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Dia desses, ouvi meu filho dizer enquanto jogava videogame com um amigo: ‘seu comentário foi racista, você tá sendo racista, eu não vou jogar com gente racista’. Ele me explicou com detalhes o que aconteceu e fiquei orgulhosa com seu posicionamento, claro, mas não a ponto de achar que tenho feito algo além da minha obrigação, que é educar meu filho para não ser racista, algo que não fizeram com a minha geração, aliás. Passei a vida ouvindo piadinhas sobre negros dentro da minha família, na escola, na igreja (talvez semelhantes às que meu filho ouviu no jogo), com a mais absoluta certeza repeti grande parte delas, algo pelo qual me envergonho profundamente.

Eu só tive consciência de como somos profundamente racistas na idade adulta e a chave virou totalmente quando chegaram as redes sociais. Entrei em um grupo de mães e lá as mulheres negras começaram a contar suas histórias – houve, inclusive, um episódio chatíssimo em que elas viraram as costas e saíram, não antes apontar todas as vezes em que tínhamos sido racistas ali, em um ambiente exclusivamente de mulheres. Não faltaram pessoas contemporizando o acontecido com um ‘ah, não foi tão grave assim’, ‘imagina, elas não entenderam direito o que a gente estava falando’.

Nós, os brancos, é que não entendemos o que é passar a vida sendo olhado com desconfiança, ter de manter as mãos sempre a mostra para ninguém achar que se está roubando dentro de uma loja ou guardar ad infinitum a nota fiscal de um tênis para eventualmente poder comprovar que não é produto de roubo. Nós, os brancos, não nos vemos sempre retratados como empregadas, porteiros ou bandidos na tevê e no cinema e nunca tivemos de voltar para casa para buscar a identidade esquecida, a carteira de trabalho, o holerite, documentos que muitos se preocupam em ter sempre no bolso para provar que são trabalhadores e não ‘vagabundos’. Nós, os brancos, não somos alvo constante de piadas jocosas sobre o nosso corpo, atributos físicos ou comportamento, nem somos tratados como suspeitos em potencial. Uma vez, em uma roda de conversa, a mãe de um menino negro contou que o filho não pode ir à padaria com ‘roupas de ficar em casa’ porque a chance dele ‘tomar uma geral’ da polícia é muito grande (e isso nunca vai acontecer com meu filho, que é branco).  Uma colega jornalista, negra, contou-me que quando pequena foi ao parque com a família no dia de Natal para estrear a bicicleta que ganhou do Papai Noel e viu o pai ser revistado agressivamente pela polícia na frente deles (e de todos), algo que ela jamais esqueceu (e que eu nunca vivenciei porque, adivinhe, sou branca de pais brancos).

Mas foi um evento de dia das mães que eu entendi que essas histórias não fazem parte do passado, elas continuam acontecendo hoje, e do mesmo jeito de sempre. Lá, uma mulher negra nos contou que a filha pequena sofre constantemente bullying dos colegas de escola por causa do cabelo crespo e dizia não saber mais o que fazer para fortalecer sua autoestima. Eu logo me dei conta que essa menina está sendo vítima dos nossos filhos – sim, são os nossos filhos brancos que fazem isso com as crianças negras. Frases racistas ditas por crianças não surgem por geração espontânea, elas com certeza foram ouvidas em algum lugar, ditas por algum adulto com quem convivem, e então repetidas. Pode não ser você que tenha ensinado isso a seu filho? Pode. Mas cabe a você explicar a ele que tais comportamentos, ‘piadas’ ou frases que causam sofrimento em outras pessoas não são aceitáveis. O que fere alguém não é divertido, o que ajuda a manter essa sociedade racista um lugar cada dia mais insuportável para as pessoas negras viverem não é algo menor, nunca vai ser.

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Em seu livro “Racismo Estrutural”, o advogado e filósofo Silvio Almeida pontua de forma magistral os efeitos deletérios da normalização dessa violência. “O fato de parte expressiva da sociedade considerar ofensas raciais como ‘piadas’, como parte de um suposto espírito irreverente que grassa na cultura popular em virtude da democracia racial, é o tipo de argumento necessário para que o judiciário e o sistema de justiça em geral resistam reconhecer casos de racismo, e que se considerem racionalmente neutros”. Embora racismo seja crime (sim, crime inafiançável e imprescritível, previsto na Lei 7.716/1989 e com pena pode chegar a cinco anos), a Justiça tem uma dificuldade gigante em reconhecê-lo no dia a dia, pode reparar. E quando você contemporiza coisas do tipo, dizendo ‘ah, mas ele só estava brincando’, ajuda a fortalecer essa máquina institucional de moer gente negra.

Na introdução do seu “Pequeno manual antirracista”, a filósofa Djamila Ribeiro alerta: temos que fazer mais, ir além: “Nunca entre numa discussão sobre racismo dizendo “mas eu não sou racista”. O que está em questão não é um posicionamento moral, individual, mas um problema estrutural. A questão é: o que você está fazendo ativamente para combater o racismo? Mesmo que uma pessoa pudesse se afirmar como não racista (o que é difícil, ou mesmo impossível, já que se trata de uma estrutura social enraizada), isso não seria suficiente – a inação contribui para perpetuar a opressão.” No livro, há todo um passo a passo para que pessoas brancas possam reconhecer o racismo (inclusive o que está internalizado em nós), enxergar a negritude e caminhos para nos construirmos como pessoas antirracistas.

Reconhecer os nossos privilégios brancos é uma dessas etapas. Olhar ao redor e desnaturalizar a ausência de pessoas negras nos espaços que frequentamos também – quantos estudantes negros têm na sala de aula do seu filho? E na escola onde estuda? E professores negros, quantos são? Qual é a História sobre a escravização dos povos negros que ele está aprendendo no colégio?  Quantos colegas de trabalho e amigos negros você têm, quantos frequentam sua casa? Se a população negra é maioria no país – 56%, segundo o IBGE – essa ausência nos deveria chocar, acender um sinal de alerta.

O que a gente pode fazer para encampar essa luta, você já se perguntou isso alguma vez? Atenção, spoiler: postar #VidasNegrasImportam em sua rede social provavelmente não terá efeito real na vida de ninguém. Ler escritores negros, ouvir pessoas negras, entender o que eles têm a nos dizer e apontar é primordial. Não podemos negar a realidade, não podemos dizer que o que eles sentem e passam não é o que eles sentem e passam. Reconhecer que, sim, somos todos racistas, porque nascemos em uma sociedade racista, é um primeiro passo importante. Negar que isso esteja acontecendo há séculos no nosso país é silenciar a população negra brasileira, ou seja, cometer mais um grave crime contra ela.

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