Quando estava no final da gestação do filho mais velho, Miguel, hoje com 6 anos, a então advogada Elisama Santos, 33, viu uma mãe batendo no filho no corredor do supermercado. “Eu olhei nos olhos dessa criança e toda a minha infância veio à minha mente”, conta. “Eu senti tanta dor e chorei lá mesmo. Nesse momento eu decidi que ia educar meu filho sem bater, mesmo sem noção do nível de dificuldade que isso ia ter”, completa. Elisama largou o Direito e começou a estudar sobre infância. É formanda em psicanálise clínica. Também é educadora parental certificada pelo ‘Positive Discipline Institute’ e facilitadora em comunicação não violenta. Tem três livros publicados: o mais recente, “Educação não violenta: como estimular autoestima, autonomia, autodisciplina e resiliência em você e nas crianças”, da Editora Paz & Terra, está em pré-venda e já é o número um na seção “Paternidade e Relacionamentos” da Amazon. Elisama reconhece que os pais estão sempre tentando fazer o melhor para os filhos. “Nenhum de nós acorda pensando, ‘hoje eu vou acabar com a cabeça dessa criança para que ela tenha que fazer terapia até o dia em que ela morrer’. Só que a gente precisa tomar consciência é que esse ‘melhor’ pode melhorar ainda mais, pode mudar”.

Blog: O que a gente encontra no livro?

Elisama: Eu juntei histórias de tudo o que eu já ouvi em atendimentos e tudo o que eu aprendi nos cursos que eu fiz para o meu desenvolvimento pessoal e desenvolvimento das crianças. Eu quero mostrar que existe uma forma de a gente educar respeitando a criança da forma que ela é. Uma educação que fala “não chora porque seus amiguinhos estão todos olhando você chorando”  mostra o quê? Que não importa o que a criança está sentindo, o que importa é o que os outros estão pensando.

Blog: É uma preocupação que a criança vai levar para vida.

Elisama: Para a vida! Hoje a gente enxerga o choro como uma doença. Tem família que fica desesperada quando a criança chora. A gente não pode chorar, a gente prende o choro, “engole o choro!”. E a gente esquece que o choro é como fazer xixi e cocô, beber água, comer. Ele é uma necessidade do nosso corpo, essencial para a nossa saúde física e mental.

Blog: Os pais querem educar de uma forma diferente da forma que foram educados na infância?

Elisama: Sim. Eu já conversei com milhares de pais. Ninguém quer viver dentro de casa gritando com o filho, batendo no filho, perdendo a paciência com o filho. A gente quer viver harmonicamente.

Blog: Quando a gente em fazer diferente isso mostra que nossa geração e as gerações passadas foram educadas de forma violenta?

Elisama: Existem as raríssimas exceções. A maioria de nós conhece o “se você não parar de chorar eu vou te dar um motivo de verdade parar de chorar” o “eu sou sua mãe, eu que mando e você não tem que querer”. Nós fomos violentados de diversas formas na nossa educação. É bem importante, Rita, falar que não existe um pai ou uma mãe que acorde pensando “hoje eu vou ser extremamente violento com o meu filho.” A gente sempre está tentando fazer o melhor. Os nossos pais fizeram o melhor que eles puderam, com as ferramentas que eles tinham. E nós estamos, todos os dias, fazendo o melhor que a gente pode, com as ferramentas que a gente tem. O que a gente precisa tomar consciência é que esse melhor, ele pode melhorar, pode mudar.

Blog: Muita gente defende a violência porque tem em mente que “deu certo, comigo, então também vou educar assim”.

Elisama: Muita gente diz “eu apanhei e deu tudo certo”. Mas o que é “dar certo”? Como você se relaciona com as suas dores? E com as pessoas ao seu redor? Como você se relaciona com você mesmo quando você erra? Porque a educação que a gente teve nos mostrava que errar nos fazia menos merecedor de amor e de respeito. Errar faz parte da vida e é importante que seu filho saiba disso.

Blog: Antigamente os pais também não podiam também mostrar a fragilidade para os filhos.

Elisama: Os pais sabiam tudo, estavam num pedestal, não erravam. Tudo era culpa das crianças, responsabilidade das crianças. A gente ouvia “você apanhou mas está doendo mais em mim!”. Era um lugar de quem sabe tudo, de quem tem consciência e certeza de todas as coisas que faz, sendo que a vida é cheia de dúvidas. Ocupar esse lugar de quem tem que dizer pro filho quem ele é, como ele deve falar, como ele deve agir. A gente mal consegue dar conta de toda a nossa carga emocional. Aquela ilusão que a gente tinha de que a criança é “um livro em branco” que o pai e a mãe vão escrever é algo surreal. Nossos filhos nascem cheios de história. Você tem que olhar o seu filho e ver quanta oportunidade ele te dá para você crescer, desenvolver um monte de coisa dentro de você.

Blog: Quais são os principais erros da educação tradicional, na sua opinião?

Elisama: Rotular o filho. Você rotula ele, bota ele no ‘potinho’ e diz que ele é uma coisa só. Ele é “chato”, ou ele é “desobediente”, “bravo”, ou “calado”. Assim você não deixa a criança alcançar todo o potencial que ela pode ter. Freud mesmo dizia que a gente passa o resto da vida lidando com as dores causadas na infância. A vida inteira para consertar o que a gente aprendeu na infância. Teu filho erra e você dá um grito, “não prestou atenção!”, “não toma cuidado!”. Então a gente aprende que erro e perfeição é só uma questão de atenção e cuidado. Então você concluiu que não é perfeito porque não prestou atenção o suficiente ou tomou cuidado suficiente. “Eu não sou perfeita porque eu sou ruim.” Não, não somos perfeitos porque somos humanos.

Blog: Como fazer diferente? Você acha que educação é uma troca entre pais e filhos?

Elisama: Eu acho que a gente não precisa se mostrar frágil, mas sim vulnerável, são coisas diferentes. Não tem problema nenhum em olhar pro meu filho em determinado momento e falar “filho, nesse momento eu não tenho condições de conversar com você”. Eu sempre falo para os pais, olha, o dia que você perdeu a cabeça e gritou com o seu filho, fez tudo completamente contrário ao que você acredita é também um dia de aprendizado para ele. Um dia que seu filho percebe que você é humano, que você tem um limite, que às vezes ultrapassa, é o dia que ele também percebe que você erra. Quando eu acolho o meu erro, a minha humanidade, eu ensino o que meu filho a acolher o dele.

Blog: Como as crianças aprendem com a gente? Adianta sentá-las no sofá e dizer como é o mundo ou elas aprendem nos observando, diariamente, na convivência?

Elisama: É uma troca diária. O seu filho aprende a lidar com os erros quando ele erra e em vez de você gritar com ele você fala: “O leite derramou? Pegue aqui o paninho para você limpar, tá?”. Sem falar que ele é “desastrado, um imbecil o que não presta atenção em nada”. Nesse momento ele está aprendendo a lidar com o erro dele de uma forma amorosa, de uma forma que a maioria da gente não faz. A maioria de nós quando erra, a gente diz para a gente mesmo, “nossa, eu sou muito desastrada”, “mas eu só faço besteira”, “eu não tenho jeito!”.

Blog: Você deve ouvir pais reclamando, “nossa, meu filho é tão mal-educado”. O que é uma criança mal-educada, existe isso?

Elisama:  Primeiro a gente precisa entender o que é um mau comportamento, porque várias das coisas que a gente considera “mau comportamento” faz parte do desenvolvimento de uma criança saudável. Muitas vezes a gente coloca na criança a expectativa de algo que ela é incapaz – fisicamente, biologicamente, psicologicamente – de atender. “Ah, minha filha chora e se joga no chão.” Isso as crianças de dois anos fazem. Crianças de quatro anos têm uma tendência a oposição. Adolescentes têm uma tendência de se afastarem dos pais. Entender isso não quer dizer, “ok, vou fingir que não estou vendo”. Não, quer dizer que isso faz parte da vida, isso faz parte do desenvolvimento e eu preciso aprender a lidar com isso e ensinar o meu filho a lidar com isso. Aceitação não pode ser confundida com comodismo, aceitar é parar de brigar, é parar de achar que esse comportamento do meu filho não deveria existir.

Blog: A gente faz o quê para ensinar para a criança que certos lugares demandam certos tipos de comportamento?

Elisama: A primeira coisa é lembrar que a responsabilidade de ensinar a criança a se comportar em alguns lugares da forma socialmente aceitável é nossa. Isso não vai partir sozinho da criança. Na minha casa a gente sai e se, por exemplo, vai comer em um restaurante que demora, meus filhos levam cadernos e canetinhas para o restaurante. E se por acaso eu sair sem planejamento nenhum eu vou brincar com eles enquanto o nosso prato não chega. Eles precisam de ajuda para esperar. E antes de sair é sempre importante você falar para a criança onde você vai e que comportamento que você espera dela. Nós temos a tendência de pegar os nossos filhos, arrumá-los, colocar no carro e sair. Eles nem sabem pra onde vão. Eu preciso preparar minha criança antes, conversar, perguntar se ela quer levar um brinquedo, dizer como que eu espero que ela se comporte. A gente quer que a criança saiba o que fazer sozinha. Criança precisa de previsibilidade, porque previsibilidade acalma, dá segurança. Se eu não ajudo meu filho a lidar com os sentimentos dele, ele não vai aprender sozinho.

Blog: Qual o efeito da educação de antigamente, que não levava em conta os sentimentos das crianças?

Elisama: A nossa educação nos transformou em craques em maquiar sentimentos. Nós sabemos fingir que os sentimentos não existem. “Forte” é quem finge que não sente. E todos os comportamentos das crianças estão diretamente conectados a um sentimento. Se eu não ensino meu filho a lidar com o que sente, eu dificilmente estou lidando com o que causa o mau comportamento, porque tem sempre tem algo por trás, assim como no comportamento dos adultos. Se eu estou numa fase que eu estou numa conexão mínima com o meu filho, ele não vai chegar pra mim e falar “minha mãe, estou sentindo falta da sua atenção e do seu abraço, preciso que você esteja mais próxima de mim”. Não. Ele vai te falar isso riscando as suas coisas, fazendo o que você pediu para ele não fazer, gritando com você, porque ele não sabe entender o que está acontecendo dentro dele.

Blog: E se você bate nessa criança nesse momento, qual mensagem você está passando para ela?

Elisama: Que o sentimento dela é errado, que ela não deveria sentir o que está sentindo, o que é um absurdo, porque ninguém controla sentimento, mas a gente escolhe o comportamento que vamos ter diante daquele sentimento. Ao bater, nós acrescentamos camada de dor no que já era dolorido. Se o meu filho meu deu um tapa, por exemplo, eu vou olhar para ele e dizer “filho, eu entendo que você está muito bravo, mas em nossa casa, ninguém bate em ninguém”, ou seja, o seu sentimento é aceito, o teu comportamento não. O segundo mal enorme de quando você bate em uma criança você mistura dois conceitos que nunca deveriam andar juntos: amor e violência. Nunca. Não é à toa que tanta gente se relaciona de maneira abusiva com tantas pessoas, de se olhar para uma pessoa que está sendo completamente abusiva com você e decretar: “mas ele me ama!” A gente aprendeu isso na infância ao ouvir nossos pais dizerem “eu bati porque eu te amo”. Não é um discurso difícil de você levar para a sua vida adulta. E um terceiro ponto é que a criança depende de você para absolutamente tudo, então ela não vai te odiar ao apanhar, racionalmente ela não vai te odiar, mas ela vai odiar quem ela é. E isso é tão sofrido, é algo que você nunca deveria sofrer na vida, é você crescer achando que você é insuficiente, que você é ruim.

Blog: Quais são as outras consequências de bater em uma criança?

Elisama: Você mina a relação dela com ela mesma, com você e com o mundo. E tem uma outra questão que é a mentira. A violência estimula a mentira. Porque a criança não entende que ela apanhou porque ela errou, mas sim porque os pais descobriram o que ela fez. Então da próxima vez eu vou me esforçar mais um pouquinho para que meus pais não descubram que eu fiz isso. Os efeitos ruins da educação baseada na punição são imensos.

Blog: E por que você acha que as pessoas ainda acreditam tanto na violência como forma de educação?

Elisama: Porque dói olhar para a própria infância. Ao aceitar que existe uma outra forma de educar, que eu posso educar sem palmada, que palmadas doem de verdade na alma da gente, você está lidando com feridas muito profundas suas. Educar de uma maneira não violenta é uma jornada de autoconhecimento e, meu amor, como dói se conhecer. E quando eu olho pro meu passado e concluo, “nossa, aquilo que meu pai falou para mim doeu”, isso desestrutura muita coisa da minha cabeça. Nós fazemos piada do que a gente apanhou na infância! A gente conta das surras rindo!

Blog: Outros também comentam que se a gente não bater nos filhos, a vida vai se encarregar de bater neles.

Elisama: A vida vai bater no meu filho sim, isso é fato, porque a vida bate mesmo na gente. Viver dói e essa é uma das coisas que a gente tem que ensinar para uma criança. As pessoas pensam que educar de maneira não violenta a criança vai bater em um lado do seu rosto e você vai sorrir e mostrar o outro. Eu quero ensinar meu filho a lidar com todos os tipos de sentimentos, inclusive os sentimentos dolorosos. Se meu filho me pedir algo e eu digo a ele que não, “não posso dar o que você quer” e ele chorar, em vez de dar um tapa nele e gritar “cala a boca, para de escândalo!” eu posso dizer que entendo que ele está frustrado com algo que ele queria muito, que frustração dói, e oferecer um abraço. Quando a vida bater nele aos 30, ele vai saber que ligar para alguém e pedir um abraço ajuda a lidar com a frustração.

Quando a gente ensina uma criança a lidar com toda a complexidade dos sentimentos dela, quando a vida bater nela no futuro – e a vida vai fazer isso – ela vai saber lidar com essas dores. E isso é algo que uma surra nunca vai fazer. Muitos dizem que isso faz com que a criança fique mal acostumada. Eu acho ótimo. Tudo o que eu quero é que meu filho se acostume a ser bem tratado e não aceite nada menos que isso na vida. Porque assim estamos preparando nossos filhos a enxergar de longe relacionamentos abusivos e falar “opa, isso aqui não é pra mim não!”. A partir do momento em que eu ensino meu filho ou minha filha a estabelecerem os limites deles com respeito, eu ensino a eles a não engolir sapo para ser agradável ou por medo de ser deixado pelos outros. Eu ensino a eles a saber que merecem mais da vida.

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