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O terrível 2020 se despediu, 2021 deu o ar da graça, mas ainda não está claro como e quando as crianças e os adolescentes brasileiros poderão retornar às escolas, mesmo depois de já terem passado quase dez meses afastados das salas de aula por causa da pandemia do coronavírus. O cenário é catastrófico. Os estudantes das escolas públicas foram os que mais sofreram pela falta de conexão à internet e meios para poder acompanhar as aulas online, e o perigo de um aumento na evasão escolar entre esse grupo é real – esses jovens estão cada vez mais longe dos livros, dos cadernos e de qualquer tipo de motivação para prosseguir. Os filhos da escola particular também padeceram, claro. Mesmo tendo, em tese, internet mais rápida e acesso mais facilitado a tabletes ou computadores, as crianças e os adolescentes estão solitários, deprimidos, com saudades da vida de antes – e também sem perspectivas.

Parece fora do tom reclamar da ausência de um plano educacional ou de um conjunto mínimo de procedimentos para esse ano letivo quando ainda estamos lutando pela liberação de vacinas, pela compra de agulhas e implorando por um plano de vacinação mais bem-estruturado. Mas essa discussão está completamente fora da pauta, e com a anuência de grande parte da sociedade brasileira e do Ministério da Educação, que lavou as mãos e jogou no colo de estados e municípios todas decisões sobre um assunto tão complexo. Enquanto qualquer tentativa de fechamento de comércio, academia, bares e restaurantes gera revolta na opinião pública, a possibilidade que crianças e adolescentes possam ficar mais seis meses (ou até mais um ano!) fora das escolas é aceita passivamente, com um silêncio ensurdecedor.

Com a segunda onda de contaminações pelo Sars-Cov 2 assustando todo o mundo, inclusive os países que já começaram a vacinar e já tinham até reaberto as escolas, como o Reino Unido, por exemplo, parece que o mais natural e seguro é manter ‘tudo como está’, com crianças e jovens longe dos banco escolares ‘até tudo isso passar’. Mas, não. Não dá mais. Olhe ao redor. O que está acontecendo é de enlouquecer.

As menorzinhas, de um e dois anos, mal conhecem outras crianças. Uma amiga contou esses dias que o filho viu um outro bebê e estranhou, porque só conhece o pai, a mãe e a moça do posto de saúde que aplica vacina. Depois vi o vídeo da filha única de uma colega jornalista brincando na sala de casa, sozinha. Ela, que tinha entrado na creche um mês antes do início da pandemia e já interagido com outras crianças,  inventava conflitos e usava vozes diferentes para os amigos imaginários que participavam com ela daquela brincadeira. A filha da minha comadre estava aprendendo a ler e escrever e o processo de conhecer os sons, letras e palavras foi interrompido de forma abrupta, e tem sido difícil manter essa trajetória tão bonita no formato online, sem uma professora ajudando a pegar no lápis, segurando na sua mão. Daria para passar um dia inteiro aqui elencando as pequenas e grandes tragédias enfrentadas por cada uma das faixas etárias que esta longe da escola e dos amigos durante essa pandemia. É desolador.

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Claro que os mais jovens não são os únicos que estão sofrendo, basta abrir um pouco nossa grande angular para enxergar melhor. Pais e mães vivem dilemas diários porque tiveram de voltar ao trabalho e não têm com quem deixar seus filhos. As mulheres, sempre a parte mais frágil dessa cadeia, estão perdendo seus empregos ou sendo impedidas de encontrar trabalho, já que é sobre elas que recai a maior parte da responsabilidade com as crianças, a casa e os idosos, que também têm precisado de cuidados extras. Os resultados disso já puderam ser mensurados: no segundo trimestre de 2020, a participação feminina no mercado de trabalho alcançou o patamar mais baixo dos últimos 30 anos, segundo dados do IBGE:  elas são apenas 46,3%. Desde 1991 a participação das mulheres na força de trabalho não era menor que 50%.

Muitas famílias com crianças e adolescentes perderam renda. Uma segunda rodada de uma pesquisa feita pelo Unicef e pelo Ibope Inteligência sobre os impactos primários e secundários da Covid-19 apontou que a insegurança alimentar está aumentando, fazendo com que em muitas famílias, principalmente as de baixa renda, pelo menos alguém deixe de comer por falta de dinheiro. Isso mesmo. É a volta da fome. Há crianças, adolescentes e adultos passando fome. Entre as famílias que recebem até um salário mínimo, 42% deixaram de ter acesso à merenda escolar na pandemia, algo fundamental para garantir pelo menos uma refeição entre as crianças das famílias em situação de maior vulnerabilidade. A escola também era sinônimo de barriguinha cheia.

A solução colocada à mesa é a volta das aulas presenciais. Os professores têm sido pressionados a topar esse retorno sob o argumento de que as crianças geralmente enfrentam casos mais leves de coronavírus ou são assintomáticas (embora sejam transmissoras do Sars-Cov 2 em ambos os casos), segundo as pesquisas científicas. Mas eles não são crianças. Os educadores são adultos, que muitas vezes moram com pais idosos e têm comorbidades como hipertensão, diabetes e obesidade que, comprovadamente, aumentam o risco de casos graves do coronavírus. Não existe escola sem professor. E não existe ambiente totalmente seguro para eles se não houver vacinação. O nosso plano de imunização não coloca os educadores na lista de prioridades, e nós estamos em silêncio no que diz respeito a isso. Também estamos calados em relação a uma série de absurdos que tem acontecido nos últimos tempos.

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