Crianças

Foto: Pixabay

Uma amiga querida que mora na Espanha engravidou e consegui acompanhar a gestação dela a distância, graças às redes sociais. Vi o primeiro ultrassom e depois soube que ela esperava um menino, que nasceria em dezembro. Mesmo tão longe, eu esperava a chegada do pequeno com muita expectativa. Mas chegou o réveillon e nada do guri nascer. Fiquei angustiada, mas permaneci em silêncio – se tem uma coisa que eu aprendi é que uma grávida não merece lidar com as expectativas dos outros, já tem suas próprias caraminholas para cuidar.  No primeiro dia do ano essa amiga fez um post lindo no Facebook dizendo que 2017 já trazia sua primeira lição: não somos nós que controlamos a força das marés. Ela lembrava que respeitar o tempo do outro pode ser emocionalmente desgastante, mas ela e o pai do bebê decidiram que era assim que ia ser: o filho viria no tempo dele.  Noah nasceu bem, obrigada, mas só quando estava pronto, no dia 6 de janeiro, seis longos dias depois daquele post e na 43a. semana de gestação.

Lembrei da minha gravidez e como as expectativas dos outros também me angustiavam, embora não me paralisassem. A família estava toda em São Paulo em um fim de semana, esperando o nascimento do meu filho que, claro, não veio ao mundo só porque os tios tinham viajado mais de 500 km na esperança de vê-lo nascer. O sábado passou. O domingo também. Na segunda-feira parte da família foi embora porque tinha que trabalhar e meu filho nasceu na terça, no dia em que tinha que ser, fazendo que todos corressem de volta para vê-lo no final de semana seguinte – era o bebê estava no comando de nossas vidas, e não o contrário, e é bom quando a gente percebe e aceita isso cedo.

Em um mundo onde tempo é dinheiro e planejar os detalhes de tudo é uma qualidade que pode beirar a obsessão, observar, respirar e respeitar que o outro, no caso, seu filho, tem um ritmo diferente do seu pode parecer uma excentricidade, uma loucura a ser justificada. Mas pode ser um exercício ótimo de maternidade, o primeiro de muitos, aliás. Depois que o filho da gente nasce, a todo minuto fica claro que não dá para planejar muita coisa. Eles não mamam “de três em três horas” e sim quando têm fome. Começam a rolar, sentar e engatinhar apenas quando estão fortalecidos para a tarefa – o que pode ser em um tempo muito diferente daquele previsto nas tabelas de desenvolvimento que, claro, têm a sua importância, mas são feitas de papel enquanto seu filho é de carne e osso. As primeiras palavras só serão pronunciadas quando fizerem sentido, os primeiros passos quando as perninhas estiverem fortes e as fraldas só serão dispensadas quando ele, seu filho, der o sinal de que consegue controlar o xixi e o cocô e não quando você decidir que “chegou a hora”.

A gente estimula, cuida, interage, olha e guarda. Mas não estamos no comando de nada, não. Lembrei disso ao ouvir uma mãe dizer a outra, na loja de material escolar, que esse é “o ano que o filho vai aprender a ler”. Pode ser que sim. Pode ser que ainda não. Mas ele vai aprender, viu? Na hora que ele puder. Não dá para controlar tudo, muito menos a força das marés.

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