"O coelhinho que queria dormir", de Carl-Johan Forssén Ehrlin Ilustrações: Silvana Rando

“O coelhinho que queria dormir”, de Carl-Johan Forssén Ehrlin. Ilustrações: Silvana Rando

Vira e mexe algum médico, psicólogo ou guru de auto-ajuda anuncia que descobriu a receita infalível para que as crianças durmam. Eu sempre detestei essas fórmulas mágicas, principalmente àquelas que propõem que deixemos nossos filhos chorando, sozinhos no quarto, para que “aprendam” a dormir. E foi com essa incredulidade toda que recebi, dia desses, um livro pelo correio. Parecia ser mais uma das várias publicações infantis que chegam por causa desse blog. Mas em vez de um exemplar e um release (aqueles textos de divulgação que os jornalistas recebem explicando sobre a publicação) havia uma carta muito fofa da editora Julia Schwarcz. Ela dizia que não acreditava, inicialmente, que um livro era capaz de fazer uma criança dormir, mas que esse que me enviava tinha esse poder. E foi em um misto de incredulidade e dúvida que decidi testar “O coelhinho que queria dormir”, do terapeuta sueco Carl-Johan Forssén Ehrlin, Companhia das Letrinhas. Meu filho é daqueles que dormem tarde, por causa do hábito dos pais jornalistas. E muitas vezes tem dificuldade de relaxar, ué, não custava tentar.

Fomos para a cama com o livrinho e começamos a lê-lo. Não há um enredo complexo. O coelho Roger está cansado, não consegue dormir, e a mamãe coelha faz uma viagem até a casa do Senhor dos bocejos, que sabe exatamente o que fazer para resolver o problema. Antes de começar a leitura há um tutorial para os pais, que devem ler a história respeitando algumas regras. As palavras destacadas em negrito têm de ser enfatizadas. As em itálico devem ser lidas de forma mais lenta e calma. Há espaços para que coloquemos o nome do nosso filho no enredo e, entre colchetes, há indicação de momentos que temos de bocejar (sim!) enquanto lemos a história.  Só de me lembrar do processo já me dá sono.

Ilustração: Silvana Rando

Ilustração: Silvana Rando

“Naquela noite, os irmãos de Roger dormiram mais depressa que de costume, e ele ficou deitando pensando como queria dormir já. Ficou lá deitado, pensando em todas as coisas que o deixavam exausto, com sono, muito sono. Ele ficou pensando em todas as brincadeiras, toda a correria, tudo aquilo que deixava ele, o coelhinho Roger, e você [nome da criança], tão cansados.”

 “O Coelhinho que queria dormir”, Página 10.

Não sei se o tal coelho e sua mãe chegaram ao destino. Meu filho e eu dormimos no começo da história. Acordei quase uma hora depois na cama dele, livro na mão. Tinha dado certo. Dia seguinte fiz um teste e mandei o marido, que sofre de insônia, fazer o guri dormir usando o livro como ferramenta. Não dei maiores detalhes, não criei expectativas. Passaram apenas alguns minutos, nosso filho tinha adormecido e meu marido apareceu no quarto de olhos vermelhos, sonolento e perguntando: “Que raio de livro é esse, Rita?”

Decidi entrevistar o autor de “O Coelhinho que queria dormir”, o sueco Carl-Johan Forssén Ehrlin, que é graduado em Psicologia e estuda o Comportamento Humano. Quase um mês depois e com a ajuda da editora, chegaram as respostas.

O terapeuta sueco Carl-Johan Forssén Ehrlin. "Pai" do coelhinho tem feito crianças do mundo inteiro dormirem

O terapeuta sueco Carl-Johan Forssén Ehrlin. “Pai” do coelhinho que tem feito crianças do mundo inteiro dormir

Blog: Como surgiu a ideia de escrever um livro para ajudar os pais nessa batalha de fazer os filhos dormir?

Carl-Johan: A ideia surgiu de repente, enquanto dirigia meu carro. Sabia que podia usar minha experiência e motivação para ajudar as pessoas com uma historinha de dormir. E me senti forçado a escrever esse livro, embora tenham passado nove anos do momento em que tive a ideia até que ele virasse um bestseller. (O livro tem edições em sueco, inglês, alemão, português, espanhol, francês, italiano, árabe e japonês, mas a Companhia das Letrinhas não divulga números de vendagem). Eu já tinha escrito livros sobre desenvolvimento pessoal e liderança, então escrever um livro infantil foi diferente e desafiador.

Blog: Por que as crianças, especialmente as mais jovens, não dormem como os pais gostariam que dormissem? Qual a técnica usada no livro que faz, como no meu caso, pais e filhos dormirem?

Carl-Johan: Eu penso que cada criança é única e há diferentes razões que fazem com que elas não durmam. Eu faço a criança se identificar com o coelhinho e esperamos que ela durma quando o coelhinho da história dorme. Também ajudo a criança a criar uma imagem mental do que vai acontecer, sobre o momento de adormecer. O que eu acho que diferencia essa história das outras histórias de dormir é que ela combina relaxamento e meditação com um “conto de fadas”.

Blog: Antes do início da leitura, há uma série de orientações sobre como ler o livro, qual entonação escolher, ritmo e ênfase de algumas palavras escritas em negrito e itálico. Por que a forma de ler para as crianças é tão importante?

Carl-Johan: É uma ajuda para que os pais utilizem a comunicação da melhor forma. Dar mais espaço entre as sentenças faz com que elas sejam mais notadas pelas crianças. Por isso palavras como cansado, sonolento e relaxado estão em negrito ou itálico. Você pode, claro, ler essa historinha do jeito tradicional e mesmo assim conseguir atingir o objetivo, embora seja melhor se você adotar uma ou todas as recomendações de leitura.

O coelhinho que queria dormir capa

“O coelhinho que queria dormir”. Tradução do inglês de Eduardo Brandão

Blog: A história do livro me parece menos importante que o objetivo dele, que é fazer o leitor bocejar e dormir. O que é mais importante para você como escritor: que a criança durma ou que goste do coelho Roger?

Carl-Johan: Eu acho que há uma mensagem, embora sutil. Eu tento mostrar às pessoas que não têm conhecimentos em psicologia e comunicação que, para obter resultados com seus filhos, é preciso mudar a forma de se comunicar. Meu objetivo principal com o livro é, claro, ajudar as crianças a relaxar e dormir. Acho que se elas gostarem do coelho Roger é melhor, porque aí vão querer ler o livro novamente. Espero também que a história ajude a criança a aprender como adormecer sozinha, que construa a confiança de que ela pode fazer isso sem ajuda.

Blog: O livro é um best seller mundial, com edições em várias línguas. A que você credita tanto sucesso?

Carl-Johan: Colocar o filho para dormir pode ser um desafio real. Alguns pais me contaram que passavam várias horas tentando colocar os filhos para dormir e com o livro o processo levou apenas 12 minutos. Quando acha-se a solução para um grande problema você costuma contar aos amigos que têm desafios semelhantes. Acho que o boca-a-boca contribuiu muito para o sucesso do livro.

Dia seguinte meu marido me manda uma mensagem perguntando “qual o nome daquele livro milagroso, mesmo?”. Estava no trabalho e queria indicar para uma colega, mãe de um menino menor que o nosso. Também comentei sobre o livro com algumas mães de coleguinhas de escola do meu filho. Não falei nada sobre o final da história, porque nunca chegamos lá, nem por curiosidade. Não sei até hoje se a mamãe coelha conseguiu chegar com o filho até o Senhor dos bocejos. Nunca passamos sequer da página 15. Para alguns autores, fazer com que seu leitor não chegue ao final do livro pode ser a morte como escritor. Para Carl-Johan Forssén Ehrlin foi o segredo do sucesso.

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