Foto: Banco de Imagem

Dificilmente algum pai ou mãe fica preocupado se o filho ganha de presente um jogo de tabuleiro ou se a criança passa horas montando pecinhas de Lego. Mas uma luz amarela se acende se a brincadeira do momento for um jogo de video game. A tendência em desqualificar os jogos eletrônicos, considerá-los algo menor, menos importante ou nocivo é uma inclinação entre muitos pais da minha geração, que jogaram Atari e/ou Megadrive quando pequenos, veja só.  Será que meu filho vai ficar viciado? Será que vai deixar de brincar coisas do mundo real? A discussão está na mesa e é cada vez mais forte entre cuidadores e educadores.

Francisco Tupy, Doutor e Mestre em aplicação de video games na Educação formado pela USP, Universidade de São Paulo, é apaixonado por games e consegue enumerar uma série de oportunidades que esses jogos trazem para os jovens e para a relação entre pais e filhos. “Eu conheço várias crianças que começam a jogar um jogo de mitologia e ficam fascinadas e começam a ler livros sobre o assunto. E o video game, ao se aproximar das crianças por ser a maior mídia de entretenimento, promove a curiosidade”. Ele também pontua quais são os cuidados que os pais têm de tomar, no quê devemos ficar atentos.Tupy vai ministrar um curso sobre a história dos jogos “desde os tempos das cavernas” na Casa do Saber, em São Paulo. Os video games ocupam apenas parte do conteúdo do curso, mas aqui no blog ele se aprofundou no assunto.

Blog: Hoje em dia muitas crianças têm acesso ao video game – não dá para falar que ‘todo mundo tem’ porque o Brasil é um país muito desigual. Mas nos lugares onde eu circulo eu vejo que esse papel gigante que o video game tem na vida dos nossos filhos, o que é uma preocupação de muitos pais e educadores. É para a gente se preocupar mesmo ou temos que olhar essa questão por outro ângulo?

Francisco: A preocupação é muito válida porque o video game é fascinante, ele é uma mídia. A gente tem as mídias escritas, as audiovisuais e o video game é uma mídia interativa. E pelo fato de permitir a competição, a interação social à distância e todas as questões ligadas à tecnologia, artes e os algoritmos, fazem com que seja uma mídia muito atrativa que se adapta ao jogador. A preocupação dos pais é legítima porque o vício em video games existe, é um dos problemas de saúde mental que constam na CID (Classificação Internacional de Doenças). O professor de Oxford Andrew Przybylski classificou em suas pesquisas que uma hora por dia é o tempo ideal para os jogos. Segundo ele, as pessoas que jogam apenas uma hora por dia ficam menos propensas a vícios, tem mais tolerância ao fracasso. Sempre que um pai, um professor ou educador vêm até mim com essa preocupação é isso o que sugiro, no máximo uma hora por dia.

Blog: E em que mais os pais têm que ficar de olho?

Francisco: Existem técnicos que classificam esses jogos de acordo com faixa etária para que sejam liberados. Então eu pergunto para os pais: vocês sabem o quê seus filhos estão jogando? Com qual conteúdo estão interagindo? Você já leu o manual do jogo? Do mesmo jeito que existem filmes classificados por faixas etárias, existem também os jogos indicados para cada idade. E é óbvio que essa informação não é o suficiente. Mas o mínimo é saber o que o filho está fazendo. Existem várias formas de monitorar o que eles andam fazendo, mas antes de tudo isso existe o diálogo. E mesmo falando ‘ah, é muito difícil, eu não entendo nada disso, isso é grego para mim’, peraí: existe uma informação que deve ser minimamente conhecida, temos de falar do letramento digital, da importância de nos alfabetizarmos no assunto, senão pais e filhos viverão em mundos completamente alheios.

O Prof. Doutor pela USP, Francisco Tupy

Blog: Então quais são as informações que a gente tem que buscar além de saber se o jogo está indicado à faixa etária do meu filho?

Francisco: O conteúdo desse jogo, o tipo de exposição que ele pode permitir – porque às vezes a gente dá o ‘aceite’ e o jogo está tendo acesso as suas informações, pode fazer com que tenha contato com outras pessoas que estão do outro lado da tela e você nem sabe quem são. Mas a gente tem que ter muito cuidado com a proibição, porque o jogo é uma mídia onipresente. Eu vejo vários pais que dizem ‘não, não vai jogar, eu não conheço esse jogo’. Mas se você pergunta para a criança ela já sabe tudo sobre o assunto, porque ele não está apenas no vídeo game, o jogo também está no You Tube, o jogo hoje em dia não é apenas jogado, ele também é assistido.

Blog: O que você acha dos jogos violentos e de guerra?

Francisco: A criança não tem o contexto do todo do que é a guerra, o que é a morte, tudo aquilo para ela é uma simples diversão. Ela está atrás da questão da estratégia, da brincadeira. E por que a guerra no entretenimento é legal? Não só nos jogos, nos quadrinhos também, um dos principais heróis é o Capitão América. E eu posso dar meios para esse adolescente pensar sobre o assunto. As crianças mais novas não tem nem que ter acesso a isso, a gente tem que respeitar os padrões das classificações de idade. Aí também há toda uma questão de quem financia esses jogos, as nações que estão por trás deles, promovendo o encantamento da guerra, do alistamento militar.

Muitas vezes um jogo tem várias questões por trás, às vezes até geopolíticas. O Fortnite, por exemplo, pode ser proibido na China para menores de 18 anos. Estava tendo toda essa discussão de idade por lá, mas na verdade a China quer criar um outro jogo para que o PIB dela fique dentro do país. Existem discussões econômicas e políticas muito profundas. Não é um mercado de amadores. Eu já vi jogos em países que estão vivendo conflitos que mostravam rebeldes da religião oposta à da situação entrando em cultos e fuzilando pessoas. O jogo tem esse lado de propaganda ideológica e talvez a gente não tenha isso muito claro por aqui, mas isso existe.

Blog: Qual o lado bom dos jogos?

Francisco: Eu conheço várias crianças que começam a jogar um jogo de mitologia e ficam fascinadas e começam a ler livros sobre o assunto. E o video game, ao se aproximar das crianças por ser a maior mídia de entretenimento, promove a curiosidade. Os jogos descortinam o mundo. É uma mídia em massa, já que todo celular é um console. A crianças podem ter acesso a culturas diferentes com o Tik Tok, por exemplo. A partir daí podemos utilizar isso para traçar conversas e traçar paralelos. A Educação não pode se fechar e ser autoreferenciada e pode utilizar esses pontos de fascínio para fomentar discussões. Cada indivíduo tem um interesse diferente, mas podemos abrir aí um caminho de diálogo.

Blog: Como fazer isso? É possível que essa conversa seja proveitosa mesmo com os jogos com os quais nós, pais, não nos identificamos ou que achamos que não são tão legais?

Francisco: Primeiro temos que tentar entender o nexo ou a graça que eles veem. Eu particularmente não gosto de GTA (Grand Theft Auto, jogos que se passam em cidades fictícias dominadas pelo em que o personagem é um criminoso), mas se eu vejo que alguém gosta, eu busco assunto. Eu não vejo novela, mas quando estou jantando com a minha mãe eu pergunto da novela, ela me conta. Eu busco uma linha de diálogo e de narrativa para sempre estabelecer uma conversa.

Fornite, da Epic Games: Febre mundial

Blog: De tempos em tempos, o questionamento se video games violentos causam violência volta à tona. O que você que é um estudioso do assunto tem a dizer sobre essa discussão?

Francisco: Existem jogos associados a contextos de violência e também indivíduos que são mais suscetíveis às mensagens. Mas também existem filmes violentos, desenhos violentos, e muitas vezes quem paga o pato é o video game. Eu acredito que cada cérebro pode reagir de uma forma àquilo que lhe é oferecido e de acordo com todas as variáveis, se todas atingirem um ponto determinado, algo pode ocorrer. Eu não vou ser leviano é dizer ‘a culpa é do video game’, mas o video game faz parte da sociedade. Está dentro de um contexto. Cada caso é um caso. Mas a gente tem que ter educação e qualidade de informação. Existem milhões de pesquisas no Google Acadêmico que versam sobre o ambiente do video game, os mais diversos temas. O papel da família, o papel da Educação, do Estado é fundamental para que seja mantido esse equilíbrio. Ah, o video game pode fomentar o terrorismo? Ele pode influenciar? Com toda a certeza, mas ele não é um fator único, não é uma questão simples, não é algo binário.

Blog: Quais são os jogos que você mais gosta?

Francisco: Em primeiro lugar o Minecraft. Ele não é competitivo, tem um lado de produção. Os jogos da série Assassin´s Creed tem uma relação de cultura, arte, você viaja pela Europa ou pelo Egito, há relação ética de um grupo de assassinos de um cavaleiro templário e essa relação entre o bem e o mal. Há também uns jogos que não são de mainstream, que são indie, e que eu gosto: Um dele é o Against All Odds. É um simulador de refugiados, que mostra às pessoas como é a vida de alguém que tem que fugir do seu país, chegando a uma cidade e buscando ajuda. Esse é um jogo gratuito. Tem outro jogo que é muito legal chamado 3rd World Farmer que mostra a realidade de uma fazenda na África, que é como se fosse um simulador, um ‘The Sims’, você é um fazendeiro na África e o jogo te coloca dilemas, por exemplo, você vai deixar guerrilheiros treinarem na sua lavoura? Vai mandar seu filho estudar ou ele vai trabalhar no campo? Tem outro que se chama Doze de Setembro que mostra uma cidade do Oriente Médio onde você tenta atirar em pessoas que andam como terroristas para acertá-las. Só que o tiro sempre vai atingir uma casa, as pessoas que ficam chorando em volta também se tornam terroristas. Depois de cinco minutos jogando você destruiu a cidade inteira e não resolveu o problema, a cidade está cada vez mais cheia de homens-bomba andando por ela. E aí você começa a ver o quanto também é parte do problema.

Blog: O que você acha do Fortnite, essa febre entre as crianças?

Francisco: O que eu acho interessante e adoro no Fortnite, o que é um sucesso, são as dancinhas.

Blog: As crianças ficam dançando aquilo o dia inteiro!

Francisco: Você está no shopping, no elevador, as crianças estão dançando aquilo. É um sintoma do mundo em que a gente vive, um jogo de uma hora para outra vira uma febre e as crianças deixam o que estavam jogando antes para jogar os novos. O Fortnite tem uma certa infantilização da violência, porque tem uma estética mais cartunesca, ao contrário de outros jogos em que retratam a violência de uma forma perfeita, como o Call of Duty, onde você dá o tiro, vê o buraco da bala, vê sangue. Uma coisa é o Tom&Jerry colocar o dedo na tomada e morrer de verdade ou o Dick Vigarista bater o carro e aquilo ser um alívio cômico. A palavra que define o Fortnite é ‘fenômeno’, ele é um fenômeno, está presente nas casas, nas camisetas, nos corpos. E mesmo o Fortnite não estando no meu hall dos ‘dez mais’ eu tenho que conhecer para me aproximar dos meus alunos, dialogar com os meus alunos. E essa oportunidade de conversa ninguém pode perder, nem os professores, nem os pais, nem os avós. E mesmo que a gente não entenda muito, temos que superar esse preconceito da complexidade e não-compreensão e ter uma escuta ativa dos nossos filhos.

Blog: Essas reflexões serão feitas ao longo do curso na Casa do Saber?

Francisco: A Casa do Saber é um local voltado à Filosofia, ao pensamento. A minha ideia é que ao longo das quatro aulas a gente converse sobre a origem dos jogos desde as cavernas até hoje, o que mudou, o que autores como o agora badalado (filósofo sul-coreano) Byung-chul Han fala sobre assunto, o que o (matemático, físico e filósofo) Blaise Pascal dizia sobre o jogo, já que ele tinha uma relação de tentar descrever o que acontecia entre ele e Deus, o que filósofos como Gadamer entendiam do assunto. Utilizar esses pensadores para entender o que é a entidade ‘jogar’. E obviamente eu vou levar jogos de tabuleiro, computador com Minecraft ou outro jogo qualquer. E eu bolei uma Escape Room e um Live Action, que é um jogo de interpretação. A gente aprende a jogar jogando.

As aulas sobre jogos de Francisco Tupy vão ser promovidas pela Casa do Saber a partir do dia 21/01, próxima terça-feira, e podem ser assistidas presencialmente ou online. Mais informações neste link.

Leia mais: Estar sempre com os filhos não é o melhor para os filhos 

Leia também: Sobre como é difícil criar um filho não machista em um mundo machista