Acampamento: bem longe do olhar dos pais

As férias escolares estão chegando e os pais que não têm o privilégio de poder ficar um mês inteirinho longe do trabalho para passar esse tempo grudados nos filhos já começam a sofrer: como distrair as crianças nas férias? Daqui até o fim do mês, todas as sextas-feiras, o blog vai trazer algumas opções para aqueles não podem se ausentar dos compromissos profissionais como gostariam mas, ao mesmo tempo, desejam que as crianças saiam de casa e se divirtam durante esse merecido período de descanso.  Os acampamentos de férias, espaços onde o que não falta é diversão para os menorzinhos  e para os adolescentes, são uma ótima opção para algumas famílias.

Hoje o blog conversa com Márcia e Lúcia Ribeiro da Luz, mãe e filha que são proprietárias do Replago, um acampamento que fica na cidade de Leme, a duas horas de São Paulo. Em quase 22 anos de atividades o local já recebeu mais de 150 mil crianças e adolescentes e oferece uma gama de atividades que vão dos esportes tradicionais, como o futebol, às aventuras mais radicais, como aquajump, tirolesa, arvorismo e banana boat. A prioridade é que a criança se divirta ao ar livre, em contato com a natureza, para que as férias sejam saudáveis e felizes. Mas daí ‘pipocam’ as dúvidas: Será que meu filho conseguiria ficar uma semana longe de casa? Será que vai se divertir? E se ele ficar doente? A dupla conversou com o blog e, nesse sábado, 16/06, também receber pais pais que quiserem tirar dúvidas e se preparar para o momento de ver as crianças voarem para longe do ninho pela primeira vez.

Blog: Quem é a criança que pode ir para o acampamento? Existe uma idade mínima para que a criança esteja apta para passar por essa experiência?

Márcia: Nós recebemos crianças de 6 a 16 anos, então a partir dessa idade a criança já pode vir para o acampamento. Mas existem crianças um pouco mais novinhas, de 5 anos, que a gente chama de “5 anos alto”, que são aquelas super desembaraçadas, ‘segundos’ ou ‘terceiros’ filhos que estão super acostumados a uma convivência social, digamos assim. Essas crianças, se tiverem vontade de vir ao acampamento, também podem vir.

‘As crianças aprendem a dividir o espaço com outras crianças e a lidar com as diferenças’, conta Márcia

Blog: Que habilidades sócio-emocionais elas têm de ter, independentemente da idade, para passar uma semana em um acampamento de férias?

Márcia: As crianças têm que estar acostumadas a lidar com amigos ou família. Normalmente a criança de 6 anos já frequenta escola, já vai à casa de amigos e de parentes, já tem uma rede de relacionamentos, ou seja, ela já tem esse preparo para poder lidar com intercorrências, como receber um ‘não’ de um colega, reconhecer que está com sono e contar ao monitor como se sente, por exemplo.

Blog: Já precisa ter dormido fora de casa alguma vez, na casa dos avós, dos primos ou de algum amiguinho?

Márcia: Mais do que já ter dormido, ela tem que ter vontade de dormir fora de casa. Às vezes algumas crianças nunca tiveram a oportunidade, por algum motivo. Mas se ela tiver essa vontade isso conta muito. Porque ela vai ao acampamento com disposição e enfrenta as dificuldades que podem surgir. Se ela nunca organizou as próprias roupas, no acampamento ela vai ter de guardar as roupas no armário, vai ter que fazer o prato do almoço sozinha. Então, quando ela tem essa vontade, ela lida com tudo isso de uma forma mais fácil.

Lúcia: O ponto chave é a criança querer ir. E para ela querer ir, a família tem que se mostrar preparada, dar apoio para que ela vá. Porque, às vezes, a mãe fala para a criança, ‘ai, filho, eu não sei se você vai conseguir ir, não sei se é uma boa ideia, não sei se você está pronto’. E acaba transmitindo essa insegurança para a criança.

Blog: O que os pais podem fazer, como se fosse uma ‘lição de casa’, para ajudar que uma viagem como essa seja possível, sem traumas?

Lúcia: Uma coisa legal que os pais podem fazer é entrar no site do acampamento, olhar as fotos, assistir aos vídeos, ir explorando junto com o filho para saber quais são as vontades e os receios que a criança tem, e já ir trabalhando isso com ela, como um preparo da viagem. A bagagem também podem ser feita junto. Arrumar a mala com a criança é muito legal. Pode pegar a lista de sugestão de bagagem e estimular que o filho já comece a fazer escolhas a partir daí. Os pais têm que fazer a mala junto com o filho para que, chegando ao acampamento, ele saiba que roupa levou. Às vezes os pais compram um monte de roupas novas para a criança e, chegando lá, ela nem conhece aquelas roupas, não sabe que aquelas peças são dela. A criança vai pegar a roupa nova que os pais compraram para usar na festa do acampamento para usar na trilha de lama.

Blog: Fazer o próprio prato, tirar a mesa depois das refeições e arrumar as próprias coisas são bons exercícios a serem propostos pelos pais para os filhos um tempinho antes do acampamento?

Márcia: Eu acho que a família deve ter a sua rotina, e o ideal seria que essa rotina já exista dentro de cada família. Mas as crianças experimentam essas coisas aqui no acampamento, acabam tendo o estímulo dos amigos, do grupo, eles vão querem acompanhar e aprendem essas coisas de um jeito legal.

Lúcia: A criança vai estar entre seus semelhantes, entre outras crianças da mesma idade, vai aprender certas coisas de um jeito bem natural. Não é o pai falando para ela fazer, é ela aprendendo olhando para o colega que já sabe mais do que ela, ou até ajudando o colega que sabe menos do que ela. Assim eles aprendem mais rapidamente. Ele quer fazer igual ao amigo “mais desenvolvido”, sabe? É diferente de fazer porque “tem que obedecer a mãe”.

Da esquerda para direita: Lúcia, Ruy e Márcia. A família fundou o acampamento há quase 22 anos em uma propriedade da família que era uma Fazenda de Café e Algodão

Blog: Claro que o objetivo dos pais quando mandam os filhos para o acampamento é que eles se divirtam, façam amigos, passem um tempo de qualidade, não há expectativa de que aprendam coisas, como quando vão à escola.  Mas eles voltam mais sabidos, adquirem várias novas habilidades, né? Como é essa criança que volta do acampamento?

Márcia: Eu diria que essa criança vai estar mais autônoma, porque ela vai fazer, no acampamento, coisas básicas que, em geral, não faz em casa, que é cuidar de si, dos seus pertences, se alimentar sozinho e de forma adequada, porque eles também descobrem vários outros tipos de alimentos, aprendem a fazer escolhas. Ele vai aprender a falar “eu quero jogar futebol, agora eu quero ir para a sala de artes”. Tudo isso é um aprendizado de autonomia. Tudo é possível, ele está aqui para experimentar mesmo. Ele aprenderá a dividir o espaço dele com outras crianças, a lidar com as diferenças. No chalé onde os grupos ficam, sempre tem uma pessoa que é muito diferente de você, que não seria a pessoa que você escolheria como amigo. Mas isso, para o ensinamento da convivência, que é uma coisa tão importante hoje em dia, é muito positivo. Aprender que nem todas as pessoas são do jeito que você gostaria que fossem. E é na dificuldade que a gente tem os maiores aprendizados, sabe?

Esquecendo da limpeza na ‘trilha do Barroso’

Lúcia: As crianças acabam se identificando e criando vínculos, não apenas de acordo com os interesses em comum, mas de acordo com a necessidade de acolhimento emocional e afetivo de cada uma. Então, às vezes, crianças que no dia a dia de uma escola não conviveriam e não se identificariam, dentro do acampamento elas entendem a necessidade de criar um vínculo, para que a experiência de acampar seja ainda mais transformadora. No acampamento as crianças mais novas aprendem a confiar em outros adultos que não são seus pais: os monitores, os coordenadores, os proprietários do acampamento, acabam tendo outras referências. E as crianças um pouco mais velhas aprendem a confiar nos seus colegas, elas precisam confiar neles durante o acampamento, afinal de contas vai ser necessário que trabalhem em equipe, que encontrem parceiros ali nos colegas que servem de suporte. Então elas aprendem a confiar umas nas outras.

Blog: A gente sempre ouve falar da importância do brincar livre e de como as crianças de antigamente, ao contrário das de hoje, não precisavam que um adulto ficasse sempre propondo atividades como acontece hoje, quando as crianças vão para a escola e têm períodos limitados para brincar, ou quando vão a uma  festa infantil, por exemplo, e encontram monitores que comandam a diversão. Como vocês equilibram, no acampamento, essas duas formas de brincar?

Márcia: No acampamento as crianças recebem propostas de atividade e daí, em função disso, eles optam por aquilo que querem fazer. A gente propõe, ‘agora temos essa atividade, mais essa e aquela’, e a criança pode escolher dentro dessas possibilidades. Mas às vezes eles não querem fazer nenhuma daquelas coisas, querem outra atividade. E a gente percebe porque a criança fica meio perdida, ‘fica procurando’. A gente costuma andar pelo acampamento, percebe essas crianças e pergunta, ‘mas o que você está com vontade de fazer?’. Daí ela responde ‘ah, eu quero ficar na prainha, na beira do lago, lendo um livro’. Então a gente fala, ‘claro, tudo bem, pode ficar lá!’ Dependendo daquilo que a criança sugere, a gente vai tentando criar uma possibilidade para ela. Às vezes outros amigos se juntam a essa criança e eles acabam criando uma atividade nova. Existe o brincar dirigido, mas a criança também manifesta uma vontade. E quando ela não quer fazer uma coisa, está cansada, injuriada, quando não gosta daquilo ela se manifesta. Então a gente faz com que ela encontre o caminho dela e fique feliz, porque o objetivo é esse, que ela se realize. Ela não é obrigada a fazer nada que não quiser.

Blog: Os pais se preocupam muito com a segurança dos seus filhos, claro, com acidentes que podem acontecer e também se questionam, afinal quem são esses adultos que vão ficar com os meus filhos no acampamento? Como vocês acalmam esses pais e como são escolhidos esses profissionais que lidam diretamente com as crianças para que o acampamento seja uma experiência segura?

Márcia: Os primeiros adultos que são referência para a criança são os monitores, que são aqueles que vão ficar com eles nos quartos, que dão as orientações, ‘olha, vamos passar protetor, vamos colocar casaco, secar o cabelo’. Além deles, existem os coordenadores, os médicos e os enfermeiros, que cuidam das crianças, que estão sempre presentes dando remédio na hora certa, vendo se a criança se machucou, e o pessoal do atendimento, que entrega e-mails dos pais para as crianças, dão recados, auxiliam quando tem que fazer uma ligação. O que todas essas pessoas têm em comum? São pessoas que ajudam a cuidar com carinho e segurança dessas crianças, pessoas treinadas exaustivamente por nós. E as crianças percebem isso e se sentem seguros a partir disso.

Blog: Os quartos dos meninos são sempre separados dos das meninas?

Márcia: Sim, sem dúvida.

Blog: Pela experiência de vocês, quem sente mais saudade durante a semana do acampamento? Os filhos sentem mais a falta dos pais ou os pais dos filhos?

Márcia: Os pais dos filhos, com certeza (risos). Os filhos estão aqui em plena atividade, então eles ficam bem. Se eles estão preparados, se eles estão aptos, eles ficam muito bem. E os pais estão na sua rotina diária. E quando os pais chegam em casa, eles sentem a falta das crianças, a não ser que eles também saiam da sua rotina. E as crianças, como estão fora das suas atividades habituais, estão cheias de estímulos e fazendo várias coisas que elas gostam, ficam bem, se distraem, esquecem de tudo.

A equipe do Replago vai receber os pais e as crianças  para um café da manhã nesse sábado, 16/06, na Rua Camilo, 455, Vila Romana, a partir das 10hs da manhã. Em pauta as principais dúvidas que os pais de primeira viagem carregam antes de decidir mandar os filhos para um acampamento de férias.

Na próxima sexta: vamos falar sobre as férias com os avós. Será que deixar as crianças com eles é uma boa? Os avós de hoje em dia tem paciência para passar uma temporada com os netos?

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