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Basta uma barriga de grávida despontar no elevador, na fila do banco ou no cafezinho do escritório para que algo estranho aconteça: muitas pessoas que até então viviam no piloto automático, sem olhar para os lados, decidem interagir com a gestante, dar palpites dos mais variados para aquela mulher até então desconhecida (e que na maioria das vezes queria permanecer como tal).  Você, grávida, logo percebe que talvez não seja mais possível subir aqueles dez andares apenas de olho nos e-mails no smartphone, pedir informações sobre a sua conta corrente ou simplesmente comer o que quiser na cozinha da firma sem ter que responder se não está preocupada em não conseguir voltar ao corpo de antes, se o bebê é menino ou menina ou se seu parto vai ser normal ou cesárea.

De repente, você que estava acostumada a falar pouco ou quase nada sobre sua vida pessoal se vê obrigada a responder que sim, a barriga está grande, mas você só está grávida de um, ou não, a gravidez foi planejada (será que quem pergunta estaria pronto para ouvir que você só engravidou porque a camisinha estourou ou a pílula falhou? Duvido.)

E se a barriga ainda não apareceu, mas a notícia da gestação já se espalhou, você também pode ser alvo daqueles ainda mais inconvenientes que te aconselham a “não se empolgar demais com a ideia de gravidez” já que a filha do primo da vizinha perdeu o bebê antes dos três meses, “melhor não contar para ninguém”, “você não sabe se o bebê vai vingar”.

Gretchen aconselhando Sabrina Sato em entrevista ao canal do You Tube da apresentadora

Ontem o algoritmo do Facebook me presenteou com uma reportagem que confirmou a minha tese de que a gravidez não apenas estimula as pessoas a darem conselhos aleatórios e não pedidos, mas também a plantarem a sementinha da culpa na alma dessa mulher que espera um bebê para daqui a alguns meses. Se algo por ventura sair do planejado a responsabilidade é dela, dizem, e de quem mais seria? Não amamentou? Por que não buscou informação durante a gestação? Acabou em uma cesárea? Se deixou enganar pelo médico, a boba. Se separou depois do nascimento do bebê? Ninguém mandou deixar “o marido de lado”!

O conselho de “não abandonar” o marido depois do nascimento do bebê foi dado pela cantora Gretchen, que aceitou o convite para ser entrevistada pela apresentadora Sabrina Sato, que está grávida. “Normalmente a mãe deixa de pensar nela, para viver para o filho. De jeito nenhum. O filho que tem que se adaptar à vida que você já tem. E em primeiro lugar está seu marido e depois seus filhos. Se você abandona o marido por causa do filho, ele vai procurar outra pessoa para fazer companhia”, disse Gretchen.

Conhecedora de casos e mais casos de maridos que se afastam da mulher e do filho porque são covardes e egocêntricos fui surpreendida pela teoria de que a culpa por um eventual “abandono” é nossa, olha só. Se ficarmos cansadas da rotina de trocar fralda, dar banho e acordar de duas em duas horas para amamentar criança e não encontrarmos tempo para “fazer companhia” a esse adulto, que por acaso também é o pai desse bebê, já era, acabou, segundo a Gretchen, claro. Arrisco em dizer que colocar o marido “em primeiro lugar” nesse contexto é fazer todos os serviços domésticos, cuidar do bebê e ainda sim estar sempre linda e pronta para o sexo, mesmo que o cansaço dos primeiros tempos com o bebê, intensificado pela falta de participação desse homem na rotina da casa, faça com que a única coisa pela qual você sinta desejo seja uma boa noite de sono, sem interrupções. Se mantê-lo ao seu lado for prioridade na sua vida você não nunca vai reclamar de nada e ele estará sempre ao seu lado – mais anos 50 impossível.

O comentário da cantora caiu mal, claro, estamos no século 21, e Gretchen tentou justificá-lo depois da repercussão negativa. Eu sinceramente entendo que ela e muitas mulheres ainda pensem assim, afinal estão ouvindo há décadas que a responsabilidade pelo naufrágio de um casamento depois do nascimento dos filhos é da mulher, que “parou de se cuidar”.  Mas acho que a gente tem que combater esse tipo de conceito com gritaria e dedo no olho mesmo,  em nome da nossa sanidade mental e das mulheres que decidirem ser mães depois da gente. Um casamento termina por falta de amor, de companheirismo e de parceria e a chegada de um bebê não tem nada a ver com isso. Ou tem, se a gente perceber que o nosso parceiro nessa empreitada é mais criança do que aquela que a gente acabou de parir.

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