 1.516 entrevistas nas três rodadas, organizadas de modo a representar a população brasileira, essa última nos dias 10 a 25 de maio de 2021. No início da pandemia, 82% dos brasileiros afirmavam que era muito importante manter as escolas fechadas como forma de prevenir a covid-19. Com o passar dos meses, essa percepção foi mudando. Em novembro eram 71%. E em maio de 2021 apenas 59%.

Segundo a pesquisa, 41% das pessoas que residem com crianças ou adolescentes disseram que as escolas voltaram a oferecer atividades presenciais. Entre os que têm filhos em escolas que já reabriram, metade (48%) diz que a criança ou adolescente voltou à frequentar a escola. A pesquisa mostra, ainda, que o acesso precário a computadores e à internet fez com que as crianças mais pobres e vulneráveis não tivessem condições de acompanhar de forma satisfatória o pouco que foi oferecido, abrindo um abismo ainda maior entre crianças e adolescentes de classe média e alta e os de baixa renda. “A pesquisa mostra que os principais canais de acesso às atividades escolares para as crianças que tinham atividades remotas era o WhatsApp. E nas famílias com renda de até um salário mínimo, 65% dos estudantes usam exclusivamente o celular para as aulas, imagina como isso limita, imagina tendo que revisar documentos em um celular? Isso quando a conexão não é ruim, o que fica ainda mais difícil”, explica Liliana Chopitea, chefe de Políticas Sociais, Monitoramento e Avaliação do UNICEF no Brasil. Ela conversou com o blog sobre os resultados dessa terceira rodada da pesquisa.

Blog:  Liliana, você acha que essa mudança de comportamento dos pais, que cada vez menos acreditam no fechamento das escolas, se deu por que faz muito tempo que as crianças estão fora desses locais ou por que eles realmente acreditam que esse retorno está mais seguro?

Liliana:  Eu acho que são as duas coisas, a gente tem que reconhecer que durante esse percurso de tempo houve uma melhoria, a situação muda muito de um mês ao outro e está melhor neste momento se falarmos da parte epidemiológica, então tem a ver sim com a sensação de que a situação está melhorando. O aumento da vacinação também ajuda muito, naturalmente, mas sem dúvida nenhuma as famílias começam a sentir também que as crianças estão precisando retomar as atividades. Se você me permite, eu gostaria de mencionar os dados dessa pesquisa sobre a saúde mental dos adolescentes que tem sido impactada muito fortemente: 56% dos adultos pesquisados disseram que algum adolescente da casa apresentou um ou mais sintomas relacionados à saúde mental, entre mudanças repentinas de humor e irritabilidade, alterações no sono como insônia ou excesso de sono, até por isso também que as famílias estão sentindo que é importante que as crianças e adolescente retornem à normalidade.

Blog: Quais foram os impactos das escolas fechadas ou parcialmente fechadas na educação das crianças e dos adolescentes brasileiros considerando, obviamente, um recorte de classe social e de a acesso à internet? Todos sofreram ou os mais pobres sofreram mais?

Liliana: Naturalmente temos que partir desse princípio que todas sofreram, porque não é uma situação normal. Os adultos sofreram, mas as crianças sofreram ainda mais em termos de sociabilidade e de aprendizado. Evidentemente, a desigualdade fez com que alguns grupos sofressem mais que outros, então as famílias que não têm acesso a internet, o que ainda é uma realidade no Brasil, sofreram mais. A pesquisa mostra que os principais canais de acesso às atividades escolares para as crianças que tinham atividades remotas era o WhatsApp. E nas famílias com renda de até um salário mínimo, 65% dos estudantes usam exclusivamente o celular para as aulas, imagina como isso limita, imagina tendo que revisar documentos em um celular? Isso quando a conexão não é ruim, o que fica ainda mais difícil.

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Blog:  Ou seja, muitas crianças tiveram acesso a atividades remotas de uma forma muito precária, por que com o celular muitas vezes você não consegue interagir, não consegue fazer as tarefas, dependendo do pacote de conexão você simplesmente não consegue.

Liliana: Totalmente, exatamente isso. E nas famílias que ganham até um salário mínimo, 65% delas mencionaram que usam apenas celular próprio e 29% usam o celular de outra pessoa da família, então isso já mostra a desigualdade e a precariedade dessas crianças que têm menos possibilidades, que são as mais vulneráveis, os desafios que têm que enfrentar para participarem das aulas remotas.

Blog:  É possível se recuperar de tudo que perdeu nesse último um ano e meio?

Liliana: É muito desafiador, mas a gente não pode desistir. Primeiro é importantíssimo assegurar que todas crianças voltem, por isso ações como as da busca ativa escolar do Unicef são importantes, ir atrás dessas famílias para que as crianças voltem para a escola é fundamental.  Segundo, é necessário dar apoio às crianças que precisam mais, então o papel da escola é fundamental para que essas  crianças que ficaram para trás, por que tiveram problemas de conexão, por que tiveram uma série de outros desafios que mostram as pesquisas, para que voltem da melhor maneira  possível. E terceiro, como mencionei, o tema saúde mental é outro tema importantíssimo que também tenha que fazer parte dessa política de acompanhamento, temos de olhar de perto essas crianças, principalmente os adolescentes.

Blog: Agora isso na visão de vocês tem que ser algo pontual ou tem que ser posto em prática como política pública – precisa se sentar, conversar e se planejar de uma forma coletiva a recuperação desse tempo perdido das crianças?

Liliana: As duas coisas, Rita, tem que ser por política pública porque é preciso que tenha um orçamento, é preciso que atuem as diferentes áreas porque estamos falando de uma série de fatores que têm influenciado que essa situação aconteça, então estamos falando das redes de educação e das redes de assistência social que são fundamentais nos municípios para ir atrás das famílias vulneráveis, assim como as redes de saúde, que também vão ser fundamentais atuar nessa parte da saúde mental. Então é uma situação inter-relacionada, coordenada, com políticas públicas e orçamento para que essas políticas sejam implementadas para reforçar e recuperar esse mais de um ano perdido pelas crianças e pelos adolescentes.

Liliana Chopitea, chefe de Políticas Sociais, Monitoramento e Avaliação do UNICEF no Brasil.

Blog: Se isso não for feito de forma organizada, quais são as consequências para essa geração de crianças que estão passando por essa pandemia?
Liliana: As consequências para essas crianças são de curto, médio e longo de longo prazo, Rita, quanto antes começarem a atuar muito melhor porque sabemos que as consequências podem ser irreversíveis. Já faz um ano e meio e é importantíssimo atuar o mais cedo possível para apoiar e ir atrás dessas crianças que estão com problemas. Um outro ponto que eu queria destacar é o da segurança alimentar. Todos sabem que as crianças das famílias mais pobres e vulneráveis dependem da merenda escolar e, segundo a pesquisa, quase metade da população que convive com crianças e adolescentes diz não ter tido acesso a merenda escolar enquanto as escolas estiveram fechadas. É importante atuar com urgência e e é importante um diálogo entre famílias, a comunidade, os professores porque isso tem que ser uma ação articulada para que seja possível recuperar o mais cedo possível. 

Transcrição da entrevista e apoio: Samuel Fernandes da Costa.

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