O obstetra Bráulio Zorzella durante o atendimento a um parto

A gestação de Sabrina Sato alimentou as páginas de celebridades, as redes sociais e o próprio programa da apresentadora nos últimos meses, ou seja, nada mais natural que rolasse uma expectativa coletiva pelo nascimento da filha dela, Zoe, aguardado para o final do mês de novembro. No último dia 21, quando completou 40 semanas de gestação, Sabrina postou uma foto em seu Instagram pedindo para que a filha viesse “no tempo dela”. Os dias passaram e os comentários (mais de 8 mil!) refletiram aquela histeria que sempre surge ao redor de uma grávida quando a data prevista para o parto, a famosa DPP, chega, mas o bebê não nasce.

“Cadê a Zoe?”, perguntavam alguns dos 16,6 milhões de seguidores de Sabrina no Instagram.“Sabrina, você fez a conta errada!” Se o seu bebê nasceu depois das tais 40 semanas, você sabe bem o significado das palavra cobrança. E também da expressão mau agouro. “O risco é o bebê eliminar mecônio e dar problema!”, sentenciou uma fã cheia de boas intenções, daquelas que o inferno está cheio. Claro que muitos fãs pediam calma, o que seria da gente sem o povo ‘do deixa disso’? “Minha filha nasceu de 41 semanas e 2 dias, foi um parto rápido e abençoado!”, explicou uma fã. “40 semanas não é muito tempo. É abaixo da gestação completa, na verdade, que são 42 semanas“, explicou outra, tendo como alvo os seguidores mais afoitos.

Zoe nasceu dia 29 após uma cesariana, um dia depois depois de Sabrina anunciar nas redes sociais que ‘a bolsa’ tinha estourado. As manchetes dos portais logo estamparam a notícia de que a apresentadora deu à luz sua filha “após ficar 24 horas em trabalho de parto”, o que é um equívoco, segundo o obstetra Bráulio Zorzella, um dos médicos brasileiros humanizados com maior índice de partos normais no currículo. Bráulio assistiu a 100 partos esse ano – 90 normais e apenas 10 cesáreas. “O trabalho de parto não começa quando a bolsa estoura”, explica. “Você pode ficar dias com a bolsa rota e mesmo assim ainda não estar em trabalho de parto”, completa.

Blog: Quando o trabalho de parto começa efetivamente?

Bráulio: A bolsa pode romper durante os pródomos, na fase latente, na fase expulsiva ou nem romper e o bebê nascer com a bolsa íntegra, que vai ser rompida ‘do lado de fora’. O que determina que a mulher está em trabalho de parto não é a ruptura da bolsa, mas sim o padrão das contrações, essa que é a parte fundamental da história. A expressão ‘trabalho de parto’ significa trabalho uterino, ou seja, contrações uterinas. Se a bolsa romper e a grávida não tiver contração nenhuma o que podemos dizer é que a gestante tem a bolsa rota, mas não está em trabalho de parto. Agora, se ela tiver contrações ritmadas e ainda tiver a bolsa íntegra, ela está em trabalho de parto. Quando a bolsa rompe e o parto não está na fase ativa e nem no expulsivo, como foi o caso da Sabrina, a mulher não tem de necessariamente ir para o hospital.

 

“Venha no seu tempo”, declarou Sabrina ao revelar nas redes sociais que tinha chegado à 40ª semana de gravidez

Blog: E o que fazer quando isso acontece?

Bráulio: Depende do plano de parto de cada mulher. A gente sabe que existem três tipos de atendimento no Brasil: o do SUS, onde a mulher dá à luz com o plantonista, o do convênio, também no esquema de plantão, e o atendimento particular, que são equipes externas ao plantão que vão ao hospital atender essa gestante. Quando você tem acesso a uma equipe que te avalia em casa é muito mais tranquilo. Quando a mulher está com a bolsa rota, fora do trabalho de parto e até mesmo no início do parto e ela vai dar à luz no plantão, não tem a quem avisar, ela tem de ir à maternidade. Mas se a gestação estava caminhando bem, a grávida fez pré-natal e não teve pressão alta e nem diabetes gestacional, o ideal é esperar um tempo em casa.  Por quê? De acordo com as estatísticas mais recentes sobre o assunto, 70% das mulheres entram em trabalho de parto nas primeiras 24 horas depois dessa ruptura de bolsa. Então, se esperar em casa, elas têm grandes chances de entrar espontaneamente em trabalho de parto sem precisar fazer nada. Se esperar 48 horas são 85% por cento de chances de o trabalho de parto ‘engrenar’ naturalmente, se esperar 72 horas depois da rotura da bolsa 95% por cento das gestantes começam a ter contrações. Dá para esperar até 96hs, ou seja, 4 dias, com segurança. Existe o mito que sem líquido amniótico vai faltar oxigênio para o bebê. Mas o bebê não respira no líquido, ele respira pelo cordão umbilical.

Blog: E se mesmo assim o trabalho de parto não engrenar?

Bráulio: A recomendação para bolsa rota fora do trabalho de parto é a indução do parto por métodos farmacológicos, sendo que a gente pode esperar pelo menos 24 horas para observar o que está acontecendo e a partir de 24 horas induzir o parto. A maioria dos hospitais de São Paulo prescreve antibiótico para prevenir infecção depois de 18 horas que a bolsa rompeu. Em alguns outros países, que seguem outras linhas, não há prescrição dessa medicação. E essa recomendação de esperar antes de induzir é da OMS (Organização Mundial da Saúde). Só que aqui no Brasil cada hospital decide o próprio protocolo e muitas vezes não abre mão dele. Na Pro Matre, onde a Sabrina teve bebê, eles não incentivam o parto normal. (Nota da maternidade Pro Matre publicada no final dessa reportagem). 

Blog: Quais as vantagens da indução em relação à cesárea?

Bráulio: A indução, se comparada à cesárea, é algo muito menos drástico, mas os dois métodos usam ocitocina sintética, sendo que a cesariana usa quatro vezes mais, para a contração uterina após a cirurgia. As duas opções têm de ser discutidas entre o obstetra e a mulher. A indução é muito mais favorável à mãe e ao bebê do que a cesárea.

Blog: Quais são os motivos que fazem com que um parto normal vire uma cesárea com indicação médica?

Bráulio: As duas indicações para cesariana são desproporção cefálica, quando durante a dilatação ou perto do final da dilatação observa-se que o bebê não desceu, não teve ‘passagem’, ou percebe-se que há sofrimento fetal  pelos batimentos cardíacos do bebê. Mas isso tem que ser visto durante o trabalho de parto, fora do trabalho de parto não dá para observar nada disso. E é muito raro que um protocolo de indução falhe e tenha de se fazer uma cesárea por conta disso. Médico e paciente têm de discutir as opções, porque a indução e a cesárea fazem uso de ocitocina

Blog: As gestantes costumam ficar ansiosas com a pressão da família quando passam pela marca de 40 semanas de gestação. Quando essa gravidez é ‘pública’, como no caso da Sabrina, essa pressão é ainda maior. O que você sugere as suas pacientes para diminuir a ansiedade no caso do bebê nascer depois da tal ‘data prevista’?

Bráulio: Se a gente observar mil mulheres que fizeram o pré-natal e estão em uma gestação sem problemas, ou seja, aquelas que são consideradas gestantes de baixo risco e que esperam pelo parto normal e colocá-las em um gráfico, vamos ter uma figura semelhante a de uma montanha. O pico dessa montanha são as gestações cujos bebês nascem com 40 semanas de gestação. Mas no início do gráfico temos pelo menos um bebê que nasce bem, de 35 semanas, e um mais ‘velhinho’ que, se a gente deixar, nasce com 44 semanas. Então quando a gente fala para uma mulher ‘sua data provável de parto é 10 de dezembro’ não estamos dizendo que o bebê vai nascer nessa data, mas sim que a média de todos os bebês das grávidas que estão na mesma semana gestacional que essa gestante vão nascer por volta do dia 10 de dezembro.  Mas pode ser que seu bebê nasça de 35 ou de 44 semanas, não temos como saber. Estatisticamente 50% dos casos passam de 40 semanas, 15% dos casos passam de 41 semanas e 2,5% das 42 semanas se a gente deixar. Alguns países induzem o parto a partir das 40 semanas, outros a partir de 41. Tudo depende da frequência que a gente consegue avaliar essa mulher no final da gestação. Mas eu recomendo as gestantes a fazerem uma conta diferente na hora de avisar à família: se a data prevista para o parto, por exemplo, é 10 de dezembro, ela tem que colocar mais 14 dias e dizer a todos que o bebê dela vai nascer até o dia 24 de dezembro. Assim ninguém fica pressionando a gestante se, por acaso, o bebê passar da data prevista. Como a DPP é o meio do caminho você tem que divulgar a data que marca o final do caminho.  E isso dá muito certo, as pessoas conseguem se desligar e diminuir os impactos das pressões externas, que fazem com que as mulheres queiram que sejam feitas coisas para acelerar o processo, quando não é necessário, quanto a única coisa certa a se fazer é se desligar de tudo e esperar.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A Maternidade Pro Matre Paulista é referência no cuidado integral da mulher e do neonato, inclusive em casos de alta complexidade e prematuridade. A segurança do binômio é o principal norteador de todos os avanços e melhorias implementados ao longo dos mais de 80 anos de história. Neste contexto, a instituição promove o programa de Consciência Obstétrica, com treinamentos periódicos voltados tanto para seu corpo clínico quanto para profissionais da saúde credenciados, estabelecendo protocolos de procedimentos padronizados para o atendimento humanizado em todos os setores. Um desses treinamentos é o curso em simulação realística de assistência ao parto, com enfoque no nascimento via vaginal, que conta equipe capacitada e com simuladores de alta tecnologia, com manequins de alta fidelidade de adulto, recém-nascido e prematuro que respondem fisiologicamente às mais diversas e adversas situações clínicas, sendo uma das mais modernas e eficientes metodologias de aprendizado. Em consonância com o conceito de humanização do parto vaginal, a Pro Matre Paulista inaugurou recentemente o Centro de Parto Normal, ampliando sua capacidade de atendimento para parturientes que desejam por essa via de parto. Ainda dentro do programa de Consciência Obstétrica, uma equipe multiprofissional recebe essas novas famílias para dar todo suporte e informações que as subsidiem na decisão da via de parto, promovendo maior equilíbrio entre a expectativa para o momento do nascimento e a importância da segurança da gestante e de seu bebê. É importante ressaltar que a Maternidade respeita a autonomia da paciente para decidir a via de parto junto a seu médico, que deve esclarecer as opções de parto baseadas na melhor evidência científica de acordo com as características de sua paciente, sempre com foco em garantir a segurança fetal e materna. A conduta médica para os casos de bolsa rota também seguem esses princípios, ou seja, a vontade da paciente e o que foi acordado com seu obstetra e a saúde do binômio, levando em consideração a Classificação de Robson, de acordo com a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), em que é avaliado o antecedente obstétrico, número de fetos, apresentação fetal, idade gestacional e início do trabalho de parto.

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