Cena da série “The Handmaid´s tale”

As mulheres são o alvo principal desse atual governo. Nem bem passaram dois meses de 2019 e já vimos e ouvimos um pouco de tudo. Deputado querendo proibir métodos anticoncepcionais, como o DIU e a pílula do dia seguinte. Ministra dizendo que mulher “nasceu para ser mãe” e que “o sonho” de todas nós é ficar em casa, cuidando dos filhos.  Agora mais essa: enquanto o mundo discute a descriminalização do aborto, o Brasil abre os arquivos empoeirados do seu Legislativo e pinça um projeto já devidamente arquivado ano passado e que pode promover um retrocesso do pouco que já foi conquistado: desde 1940 o aborto é legal para mulheres vítimas de estupro. Hoje também é permitido às mulheres que correm risco de vida ao levar a gravidez adiante ou as que estão gestando um bebê com anencefalia. Mas a Proposta de Emenda à Constituição, PEC, acrescenta uma frase ao artigo 5º da Constituição Federal determinando que todos têm direito à vida “desde a concepção”, ou seja, carregue no ventre o filho de alguém te violou, leve adiante uma gestação que pode significar sua própria morte ou aguente 9 meses para dar à luz um filho que morrerá minutos depois de ter nascido. Todos os tipos de vidas importam, menos a da mulher. Mulher tem que procriar.

Sabe o que é mais desesperador? Os que desarquivaram a PEC nem fizeram isso por “consciência”, mas sim por vingança. Como o STF pautou o julgamento da criminalização de todas as formas de ofensa, homicídios, agressões e discriminações motivadas pela orientação sexual e/ou identidade de gênero depois de o legislativo brasileiro se abster dessa discussão por anos, armou-se essa queda de braço. A bancada evangélica foi ao Supremo nesta terça-feira tentar demover a Suprema Corte da decisão. Por quê? Deputados e senadores conservadores e evangélicos querem continuar discriminando gays, lésbicas, bissexuais e transexuais no país que mais mata essa população no mundo sem sem serem criminalizados por isso? Se a pressão não der certo e o projeto continuar na pauta do Supremo, vingam-se dispondo sobre o corpo das mulheres, aprovando a tal PEC. “Se não pudermos massacrar LGBT´s vamos para cima das mulheres, talkei?”

Mas estamos preocupados com a vida dos bebês! Ora, ora, e a vida das mulheres, vossas excelências? Segundo a OMS, a cada dois dias uma mulher morre no País vítima de aborto clandestino. São mulheres que decidiram não levar uma gravidez adiante e vão, independentemente da sua vontade e de sua crença, procurar formas para interromper essa gestação.  Atenção, spoiler: se tiverem dinheiro no bolso encontrarão clínicas seguras para interromper essa gravidez indesejada. Já as pobres correm risco de vida e, se não morrerem durante o procedimento, podem sofrer sequelas graves, serem denunciadas e até presas. Como homens de Deus super preocupados com a vida humana, aposto que os nobres senadores estão chocados e alarmadíssimos, porque já entenderam que estamos falando de um problema grave de saúde pública. E a vidas dos gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais ou transgêneros também não importam?Grupo Dignidade afirma que, durante o ano de 2017, uma pessoa LGBT morreu a cada 19 horas no Brasil justamente em razão da LGBTfobia. Não, não, essas vidas também não importam.

Essa madrugada estreou na tevê aberta “The Handmaid´s tale – O conto da Aia,  baseado no livro da escritora canadense Margaret Atwood. A série se passa na República de Gilead, uma teonomia cristã militar formada nas fronteiras do que anteriormente eram os Estados Unidos da América. Após um ataque terrorista matar a maioria do Congresso e o presidente dos Estados Unidos, um movimento fundamentalista de reconstrução cristã autointitulado “Filhos de Jacó” dá um golpe de estado e suspende a Constituição do país sob o pretexto de “restaurar a ordem”. Muitas mulheres, que se tornam servas da República, são proibidas de ler, mas são livres para rezar, olha só, seguindo os preceitos do Velho Testamento. Sabe qual a função das aias, propriedades na República de Gilead? Elas podem procriar. E caso não cumpram as expectativas, ou seja, caso não coloquem filhos no mundo, tornam-se “não-mulheres” e, juntamente com as homossexuais, viúvas, adúlteras e feministas, são condenadas a trabalhos forçados. Se quebrarem as regras podem ter o mesmo destino dos criminosos comuns: o fuzilamento e a exposição no “Muro”, onde os mortos servem de exemplos em praça pública a todos os cidadãos. O livro se autointitula “romance distópico”. A série é classificada como “ficção científica”. Provavelmente porque Margaret Atwood e os produtores de “The Handmaid´s Tale” ainda não conhecem o Brasil de 2019.

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