Prendi o edredom na lateral do corpo do meu filho enquanto cheirava seu cabelo macio e enchia sua testa de beijos. Ele respondeu com um te amo mamain e avisou, com um sorriso maroto, que se tivesse um pesadelo no meio da noite ia pular para minha cama. O beijo de “boa-noite” que damos nas crianças é aquela forma de dizer que aconteça o que acontecer estaremos por perto, pode fechar os olhos e se entregar ao sono, filho.

Mas existem cerca de 2.300 crianças em abrigos nos Estados Unidos (que já sabemos que têm jaulas como as do zoológico) que estão sem carinho, sem banho quente, sem edredom ou beijo de “boa-noite”. Meninas e meninos muito pequenos, incluindo 49 brasileiros que foram retirados do colo de pais e mães que ousaram atravessar uma fronteira de forma ilegal, pensando em oferecer o tal “sonho americano” aos seus filhos. Não houve nem tempo para um abraço apertado de despedida, um “fique calma, a mamãe vai um jeito, não chore, prometa para mim que não vai chorar!” É desesperador quando a gente pensa que podia ser com um filho da gente.

Li uma reportagem que contava que uma mãe chegou a pedir para que os guardas deixassem que ela pelo menos acalmasse o filho que gritava após ter sido arrancado de seu colo à força. Não deixaram. E essa criança que ainda não entende nada de nada nesse mundo vai carregar as marcas desse abandono, que pode durar meses ou anos. Apesar de Donald Trump ter recuado em sua decisão de separar as famílias que cruzam ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos, muitos pais que já foram capturados podem demorar para serem julgados, fazendo com que algumas crianças tenham perdido para sempre seu núcleo familiar.  Em dez ou vinte anos assistiremos às histórias das vítimas desse caos humanitário promovido pelo ilustre presidente dos Estados Unidos nas telas do cinema, pode apostar. E choraremos mais uma vez.

Menina hondurenha de dois anos chorando enquanto sua mãe é detida na cidade de McAllen, no Texas, próxima da fronteira com o México. Foto John Moore/Getty Images

Alguns jornais divulgaram áudios dessas crianças gritando “mamãe” e “papai” de forma inconsolável. Não tive maturidade emocional para ouvir. Mas algumas manchetes que aparecem aqui e ali e me contam que havia meninos e meninas em total descontrole e que alguns guardas fazem troça do choro dessas crianças. Vi uma experiente apresentadora de telejornal se descontrolando ao ler a notícia sobre o afastamento forçado de pais e filhos e chorei junto com ela, não é possível chamar o intervalo comercial e anunciar que no próximo bloco teremos os gols da última rodada da Copa do Mundo.

Donald Trump é uma das figuras mais nefastas que se tem notícia e poucos têm coragem de chamá-lo do que ele realmente é: um ególatra desequilibrado. É uma figura tão imprevisível que faz com que seja difícil até para os analistas arriscar qual o seu próximo passo.  Ele já se indispôs com a China ameaçando a economia global. Tem o péssimo hábito de governar pelo Twitter, demitindo colaboradores, ameaçando inimigos e aliados e, tal qual uma criança da 5a. série, não teve vergonha de dizer para quem quiser ouvir que seu botão nuclear “é maior e mais poderoso” que o do ditador norte-coreano Kim Jong-un. Seria cômico se ele não tivesse o mundo em suas mãos.

Trump não pensa duas vezes antes de maltratar presidentes de nações aliadas importantes, desrespeitar repórteres e promover uma verdadeira caça às bruxas contra jornalistas e jornais.  E quando você pensa que ele não pode ir mais longe, vê que estava enganada: ele não somente promove essa barbárie contra milhares de crianças inocentes como ainda deixa claro que não está nem aí para o que pensam dele quando anuncia a retirada dos Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.  E em um surto quase psicótico pareço ouvir vários brasileiros concordando com ele, dizendo no Twitter que “Direitos Humanos só defendem bandido”. Temos um exemplar de Donald Trump também por aqui, não esqueçam.

Meu filho acorda horas depois e pula para nossa cama, como faz sempre. Eu o aperto forte, como se quisesse protegê-lo desse mundo onde vivemos. Saudade de quando os únicos monstros que aterrorizavam as crianças eram os fictícios Freddy Krugger, Jason e o Brinquedo Assassino.

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