Aprender-amamentar

Quando você é pequena e ganha bonecas elas vêm sempre acompanhadas de mamadeiras. Então as crianças acabam associando que os bebês tomam leite assim, com a ajuda de bicos artificiais. Claro que aquelas crianças que ainda mamam no peito ou que veem uma mulher amamentando com frequência sabem que não é bem assim que a natureza planejou.

Quando uma boneca que mamava no peito foi lançada nos Estados Unidos logo foi alvo de gritaria. Para amamentar, a criança vestia uma camisetinha com mamilos estilizados – duas flores pequeninhas – onde a boneca era colocada para mamar. Dava para ouvir aquele barulhinho delicioso de bebê sugando. A boneca que mostrava a natureza agindo foi classificada por muitos como “bizarra” e “assustadora”, em mais um sinal que há que se desenhar para aqueles que ainda não sabem a diferença entre amamentação e sexo.

Eu mesma nunca tinha pensado em amamentação. Para mim era uma coisa que viria naturalmente depois que meu filho nascesse. Eu colocaria ele no meu peito, o leite desceria e estava tudo certo – o Samuel começaria a mamar. Na sala de parto, instantes depois de o meu filho ter nascido, coloquei-o instintivamente no meu seio. Segundos depois ouvi uma bronca, vinda do médico: “Ele tá fazendo seu peito de chupeta! Não deixe fazer o seu peito de chu-pe-ta!” Pensei: “O quê? Já estou errando logo na largada?” Se estava realmente errado ninguém soube me ensinar o jeito certo. E assim passaram-se os três dias da maternidade. Não sabia se meu leite tinha descido, não sabia se cada vez que levava Samuca ao peito ele realmente tinha conseguido mamar. Às vezes uma enfermeira falava: “Ele tá mamando!” Daí a outra desmentia: “Não, não está!”. Trouxeram-me bico de silicone, mudavam a minha posição na cama e eu ali, passiva, sem saber o que fazer.

Chegamos em casa com o bebê trezentos gramas abaixo do peso com que nasceu e gritando de fome. Eu tinha alugado uma bombinha ainda no hospital que não foi entregue no horário combinado e sim seis horas depois. Por isso a primeira vez que sentamos na cadeira de amamentação de casa eu oferecia o peito e o Samuca berrava, porque estava desde o nascimento sem se alimentar.

Meu marido saiu correndo para comprar uma lata de leite artificial e assim Samuca tomou sua primeira mamadeira –  de um leite que não era o meu. Péssima estreia e a primeira culpa no caderninho de culpas. Com a chegada da bombinha, a vida melhorou para ele e piorou para mim, que acordava de duas em duas horas para tirar leite materno e oferecer na mamadeira. Tinha que ter contratado naquele momento uma profissional para me ajudar. Hoje eu sei disso, naquele momento eu só sentia uma depressão pós parto me rondando e uma vontade enorme que aquilo desse certo ou errado de vez. Dois meses depois, deu errado de vez e o meu leite secou.

A gente é feito das experiências pelas quais passa e essa me marcou: consegui o parto normal, mas não consegui amamentar. Não como gostaria. E volto à pergunta que abriu este post: Quem ensina as mulheres a amamentar? Se o mundo está aí para desinformar, estigmatizar e dificultar cabe a nós buscar ajuda. Quando começar a planejar seu parto, planeje também sua amamentação. É isso o que eu pretendo fazer se tiver mais um filho.