Escola

“Se queremos nossos filhos em boas faculdades, precisamos investir antes dos 3 anos. Deixar para a pré-escola pode ser tarde demais.” Alguns minutos antes de colocar o blog no ar, recebi de um amigo, pai de duas crianças, um texto assustador que começava desse jeito. “Isso é um anúncio de berçário?”, perguntei. E era. “Cada grupo tem só quatro bebês, que ficam integralmente aos cuidados de duas educadoras, que também conduzem todas as atividades, favorecendo a formação do vínculo. Elas têm nível universitário, e cursos exclusivos de formação em Neurociência, Observação de Bebês e Psicologia da Primeira Infância”, prosseguia o texto, que ouvia ainda especialistas gringos para confirmar a teoria de que as crianças têm de sentar nos bancos escolares antes mesmo de aprenderem a sentar.

Fiquei chocada. Será que as pessoas esqueceram que o bebê precisa apenas (e isso não é pouco) de mãe e pai, de família, de tempo e espaço para brincar, e não de um berçário bilíngue?  A entrevista que eu acabara de fazer e estava editando ia exatamente na contramão do anúncio acima. O psicanalista, psicólogo e professor da Universidade de Coimbra, Eduardo Sá, lança no final desse mês seu mais novo livro – “O Ministério das Crianças adverte: Brincar faz bem à saúde!” – uma coletânea de textos e reflexões sobre educação escritas por ele nos últimos 30 anos. Sá conversou com o blog com exclusividade e deixou clara sua visão sobre o papel superestimado dessas instituições de ensino na vida dos nossos filhos e como o brincar é deixado de lado por pais e educadores: “A escola ganhou mais importância do que talvez mereça. E se transformou em uma linha de produção de tecnocratas de sucesso”, decretou.

Blog: Você diz que a escola ganhou mais espaço do que mereceria, esticando-se em horas de exigência e comparou-a com uma linha de produção. Por quê?

Sá: Porque colocam as notas, os rankings escolares e o sucesso educativo à frente da sabedoria, da humanidade e da cidadania, não sendo nem honesta na forma como avaliam nem no modo como classificam os alunos. Porque a escola foi massificando a educação, ao mesmo tempo que deixou de acarinhar a arte e a paixão de ensinar que têm de existir em todos os professores, ignorando que não há duas formas iguais de aprender um mesmo conhecimento.

Escola é um bem precioso, sim. Mas me parece que os pais dão à escola tamanha importância não só porque percebem o quanto ela é fundamental na ascensão social e financeira das gerações mas, sobretudo, porque, enquanto alunos, talvez nunca a tenham levado tão a sério como deviam. E porque hoje vivemos num mundo onde o liberalismo manda e onde os valores do humanismo parecem ter sido sequestrados pela preponderância do dinheiro. Aliás, quanto mais tempo as crianças passam na escola, mais os pais ficam livres dos seus compromissos parentais e mais se dispõem à regras de trabalho que “atropelam” os valores da família, da convivência e de uma vida fora do trabalho que os torne mais cidadãos.

 

Escola (2)

Blog: Muitas crianças entram na escola na educação infantil e só saem da escola no final do ensino médio, depois de passar praticamente toda a infância e parte da adolescência com os mesmos amigos. No livro você se refere a essa escola como a dos “meninos de porcelana.” No seu ponto de vista, isso é ruim? Por quê?

Sá: Claro. É ruim e um pouco absurdo. Em primeiro lugar, porque as crianças são repartidas pelas diversas turmas de uma forma muito pouco aleatória. Seja por critérios sociais, econômicos e outros, mais enigmáticos, que fazem com que as turmas sejam, algumas vezes, um exemplo infeliz da falta de honestidade com que as crianças são educadas para o conhecimento e para as relações. E tal como numa família alargada, os papéis que cada menino vai desempenhando nessa turma se tornam mais ou menos estáticos, a ponto de um ser (oficialmente) o “espertalhão” do grupo; o outro, o “engraçadinho”; um outro, “o tímido”; e por aí fora, como se as “etiquetas” que se associam a cada aluno – seja pelos seus desempenhos escolares como pelo seu comportamento – parecessem tornar-se “defeitos de fábrica” para os quais a escola imagina não coparticipar, a ponto de cada criança conseguir fazer muito pouco para se afastar dessa imagem. É por isso que eu gosto que com a chegada de um novo ano letivo as turmas se embaralhem e se dividam de novo. Porque novas relações e novos professores fazem com que cada mudança se transforme numa oportunidade.

Blog: Você afirma que a escola faz diferença entre o brincar e aprender. Quando e por que esses verbos foram dissociados? Eles são independentes ou têm que caminhar juntos?

Sá: Brincar e aprender têm de caminhar juntos. Até porque aprender é divertido. E brincar com o conhecimento significa desmanchar e reconstruir, confundir e religar. Tocá-lo. Senti-lo. Imaginá-lo. E recriá-lo. A escola parece ter-se tornado uma espécie de “fast food” – enquanto brincar e aprender exigem degustação e “digestões” prolongadas, precisam de tempo. Parece que a escola foi desenvolvendo muitos déficits de atenção, já que ignora a singularidade de cada aluno, imaginando que, se todos devem aprender um conjunto mais ou menos uniforme de conhecimentos, o devem fazer de forma igual. E aqui errou. Ela insiste em não perceber que os alunos adoram ter sucesso e que, quando o não têm (em alguma área do conhecimento, por exemplo), isso não significa que não sejam capazes mas, antes, que os métodos que tentam adequar a eles e a forma como as suas dificuldades são compreendidas não são inteligentes.

Foto: Pixabay

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Blog: Em um dos capítulos você diz que a escola tem que se reabrir para a vida, para o mundo e para o futuro. Na sua opinião a escola se fechou? Por quê?

Sá: A escola se fechou, sim. Porque continua a ignorar que as crianças são sábias. E que, quando chegam à escola, já tiveram inúmeras fontes de conhecimento que ela ignora, não escuta e não liga com aquilo que lhes ensina. E se fecha quando insiste em dividir a teoria da prática, separando o conhecimento em disciplinas, sem que o liguem e o articulem e sem lhe dar uma dimensão útil, instrumental e prática. Fecha-se quando privilegia a memória, a capacidade de repetir e de reproduzir ao recriar. Fecha-se quando desconsidera o mundo e não o articula, todos os dias, com aquilo que ensina. E fecha-se quando não acarinha a experiência e não traz para dentro de si as pessoas que dão cor, movimento e sentido aquilo que se ensina.

Blog: Em vez de tecnocratas, a escola tem que “fabricar” o quê?

Sá: Pessoas! Pessoas que escutem com o coração. Pessoas que pensem! Pessoas que sonhem e ousem transformar sonhos em conquistas. Pessoas que não fujam de errar e façam de cada erro uma oportunidade para aprender. Pessoas com história. Que desejem, que ambicionem e que nunca desistam de evoluir e de transformar o mundo.

Blog: Quais atividades dessas escolas “estreladas” e que “fabricam tecnocratas” deveriam ser deixadas para trás, na sua opinião, e por quais você substituiria?

Sá: Talvez não devam deixar para trás atividades. Mas devem repensar, profundamente, a forma como as gerem e o modo como as ensinam. Não é por terem mais tempo de uma determinada disciplina que as crianças, globalmente, aprendem melhor. Mas uma escola preocupada com a paixão de aprender deve ter menos tempos de aulas e mais tempo de recreio. Mais seriedade na forma como se leva por diante a educação física e os esportes. Mais formação musical. Mais educação visual. Mais teatro e mais artes. Menos trabalhos de casa. Mais relação íntima e parceira entre pais e professores. Mais abertura ao meio onde se insere. Mais mundo. E mais compromissos cívicos.

 

Eduardo Sá

O professor da Universidade de Coimbra Eduardo Sá lança esse mês no Brasil: “O Ministério das Crianças adverte: Brincar faz bem às crianças”.

Blog:  Muitos pais escolhem a escola para seus filhos de olho em rankings. Estar bem neles significa que a escola é a melhor? Qual seria a escola ideal?

Sá: Claro que não. Começando pelo princípio, há boas escolas e más escolas, não sendo verdade que o ensino público e o ensino privado tenham o exclusivo de umas ou outras. No entanto, a forma como se organizam os rankings não é leal. Será razoável comparar escolas públicas, daquelas que incluem todos os meninos, com algumas escolas que os selecionam pelas notas, pela classe social, pela raça ou pelo poder financeiro? Será justo comparar escolas do interior, sem condições, com escolas do litoral e dos grandes centros? Será um bom exemplo comparar escolas que vivem todas as disciplinas e todas as áreas de estudo com a mesma seriedade e apostam em todos os meninos da mesma forma com escolas que não olham a meios para atingir os seus fins? Será sensato comparar escolas honestas, na forma como ensinam e como avaliam, com escolas desonestas?

Por tudo isto, os rankings, em vez de representarem indicadores fiáveis têm vindo a ser manipulados ao serviço de estratégias de marketing onde nem as escolas cristãs, por exemplo, têm escapado. No entanto, se queremos dar todo esse protagonismo aos rankings, não deveríamos criar um ranking dos recreios e dos espaços escolares, já que muitas escolas não têm recreios onde se possa brincar e nem dispõem de espaços com condições indispensáveis para que as crianças convivam, em segurança e livremente, umas com as outras? E se criarmos um ranking para os alunos faladores, que são quem mais interpela os professores e mais os faz crescer? E que tal criar um ranking para os alunos que ousam errar, e que, muitas vezes em condições terríveis, conquistam os professores e se recuperam, contra as expectativas de todos? E não deveríamos criar um ranking de escolas amigas das crianças, àquelas que tomam em consideração os seus direitos e os respeitam?

Capa

“O Ministério das Crianças adverte: Brincar faz bem à Saúde” chega às livrarias no final desse mês pela Editora Casa da Palavra.

Ninguém, de bom senso, quer uma escola ideal. Mas uma escola amiga das crianças será uma escola que ensina e educa; que incentiva a cooperação; que acarinha os tempos e os espaços de recreio e de brincar; que liga corpo, cabeça e alma; que educa para a sensibilidade, para a simbolização, para palavra e para a ciência; que aprofunda a liberdade de expressão; e que discute o mundo e constrói cidadãos. Uma escola assim percebe que cada criança é “um edição exclusiva”. E toma o espaço e as relações escolares como reserva (eterna) do futuro.

 

Blog: Como, na sua opinião, os pais deveriam escolher a escola para seus filhos? Eles têm de ser ouvidos ou é uma decisão técnica?

Sá: Por mais que as crianças tenham opinião, não é razoável que a escolha de uma escola penda para elas. Escutar as crianças ou ponderar acerca das reservas que possam ter, não pode significar que elas “mandem no jogo”. Mas, “na proteção de seus interesses”, vamos negligenciando e maltratando essas crianças, unicamente “para o seu bem”. O que deve estar em primeiro lugar como fator de ponderação para escolher uma escola? O professor ou os professores a quem se confia um filho. E em segundo lugar? A honestidade do projeto educativo. E em terceiro? O recreio, a formação cultural e a educação cívica, lado a lado. E em quarto lugar? O espaço da escola. Os pais podem enganar-se com a escolha de uma escola? Podem. Mas não decidir para não errar é o pior dos exemplos que muitos pais vão dando, todos os dias. Até porque há mudanças que, ao não se darem, podem vir a comprometer, de forma irreparável, a relação com a escola por muitos, muitos anos. Seja como for, há sempre uma relação de “custo/benefício” em cada mudança de escola. Logo, se os benefícios que se imaginam superarem os custos que se estima que ela possa trazer, não se deve adiar essa escolha.

Blog: Como perceber que a escola escolhida não foi a melhor para seu filho? Como ter certeza de que se acertou?

Sá: Se ele se encantar quando fala do professor ou se os seus olhos ganham luz quando conversa sobre a escola, muito provavelmente acertaram na escolha.

O livro de Eduardo Sá, “”O Ministério das Crianças adverte: Brincar faz bem à saúde!” chegará às livrarias brasileiras no final desse mês.

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