Mãe e bb

 

 

 

 

 

“Amo minhas filhas, mas só o amor delas não me faz feliz”, confessou uma amiga próxima, meio que envergonhada ao verbalizar algo que pode ser julgado como horroroso ou insensível pelo senso comum ou pela família, amigos e comentaristas seriais de vida alheia.

Mas ficar com as meninas o dia inteiro, pulando cedo da cama, trocando fraldas, limpando o chão, fazendo comida, lavando, passando, guardando roupas e apartando brigas, tornou-se algo frustante para ela que, antes de amar as filhas e a maternidade, também amava a rotina do escritório, as reuniões, os prazos, os projetos. “Eu sinto que o dia passa e eu não realizei nada”, disse, triste, enquanto pegava os brinquedos das meninas espalhados pelo caminho.

É óbvio que ela sabe que criar dois seres humanos para serem pessoas decentes é um trabalho incrível e lembrá-la seria apenas fazer com que sentisse ainda mais culpada. Dividida, mas com o coração pendendo para a carreira, acha que não é certo abrir mão da convivência com as pequenas, que é “uma privilegiada por poder ficar com elas em casa”. Mas, enquanto enumera os motivos que a impedem de mudar tudo de novo, tem o olhar baixo, como se tentasse sentir as coisas de outra forma. “Essa fase em que as meninas estão passa rápido demais, tenho que aproveitar”, resigna-se.

Não existe pressão maior na vida do que quando os verbos “ter” e “aproveitar” se juntam. Eles são inimigos, um indica posse e obrigação e o outro, prazer. Você nunca vai aproveitar nada se for obrigada a aproveitar, fingindo que não está sentindo o que sente, forjando um sorriso no rosto quando alguém diz que você é sortuda (embora não se sinta assim), “não percebe a vida maravilhosa que você tem, hein” Hein? Hein?

Sim, ela ama as filhas. São duas meninas lindas, inteligentes, amorosas e interessantes. Foi ela quem escolheu deixar o trabalho de lado para ser mãe em tempo integral – movida por esse sentimento, aliás. Mas, arrependeu-se. Porque também ama trabalhar. O trabalho a realiza e a completa de um jeito que a maternidade não conseguiu. Mas como dizer isso ao mundo, lugar que só aceita declarações de amor incondicionais à maternidade? ‘Opa, não é tão legal assim, gente, não me sinto tão completa assim, amo minhas filhas mas também amo muito minha profissão, não quero mais ser mãe em tempo integral!’

A questão é que esse arrependimento, ao contrário de todos os outros que colecionamos na vida, é visto como imperdoável, quase uma falha de caráter. Você pode se arrepender de quase tudo – a galera vai te perdoar. Mas não, não se arrependa de ter largado o trabalho para ficar com os filhos, “que tipo de mãe você é?”

Falei para ela que voltasse ao escritório, ué, os filhos não são cuidados apenas pela mãe. Podem passar um tempo com ela, com o pai, avós, na escola. As crianças são felizes quando veem que estamos numa boa. E é um ensinamento legal perceberem que a gente não trabalha apenas para ganhar dinheiro e, sim, porque trabalhar pode ser uma das coisas mais legais do mundo. Tão legal quanto ser mãe. Tão legal quanto todas as outras coisas. Não precisamos escolher ser ou fazer uma coisa só.

 

Leia mais: Toda mãe deveria fazer uma ressonância médica por semana 

Leia também: ‘Estamos criando uma geração de alienados’, afirma psicólogo do HC