Foto: Pixabay

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O ano é 2006.

Seu filho nasceu neném. Ítalo nasceu neném.

(“Saiba: todo mundo foi neném. Einstein, Freud e Platão também. Hitler, Bush e Saddam Hussein. Quem tem grana e quem não tem”, canta Arnaldo Antunes na música “Saiba”.)

Mas seu filho come quando tem vontade. Abre a geladeira sempre cheia do iogurte favorito. Ítalo também sentia fome, mas tinha de pedir comida aos vizinhos. Roubava as gôndolas do supermercado de vez em quando.

Seu filho tem a pele macia e cheirosa. Já Ítalo tinha marcas de queimaduras de cigarro pelo corpo todo.

Seu filho vai para a cama quentinha. Ítalo morou com tias, avó e em abrigos, já que o pai está preso e a mãe passou vários períodos na cadeia. Também teve um carro velho e abandonado como “lar”.

Seu filho recebe carinho e é um doce com todos. Ítalo era ríspido, contou uma psicóloga de um dos abrigos por onde passou. Não confiava em ninguém.

Seu filho tem você (ou o pai,  ou os avós ou a escola) cuidando dele o dia inteiro. Ítalo vagava sozinho por aí.

Seu filho vai para a melhor escola do bairro. Ítalo não frequentava a escola assiduamente.

Seu filho dormia enrolado em um edredom quinta-feira passada. Fazia frio em São Paulo. Já Ítalo estava na rua. Disse a um amigo que ia “matar os moradores e dormir no prédio.” Escolheu como alvo um edifício qualquer que fica na zona sul de São Paulo. Mas em vez disso roubou um carro que estava aberto e com as chaves no contato. Segundo a polícia, atirou várias vezes enquanto dirigia. Morreu com um tiro na cabeça.

“Um bandido a menos!”, escutei de pessoas próximas quando souberam de sua morte.

E eu só conseguia pensar meu Deus, um menino de 10 anos morto desse jeito. Uma criança. De.apenas.dez.anos. Lembrei de como meu enteado era ingênuo e doce quando tinha essa idade.

Lembrei também de um ótimo documentário que tinha assistido dias antes, “O Começo da Vida”, em cartaz nos cinemas e também na Netflix. “Se mudarmos o começo da história, mudamos a história toda”, anuncia o trailer do filme, que fala da importância dos cuidados nos primeiros anos na vida de uma criança. “É como construir a estrutura de uma casa. Você constrói a estrutura sobre a qual todo o resto de desenvolverá” afirma, no filme, o Pediatra da Harvard Medical School, Charles A. Nelson.

Os alicerces de Ítalo eram ruínas. Seria preciso de uma força tarefa para retirar os escombros, refazer a fundação. Mas ninguém se interessou por aquele projeto mal acabado.

“Eu não acredito em criança negligenciada pela mãe. Eu acredito em criança negligenciada pelo ambiente. Se uma mãe negligencia uma criança a ponto de ela ficar sem saída, cadê as outras pessoas? Uma criança não é só filha de uma mãe. Ela é neta de alguém, ela é sobrinha de alguém, ela é vizinha de alguém, ela é cidadã de algum lugar. Ela tem uma nacionalidade”, afirma também no documentário a psicanalista e doutora pela USP Vera Iaconelli.

Os pais não tiveram condições ideais para cuidar de Ítalo. E jamais irei julgá-los. Quem sou eu? A miséria e as drogas destroem famílias aos borbotões, principalmente as de baixa renda. Mas e nós, sociedade? Não devíamos ter feito algo por esse menino para salvá-lo e também para nos protegermos do que ele poderia ser transformar ao ser largado à própria sorte?

“Bandido bom é bandido morto!”, alguém falou alto, na padaria onde eu tomo café ao ver a notícia pela TV. Vários clientes assentiram com a cabeça. E o papo ficou por isso mesmo. A notícia no telejornal também mudou: “Vamos falar agora de esporte?”, sugeriu o apresentador. Os únicos momentos em dez anos de vida em que Ítalo foi protagonista de algo terminavam ali.

Minto: na noite anterior Ítalo também foi olhado por alguns segundos. Quando miraram em sua cabeça. E atiraram.

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