Foto: Erik S. Agência EFE

Ela tem 23 títulos é a maior campeã de Grand Slams. Também é a tenista que mais faturou em premiações na carreira. Coleciona três medalhas de ouro em Olimpíadas. Mas nem com um curriculum desses foi poupada de uma das maiores humilhações que só quem é mãe e saiu de licença-maternidade para cuidar do filho conhece: foi rebaixada assim que retornou ‘ao serviço’, ou melhor, às quadras.

No dia 29 de maio desse ano Serena jogou sua primeira partida em Roland Garros desde o nascimento da filha, Alexys Olympia. Venceu a adversária, mas não o machismo do mercado de trabalho. Quando deixou as competições em abril de 2017 era a número 1 do ranking da WTA, a Women´s Tennis Association. Voltou na posição 451ª. Sim. Ela desabou 450 posições porque ficou um ano e meio fora das quadras, cuidando de sua filha.

“Ah, mas ela voltou cheia de vantagens!”, podem sugerir alguns, já que ao retornar da licença as tenistas têm o direito a disputar oito torneios, entre eles dois Grand Slams. Só que não como cabeça de chave, como Serena teria direito por estar topo do ranking. Foi jogada às feras e enfrentou as tenistas mais fortes e que, claro, não tinham passado o último ano amamentando ou acordando de madrugada para ninar bebê. Perdeu algumas disputas importantes e, machucada, desistiu pela primeira vez de Roland Garros.

Se a vida de mãe de Serena Williams começou difícil, imagine a nossa. Segundo uma pesquisa conduzida pela Fundação Getúlio Vargas que ouviu 250 mil mulheres brasileiras, pelo menos metade das que deram à luz está fora do mercado de trabalho apenas um ano após o nascimento de seus filhos.  A maior parte é demitida sem justa causa, às vezes até antes do fim da licença-maternidade. Mas também existem as que pedem para sair, porque quando voltam ao emprego são vítimas de assédio moral, tendo sua capacidade colocada à prova pela chefia a todo momento ou são retiradas de projetos importantes porque “não são mais as mesmas” desde que tiveram bebê. Os maridos, que são os pais dessas crianças, mantiveram sua vida profissional intacta durante todo esse período, já que se ausentaram pouquíssimos dias durante os primeiros tempos com o bebê e, quando voltaram, ainda foram vistos como mais responsáveis, “agora são pais de família!”

Mas hoje li uma matéria que me encheu de esperança. A Reuters revelou que a campeã do Aberto da Austrália, Caroline Wozniacki, saiu em defesa de Serena Williams – a atual posição da jogadora no ranking da WTA (já é a 181ª!) ainda não permite que ela seja uma das 32 cabeças de chave de Wimbledon. A colega (e adversária) deixou claro o quanto acha isso injusto.  “Ela é a maior jogadora de todos os tempos do esporte. Tendo ganho tantos Grand Slams e sendo a número um por tantos anos, merece ser cabeça de chave”, disse Wozniacki aos repórteres, durante uma entrevista coletiva depois de vencer um jogo no campeonato de Eastbourne. A tenista de 28 anos é a número 2 do mundo mas, ao se posicionar em favor de Serena, mostra que está no topo do ranking da sororidade, posição que ninguém será capaz de lhe tirar. No início do mês, outra mulher saiu em defesa de Serena Williams. Katrina Adams, presidente da Associação de Tênis dos Estados Unidos, revelou que o US Open vai atualizar sua política para levar em consideração as jogadoras que estão retornando às quadras depois de darem à luz seus filhos.  

E você? Já tomou partido de uma colega que acabou de voltar de licença-maternidade e que está sendo injustiçada bem debaixo do seu nariz? Ou aproveitou a fragilidade dessa mulher para subir algumas posições no ‘ranking’ de sua empresa? Mulheres e homens precisam se fazer essas perguntas todos os dias e, dependendo da resposta, sentir vergonha, muita vergonha.

Serena mostra que é resiliente e que sua volta ao topo, apesar das cascas de banana que o mundo joga em seu caminho, pode ser apenas questão de tempo. Hoje ela apresentou Wimbledon à filha bebê e publicou o vídeo em seu Instagram. As imagens também foram compartilhadas na página oficial da competição no Twitter. “Era uma vez uma garotinha que tinha um sonho, jogar em Wimbledon. Seu sonho virou realidade. Seus sonhos também podem virar realidade, filha. Sabe que era essa garotinha? Essa garotinha era a sua mamãe!”, disse à Alexys, feliz no colo da mamãe tenista.

Que a gente consiga não desistir dos nossos sonhos, apesar de o mundo tirar oportunidades importantes das nossas mãos só porque decidimos colocar um filho no mundo. E que encontremos aliados e o apoio necessário durante essa trajetória – do nosso companheiro, da família, do chefe e por que não, também dos nossos adversários, que só têm a ganhar com a gente de volta à disputa. 

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