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Nenhum pai ou mãe está pronto para receber o diagnóstico de câncer de um filho. A gente tende a achar que infância é sinônimo de saúde e, por isso, sintomas de alguns cânceres infantojuvenis podem passar despercebidos ou são muitas vezes confundidos com os de outras doenças comuns na infância, confusão que pode acontecer inclusive entre os médicos. Embora seja raro entre crianças e adolescentes, o câncer é a principal causa de morte por doença na população de 0 a 18 anos segundo o INCA, o Instituto Nacional de Câncer. A boa notícia é que o câncer infantojuvenil responde muito bem à quimioterapia, explica o oncologista pediátrico Flávio Luisi, um dos fundadores do GRAACC, uma instituição sem fins lucrativos que oferece tratamento a crianças e jovens que muitas vezes atravessam o país para poder serem atendidos por esse centro de excelência. No dia internacional de combate ao câncer infantojuvenil, Luisi conversa com o blog e explica quais são os sintomas que pais, cuidadores e professores precisam ficar de olho quando o assunto é a saúde dos pequenos.

Blog: Qual a importância de existir o dia internacional de combate ao câncer infantojuvenil?

Dr. Flávio: Uma data como essa é para relembrar, reforçar, chamar a atenção da sociedade, dos pais, professores e de todos nós quais são os sinais e sintomas do câncer infantil. É uma doença que apesar de ser rara, se diagnosticada precocemente, tem uma grande chance de cura. Por isso que é importante que a gente tenha uma data que chame a atenção.

Blog: Qual o câncer mais comum da infância e da adolescência?

Dr. Flávio: A leucemia é o câncer infantil mais frequente. E quando a gente está falando de leucemia, está falando da leucemia linfoide aguda, que acomete principalmente crianças de 3, 4, 5 anos de idade e que pode começar de forma muito abrupta. São crianças que estão muito bem, obrigado, e que de repente começam a ter alguns sintomas como, por exemplo, uma dor articular – uma dor no joelhinho, no cotovelo, acorda de noite com aquela dor. Essas crianças podem ter uma febre de origem indeterminada, que a gente não sabe o que é, pensa que é uma infecção, que é uma virose, mas a febre acaba não cedendo, passa uma semana, duas, três semanas.

Blog: Depois da leucemia, quais são os outros cânceres mais comuns?

Dr. Flávio: Temos os tumores do sistema nervoso central, os tumores cerebrais, o segundo tipo mais comum, que acometem crianças de qualquer faixa etária, mas que aparecem principalmente no oitavo, nono, décimo ano de vida. E essas crianças podem ter sintomas como náuseas matinais, vômitos e, à medida que o tempo passa, essas náuseas e vômitos vão se acentuando. Mas nas crianças bem pequenas esse câncer pode ter uma outra sintomatologia, que é a irritabilidade. Uma outra coisa que vale a pena observar é o desenvolvimento neuropsicomotor: a criança costuma firmar o pescocinho com três meses de idade, sentar aos seis meses e andar com um ano – e quando ela começa a ter reversão desse desenvolvimento, ou seja, para de andar, de firmar o pescoço, de sentar, isso pode ser um sinal de um tumor cerebral. Temos os linfomas, uma doença do sistema linfático, que é a terceira neoplasia mais comum da infância e os sintomas são gânglios, ínguas, principalmente na região do pescoço, axila, virilhas, que pode ter crescimento lento ou crescimento mais rápido, quando dá no abdômen ou no tórax. Temos também outros tumores, como os tumores ósseos, que podem acometer os adolescentes que apresentam dores principalmente em volta do joelho e que geralmente acomete jovens que estão praticando exercícios físicos, que estão praticando esportes e que sempre relacionam aquela dor com uma pancada que tomaram no local, porque aquele osso já está sensível, e às vezes o diagnóstico demora o diagnóstico por causa disso.

Blog: Os sintomas que você citou podem ser facilmente confundidos com de outras doenças menos graves e que são comuns na infância, não é?

Dr. Flávio: Sim. Muitos desses sinais e sintomas mimetizam doenças comuns da infância, se confundem. Por exemplo, uma febre. É comum as crianças terem febre. Só que a febre que a gente está chamando a atenção não é aquela que a criança tem porque está com uma dor de garganta, um resfriadinho, uma virose. A febre que tem que chamar a atenção é aquela de origem prolongada, a que dura semanas. E quando a gente fala de náuseas, vômitos – sintomas que uma virose também pode provocar – nós não vamos ficar pensando que é câncer. Mas se essas náuseas e vômitos persistirem, todos os dias, passam semanas e começam a ter maior intensidade, isso deve chamar a atenção, da mesma forma que os gânglios, as ínguas, que aparecem quando as crianças têm uma amigdalite, otite. Mas se esse gânglio persiste por quatro, cinco semanas e vai aumentando, deve chamar a atenção.

Blog: O senhor falou da importância da família, mas também dos professores nesse diagnóstico. A gente está no meio de uma pandemia, as crianças estão há quase um ano em casa, nem todas voltaram às aulas presenciais. Por que é importante esse olhar dos educadores?

Dr. Flávio:  Às vezes só os pais, que convivem com a criança todos os dias, não se apercebem de todas as alterações e sintomas que podem surgir na criança. E nesse momento de pandemia, onde as crianças estão afastadas da escola, nós temos um pouco mais de dificuldade no diagnóstico sem esse olhar. O câncer do adulto é passível de screening, ou seja, há uma recomendação para que as mulheres a partir de uma certa idade façam a mamografia, o autoexame, e os homens façam o toque retal, a pesquisa do PSA depois dos 50 anos, para tentar fazer o diagnóstico precoce do câncer de mama e de próstata. Mas nas crianças nós não temos rastreios, então nós dependemos muito da observação. A gente acaba disseminando muitas informações para os professores, para que nos ajudem a perceber determinados sinais e sintomas que podem ser sugestivos de câncer, para que eles orientem as famílias e nos encaminhem essas crianças para os centros de referência especializados, para que a gente possa confirmar ou afastar esse diagnóstico.

Blog: E a pandemia diminuiu o número de diagnósticos de câncer infantil?

Dr. Flávio: Nos continuamos atendendo, mas o número de crianças e que chegaram aos centros especializados diminuiu muito por causa da pandemia e não só porque as escolas estavam fechadas, mas porque os postos de saúde e a assistência médica estiveram fechados. Então os casos de câncer infantil estão chegando mais avançados em função disso.

Blog: Você acha que houve um represamento de diagnósticos?

Dr. Flávio: Durante um certo tempo houve, agora está voltando ao normal, mas os casos estão chegando mais avançados, e acho que isso está acontecendo no mundo inteiro. O câncer não para de acontecer, então simplesmente os casos chegaram mais avançados. Agora está normalizando novamente.

Blog: Qual a porcentagem de cura desses cânceres infantis?

Dr. Flávio: De uma maneira geral, a gente no GRAAC consegue curar um pouco mais de 70% das crianças, independentemente do estágio em que a criança chega, avançado ou precoce. Mas se ela chegar no estágio inicial, esse número sobe muito. Uma leucemia em estágio inicial tem quase 90% de chances de cura, assim como o linfoma, como um tumor renal chamado tumor de Wilms. Se for feito o diagnóstico precoce, a chance de cura do câncer infantil é extremamente elevada.  E o câncer da criança cresce muito depressa, é diferente do câncer de adulto. Mas exatamente porque ele cresce muito depressa ele se dissolve rapidamente – e a quimioterapia age exatamente no ciclo celular: quanto mais depressa esse ciclo celular acontece, mais depressa a quimioterapia age e mata essa célula. Então a quimioterapia é muito efetiva no câncer infantil.

Se você quiser saber mais informações sobre o GRAACC, sinais e sintomas dos cânceres infantis mais comuns, acesse www.graac.org.br.

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