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“Seu filho precisa aprender a se frustrar” dizem à mãe enquanto ela, já culpada, acalenta no peito o filho recém-nascido que chora com fome. Na verdade ninguém sabe direito como é que se ensina uma criança a se decepcionar, mas muitos têm certeza que deixar um bebê que ainda não sabe falar se esgoelando no berço é uma ótima primeira lição de “como não se pode ter tudo nessa vida”, mesmo que o “tudo” desejado pelo pequeno fosse apenas uma fralda limpa depois do cocô, uma demanda super legítima, aliás.

Os palpiteiros vivem ditando regras para que não se criem “pequenos ditadores”: não pode pegar a criança toda hora no colo para que não “se acostume mal”. Não pode amamentar quando o pequeno mostra que tem fome, mas sim de três em três horas contadas no relógio. E nada de diálogo, o caminho é o da chinelada na bunda, mas por que mesmo?, “porque quando era pequeno apanhei e não morri, oras”.

Há um abismo entre maltratar um indivíduo em construção que agiu da forma esperada, ou seja, como uma criança, e ensiná-lo a se frustrar. É previsto e natural que os bebês chorem quando estão com sono, com fome ou incomodados com alguma coisa, assim como é desejável que você, a pessoa em quem seu filho mais confia nesse mundo, faça o seu papel de ninar, alimentar e acolher suas carências naturais sem abandoná-lo à própria sorte, ou melhor, ao azar de ter suas necessidades confundidas com capricho ou com “manipulação”. “Seu filho está te manipulando”, ouvi uma vez de uma pessoa que nem era muito próxima que observava o insistente pedido de colo do meu filho, então com um ano, que estava até meio doentinho. Como alguém pode imputar má índole a alguém que ainda não sabe nem onde fica o próprio nariz e só quer carinho e aconchego da pessoa que tem como referência de cuidados?

A pequena Riley sendo acolhida pelos país no ótimo “Divertidamente”, da Pixar

Claro que assim que nossos filhos tomam ciência da própria existência cabe a nós a tarefa de dizer de ‘não’ a eles, de guiá-los no caminho da frustração gerada pelo isso pode/isso não pode, isso dá/isso não dá , isso tudo bem/isso faz mal a você ou aos outros, então não. Não pode se pendurar na janela, é perigoso. Nada de comer doce durante a semana, faz mal. Tem sim que fazer a lição de casa, é importante. Não dá para comprar tudo o que você quer e, mesmo que desse, a vida não é assim. Não precisa ser psicólogo para saber que a frustração é sim importante para a formação dos nossos filhos e que não dá para protegê-los de tudo, nem podemos. Mas a frustração não pode ser um fim nela mesma, não faz sentido. Não vou te pegar no colo (porque ouvi em algum lugar que eu preciso ser má  para que você se acostume com a maldade do mundo) é muito diferente de não vou te pegar no colo agora porque minhas mãos estão ocupadas com seu irmão/com as compras do mercado/ ou porque meus braços estão doendo. A vida pode ser difícil sem dar maiores explicações, a gente não, nunca, pelo menos não conscientemente.

Todo esse “textão” nasceu porque assisti pela enésima vez à “Divertidamente”, animação da Pixar ganhadora do Oscar e do Globo de Ouro de 2016. Para quem esteve em coma nos últimos anos e não sabe do se trata, explico: o filme conta a história de Riley, ou melhor, das emoções que habitam a mente da menina desde que era apenas um bebê: a alegria, a tristeza, a raiva, o medo e o nojo ocupam a ‘sala de controle’ de suas emoções, ou seja, seu cérebro. Como os pais de Riley sempre foram carinhosos e atenderam todas suas necessidades emocionais, a maioria das memórias da garota é feliz. Mas, lá pelas tantas, a vida se encarrega de tirá-la da zona de conforto e apresenta todo o seu cardápio de frustrações: sonhos que acabam, separações que acontecem e ciclos que se encerram. A tristeza mostra suas garras, apresentando à pré-adolescente toda uma nova paleta de cores, de emoções e de lembranças ruins.

 

A ‘sala de controle’, ou melhor, o interior do cérebro de Riley. Da esquerda para direita: Raiva, Nojinho, Alegria, Medo e Tristeza

Os pais de Riley são alvo de parte da raiva da menina que, atenção, spoiler, acredita que sua vida mudou para pior a partir de uma séria de decisões tomadas por eles (é puberdade que chama, não?). Uma das grandes sacadas da animação é discutir a importância da tristeza em tempos em que o sentimento é tratado como algo a ser combatido a todo custo e sobre como o afeto pode ser sim transformador. Riley consegue atravessar sua primeira turbulência emocional porque percebe que seus pais foram protagonistas das suas melhores recordações, mas coadjuvantes de suas frustrações – e não o contrário. E é esse o papel que a gente espera ter na vida dos nossos filhos, não? O de pessoas amorosas acima de tudo, apesar dos nossos inúmeros defeitos. Sim, temos vários. E nossos filhos também.

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