Foto: Luisella Planeta Leone por Pixabay

“Acordar de madrugada, amamentar, trocar a fralda – nada disso é mais cansativo que ter um filho adolescente”, me disse uma vez uma amiga, quando me contava o quanto sentia saudade do filho bebê, que resmungava apenas quando estava com fome, com a fralda suja ou com cólica. Fato é que a maternidade é como um jogo de videogame – cada vez que você passa de fase fica mais difícil – e a adolescência é um desafio pesado para os pais. De repente, aquela criança que te amava e que viva grudada em você quer apenas ficar trancada dentro do quarto, que está cada vez mais bagunçado, aliás. O mau humor impera e parece que chegou para ficar, assim como as reclamações e as discussões, que parecem cada vez mais estapafúrdias. Se você diz ‘a’ seu filho adolescente diz ‘b’ e a educação que você deu até então parece ter sido inútil. “Quando o nosso filho está trancado num quarto meio bagunçado, largado na cama com fones de ouvido, a impressão que a gente tem é que tudo desandou”, explica a psicóloga e psicopedagoga Karin Kenzler, 55, mãe da Isabela, 26, e do Mark, 24, e com 30 anos de experiência no atendimento de adolescentes. Mas esse essas crises todas são esperadas, explica. “Se seu filho não passa por essa crise que é a adolescência, aí é que você tem que se preocupar”, garante.

Blog: Essa coisa dos pais terem ‘medo’ da adolescência dos filhos tem a ver com a ideia de que eles não vão precisar mais tanto da gente, que o diálogo vai ser difícil, que eles vão mesmo se afastar da gente. Esse é o momento que a gente vai ‘perder’ o filho para o mundo?

Karin: Os pais desde de sempre já temem com antecedência a chegada da adolescência porque ela é tida como um período de muito desgaste, muitas brigas, e de como você falou de quase ‘perda dos filhos’; é um momento que muitas vezes os pais acham que a educação deu errado porque você não reconhece mais aquele filho bonzinho e que obedecia, que era fofinho, carinhoso, e aí se frustra. Mas o que falta é um pouco de conhecimento de qual é o papel dos pais na adolescência. A gente tem mais clareza desse papel quando a criança é menor, porque temos que ensiná-la a comer, depois andar de bicicleta, dar laço no tênis, ler e escrever. Aqui é tudo muito manifesto, aberto, você consegue acompanhar, você entende. E na adolescência o papel dos pais é mais obscuro porque tudo isso o adolescente já sabe, ele já caminha, tem uma certa autonomia, responsabilidade e a gente fica meio perdido, e o quê temos a ensinar nessa idade?

O que diferencia uma criança de um adulto é essa autonomia, a responsabilidade que se tem que adquirir perante a vida, porque um dia o filho vai caminhar sem vocês, pais, aí vai ter que tomar suas próprias decisões de forma acertada, vai ter a responsabilidade de acordar sozinho, escovar os dentes, alimentar-se de forma saudável. Então essa é a fase que o adolescente exercita querer ser um jovem adulto, ser igual aos pais, ter a mesma autoridade, a mesma sabedoria, querer ter a mesma razão nas discussões, por isso que acontecem os embates e é nesse momento que ele vai querer ficar parecido com os pais. Se você sempre mandou, ele quer mandar, se você sempre teve a palavra final,  a razão, os argumentos, ele vai querer ter os argumentos e a razão.

Só que muitas vezes as discussões são meio estapafúrdias – eles defendem seu ponto de vista em qualquer tema, pode ser o veganismo ou o fim do mundo previsto pelos astecas –  e os adolescentes vão até o fim porque o exercício de argumentar, de ter razão, de mostrar que sabe é assim e às vezes a gente leva isso passa pro lado pessoal, como uma afronta, a gente não valoriza esse processo e não pensa, “poxa, né, ele está se exercitando, está tentando”, não. Às vezes a gente faz até ao contrário e fala “pô, não dá pra conversar, você só fala bobagem, coisas sem pé nem cabeça!” A gente se estressa.

Blog: Esse comportamento deles de ser sempre ‘do contra’ é normal?

Karin: Demora para se ter o indivíduo formado, então na adolescência ele vai se opor aos pais, pode até seguir uma outra religião, gostar de outras coisas, ser diferente na hora de se vestir. Ele se identifica muito com os pares, com outros adolescentes, então tem todos aqueles maneirismos na vestimenta, uma forma de conversar com a qual você não se identifica, não reconhece muito o seu filho. Ele só está querendo ter a mesma autoridade que você e se rebela contra as autoridades, sejam a dos pais, dos professores. Só mais lá para a frente o seu filho vai ficar parecido com você, não igual, porque o fruto não cai longe da árvore, então mais pra frente a tendência é harmonizar mais um pouco o relacionamento e você perceber que acaba sendo bem parecido. E quando ele for ter os próprios filhos e educar vai acabar reproduzindo bastante esse jeito dos pais, da forma que foi educado.

Gosto até de fazer uma comparação da adolescência com o casulo da larva que vai virar borboleta, porque você não vê o que está acontecendo lá dentro. E esse casulo é até uma coisa meio inerte, feia, grosseira, que é como algumas vezes a adolescência se mostra. O adolescente acaba sendo meio agressivo, monossilábico, não quer dialogar, debocha um pouco dos adultos e só se identifica com outros adolescente como ele. Quando o nosso filho está trancado num quarto meio bagunçado, largado na cama com fones de ouvido, a impressão que a gente tem é que tudo desandou – ele não faz lição, não ajuda, deixa tudo bagunçado e esse quarto é um pouco o casulo visto de fora, parece que lá dentro não está acontecendo nada, mas é que o processo é interno. Só que dentro desse casulo, na verdade, está acontecendo quase que um milagre, temos uma larva que vai virar uma borboleta. Quando a gente abre a porta desse quarto, arranca esse adolescente da cama e briga, bota de castigo, obriga a arrumar o quarto é como se a gente estivesse forçando essa borboleta a sair, abrindo aquele casulo e puxando aquelas asinhas para fora, em um momento em que você ainda pode ter uma borboleta incapaz de voar.

O adolescente tem essa necessidade de ter um pouco de privacidade e isso não significa que a vida pode virar um caos total, sempre tem que ter moderação, respeito, ele não pode te desrespeitar, de vez em quando você vai ter que cobrar uma arrumação, mas tem que ter um pouco mais de tolerância e não se desesperar tanto porque essa fase você vai ter que aguentar –  vai ter um pouco mais difícil, ele vai estar um pouco mais retraído, você vai ter menos relação com ele. Mas, do mesmo jeito que a gente sabe que quando temos uma criança a fase de tirar as fraldas é mais complicada, de vez em quando vai ter uma sujeirada danada pra limpar, tem que levantar de noite para levar para o toalete e a gente encara isso como um período, uma fase, a adolescência também é assim, ou seja, essa confusão é esperada, significa que está dando certo, pode comemorar. Se seu filho não passa por essa crise que é a adolescência aí você tem que se preocupar, porque aí você corre o risco de ter uma criança para sempre presa à barra da saia da mãe, tem que ter certa independência, autonomia. A adolescência, segundo a Organização Mundial da Saúde, vai dos 12 até 20 anos e a gente sabe que hoje até se estende mais, eles costumam ficar até mais um tempo na casa dos pais, então tem que ter muita paciência.

Blog: A gente fala muito em botar limites para criança pequena, isso também tem que ser feito com os adolescentes? A gente tem que dar espaço, mas como colocar esse limite de uma forma gentil, sem implodir o pouco diálogo que é esperado nessa fase?

Karin: É muito importante colocar limites nos adolescentes porque eles são sem limites, não têm muito medo, se sentem invencíveis, gostam de aventura, adrenalina, se arriscam muito mais inclusive nas aventuras amorosas, de repente não querem usar camisinha, se descuidam com bebida. Só que os limites não devem ser passados de uma forma autoritária, eles precisam ser negociados, não no sentido de que eles tenham a palavra final, mas no sentido de que descubram o porquê do “não”, porque é isso o que a gente está ensinando nessa fase, como é que a gente pondera? Ele precisa aprender esse processo de tomada de decisão, então é muito importante a gente conversar isso com ele, “poxa, mas essa festa é muito longe, é um lugar meio ermo, não vai ter adulto, e se acontecer isso ou aquilo?” para que ele tenha a impressão de que ele chegou junto à conclusão de que é melhor não ir, “essa balada eu vou passar, deixa para a próxima”, para ele conseguir amadurecer nesse sentido. Essa forma de lidar talvez seja meio idealizada, ele sempre vai fazer uma cara de meio contrariado, mas às vezes por dentro ele fica até aliviado, adolescente só não dá o braço a torcer.

Ele precisa participar dessa construção dos limites, não adianta só mandar e ele obedecer, até porque ele acaba dando os seus jeitinhos né, quando você perceber ele já pulou a janela e foi para a balada e você nem sabe. Esse trabalho da negociação que não é só pelo limite em si, mas é por essa construção de como a gente pondera, de como a gente toma decisão, quais são os prós e os contras, então o principal legado que a gente passa a eles nesse período é essa capacidade de tomada de decisão.

A psicóloga e psicopedagoga Karin Kenzler

Blog: Esse momento da adolescência também é o da construção da sexualidade, como você sugere que os pais conversem sobre esse assunto com o filho adolescente?

Karin: A gente tem três mudanças na adolescência, que são físicas, psíquicas e a sociais. Essa física é aquela mais fácil da gente identificar, é mais nítido ver se ele está ou não na adolescência porque ele apresenta aquelas mudanças no corpo que a gente observa com facilidade, desde de o estirão, o surgimento dos pelos, o desenvolvimento dos órgãos sexuais, alteração de pele, de cabelo, até o suor que fica com cheiro. Na puberdade eles vão mudando inclusive os gostos, os filmes que aquela criança via um casal se beijando e falava “eca” agora passam a interessar, então aí vão surgindo oportunidades de você ir conversando sobre esse tipo de coisa, o adolescente nunca gosta que você chegue direto e diga “então filho, agora você já é adolescente, eu preciso te explicar algumas coisinhas.”, eles vão fugir desse tipo de conversa, vão falar: “Ai mãe, já sei, nossa, credo, não vou namorar”.

Ele vai tentar evitar esse tipo de diálogo porque acha que é constrangedor, para ele é mais fácil falar sobre isso com colegas de escola, mas a gente pode aproveitar assuntos que surgirem como uma gravidez precoce de alguém próximo, uma que se descobriu trans, enfim, dá pra discutir esses temas falando de outras pessoas porque assim ele se sente menos perseguido, não acha que estão falando dele e se  expõe mais, tira dúvidas.

Blog: E como falar com os adolescentes sobre pornografia? 

Karin: E eles têm muito acesso à informação hoje em dia, a pornografia está aí, com todos esses eletrônicos é fácil eles acessarem e é muito difícil de conseguir controlar isso – e é uma pena quando isso acontece muito cedo porque acaba até sendo meio traumatizante, a criança ainda nem está desenvolvida sexualmente e já tem acesso a coisas que não são nem da sexualidade considerada normal. E esse vídeos geram inseguranças nas crianças, porque os atores de pornô são super bem dotados, as mulheres também, o orgasmo que ali é retratado não reflete muito a realidade e então eles ficam achando que vão ter que ter um desempenho super performático, então é legal às vezes poder falar de algo que você mesmo recebeu, que encaminharam, você sabe que ele vê, mas ele provavelmente vai negar, que não vê, que não gosta, que nunca viu, mas a gente sabe que viu sim, então é importante falar como é exagerado, que não é bem assim que acontece no sexo, então sempre usar oportunidades que surgem e que não vão faltar para abordar esses assuntos. 

Blog: E abrir um canal de comunicação para ele tenha com quem repercutir o que recebeu, né?

Karin: Sim, é muito importante que quando ele surge com uma pergunta assim você se mostre disponível e a vontade para falar porque se ele achar ‘ah, minha mãe não gosta de falar disso’ ele já vai procurar outras fontes para conversar. Então os pais às vezes têm um pouco de medo de falar desse assunto, como se isso fosse sinalizar de alguma forma de sinalizar “vai, já pode ir”;  Mas muito pelo contrário né, a informação faz com que a criança se sinta até mais apta a tomar a decisão de quando ela vai querer e fazer de uma forma mais ajuizada do que a falta de informação, a falta de informação que leva à precocidade, às doenças, à gravidez precoce e indesejada, e não a informação em si. Então se você puxar esse tipo de conversa, você não vai se precipitar, você não vai estar autorizando, é apenas educar para uma sexualidade saudável, a gente não quer filhos eternamente virgens, travados, com receio, e nem que tenham experiencias traumáticas, precoces com as quais eles não saibam lidar com as consequências.

Transcrição e apoio: Lucca Cerf Costa.

Leia mais: Não há escolha certa ou errada quando o assunto é a volta às aulas

Leia também: ‘Não somos mais aquela avó dona Benta, isso ficou no passado’