Foto: Pixabay

Estava trabalhando em home office quando meu filho pediu para que eu participasse de uma conversa que ele mesmo tinha marcado com o professor de Educação Física de sua turma da escola –  entrei no quarto e dei de cara com o docente do outro lado da tela, na sala de sua casa. A conversa girou em torno da falta de sentido que essas aulas tinham para o meu filho, que dizia não se sentir à vontade em ficar correndo ou pulando em um ambiente minúsculo e fechado. O professor falou que compreendia a sensação, ‘está difícil para todo mundo’, e lembrou que também teve que se reinventar durante esse isolamento social. Eu mais assisti à conversa do que falei e fiquei feliz quando chegaram a um combinado: Samuca liga a câmera durante as aulas para mostrar que está ali, faz alguns alongamentos propostos – importantes para quem passa pelo menos metade do dia em frente ao computador – e participa das brincadeiras se quiser, o quanto quiser. A dupla terminou o papo com os olhos meio úmidos dizendo que sentia falta da escola de antes – e quem não sente, não é mesmo?

Se você tem uma ou mais crianças isoladas desde março dentro da sua casa, está no grupo de Whats App de pais, convive mesmo que virtualmente com amigos com filhos em idade escolar e tem mantido os ouvidos e o coração abertos, provavelmente compartilha da mesma percepção que eu: está todo mundo meio mal, mas as crianças estão piores que nós. Os sintomas disso são câmeras desligadas durante as aulas online, insônia de quem antes dormia bem, crises de ansiedade, choro e tristeza – e aqui em casa completamos a cartela desse bingo do desânimo. O que eram apenas quinze dias de isolamento se transformaram em mais de cinco meses longe dos amigos, da hora do recreio, do burburinho da hora da entrada e da algazarra da hora da saída da escola, um período que se mostra sem prazo para acabar – e demonstrar desassossego diante desse cenário talvez seja o sinal de que a criança está conectada com o mundo à sua volta, e sobre isso não há nada que possamos fazer.

Esses dias o filho de uma amiga perguntou a ela ‘o que era depressão’, dando a senha para que ela investigue um pouco mais sobre como ele vem se sentindo em casa, longe da escola, das atividades ao ar livre e dos amigos. Entrevistei dia desses o psiquiatra Roberto Santoro de Carvalho Almeida, que coordena o grupo de trabalho de saúde mental da Sociedade Brasileira de Pediatria, e ele me contou que atende uma família que teve de reaproximar neta e avó, para o bem das duas. Elas sentiram demais a distância provocada pelo isolamento social e reuni-las foi o jeito que para manter o mínimo de bem estar de ambas. Dava para passar um tempão contando casos: uma amiga querida que teve de encontrar uma psicóloga online para atender o filho que vem se recusando a ‘frequentar’ a escola nesses novos moldes e um casal muito próximo que ‘fugiu’ para o interior com os dois filhos, um deles neuroatípico, porque a dupla estava estressada demais em um apartamento pequeno,  precisando de um pouco de espaço, sol e natureza para voltar a florescer.

Com muitos sentindo na pele essa dura realidade, uma nova questão foi colocada: o retorno urgente das escolas. Essas instituições teriam de reabrir para que essas crianças não sofressem ainda mais, já que os prejuízos causados por esse isolamento continuado seriam catastróficos e com efeitos muito duros em toda uma geração. E caberia a nós, pais, topar esse retorno, planejado com base em pesquisas científicas que mostrariam que os pequenos podem ser assintomáticos ou apresentar sintomas leves da doença se contaminados pela Covid-19 – uma percepção equivocada segundo uma pesquisa feita pela Escola Médica da Universidade de Harvard publicada na revista Journal of Pediatrics do último dia 19 de agosto. Segundo esse novo estudo, o potencial de disseminação do vírus entre os mais jovens foi subestimado e há registro de alguns casos de síndrome multissistêmica grave entre as crianças que pegaram a Covid-19 (18 entre as 192 crianças observadas pela pesquisa). Acompanhar de perto o que a Ciência tem produzido sobre essa doença nos deixa ainda mais preocupados com o risco que as crianças enfrentariam se pegassem coronavírus – seria maior ou pior que as consequências de ficarem tanto tempo apartadas do mundo lá fora?

É legítimo pensar em volta às aulas no segundo país do mundo com mais casos e com mais mortes causados pelo coronavírus? Será que se as escolas “tomarem todos os cuidados” e “adotarem todos os protocolos” as crianças estarão protegidas? Mesmo se elas forem assintomáticas e tiverem as formas mais leves do coronavírus, não colocariam em risco a vida de seus professores e outros funcionários da escola, principalmente aqueles com comorbidades comuns, como hipertensão e a diabetes? E os avós, que muitas vezes vivem sob o mesmo teto que os netos, não estariam em risco aumentado de contaminação (e de morte) com esse vai e vem das crianças, que passariam a ter contato com um universo muito maior de pessoas?

Questões complexas como essas não costumam ter soluções simples, infelizmente. Para muitos pais, a volta da escola é uma necessidade, já que tiveram de retornar ao trabalho e não têm com quem deixar os filhos. Quando não há escolha, sobra pouco espaço para dilemas. Poder manter as crianças seguras e com sanidade mental preservada também é questão de privilégio, parece. Nenhuma surpresa, já que estamos falando do Brasil.

Leia mais: Crianças não podem ser impedidas de ter contato com um dos pais nem durante uma pandemia

Leia também: Muitos casamentos estão desabando durante a quarentena