ChupetaHoje em dia pais e mães raramente oferecem uma chupeta ao filho recém-nascido com a mesma naturalidade com que as nossas mães e avós faziam antigamente. Com tanta informação disponível na internet e ao alcance de todos, já é público e notório que esse acessório faz mais mal do que bem. Eu mesma tinha conhecimento disso e, por isso, jurava de pés juntos que “não, nunca meu filho vai chupar chupeta”. E assim foi até uma madrugada de muito choro e rock´n roll quando eu me lembrei que tinha ganhado uma, que estava escondida no fundo do armário. E assim implorei para meu marido esterelizá-la durante a tal madrugada tensa, onde nada no mundo acalmava o meu Samuca. A chupeta o tranquilizou e, para minha sorte, ele a usou apenas em momentos pontuais. E, por isso, a retirada da chupeta teve menos drama do que a estreia dela na vida do meu filho. Já a culpa (Ah, a culpa! Também precisamos conversar sobre ela!), essa sempre ficou.

Juliana Labraña, mãe de Francisco, 8 meses, foi forte. “Eu me segurei para não dar no primeiro mês e proibi as pessoas de trazerem chupetas para dentro da minha casa nesse período mais crítico. Uma noite pensei em dar porque estava cansada. Como não tinha nenhuma por perto, não dei”, conta. “Tirando aquela madrugada, nunca senti falta da chupeta”, completa. Claudia Abe, mãe de Carlos de 2 anos, também não ofereceu ao filho, contra tudo e contra todos. “Toda vez que eu dizia que estava cansada ouvia de alguém próximo: Tá vendo! É porque não quis dar chupeta!”.

Uiara

Uiara deu chupeta ao filho William, mas depois conseguiu tirar

Uiara Correa, mãe de William, 9 meses, resistiu quando as primeiras dificuldades apareceram, segundo ela, porque teve a ajuda do marido e de uma tia para se dedicar de corpo e alma à amamentação e ao descanso, sem se preocupar com as tarefas domésticas. Mas quando a tia foi embora e o marido voltou ao trabalho, sentiu-se cansada e aderiu à chupeta. “Ficava me justificando e dizendo que o meu estado de exaustão física poderia ser tão ou mais prejudicial à amamentação que a chupeta”, lembra. Dois meses depois ela sentiu que a “pega” do peito estava comprometida. Mas, antes de conseguir sumir com a chupeta, o acaso agiu e ela a esqueceu em casa durante uma viagem. Quando voltou, o bebê não sabia mais para quê o tal objeto servia e ela não insistiu. “Ele segue mamando e eu sigo sem dormir direito”, brinca. “Não sei se a chupeta poderia ter me ajudado, pois conheço bebês que ainda acordam à noite mesmo com chupeta e bebês que seguem apenas no peito que dormem a noite inteira”, conta. “Nas duas escolhas fiz o que meu coração mandou.”

Marcelo Reibscheid, pediatra do Hospital São Luiz, afirma que não há consenso entre os pediatras quando o assunto é chupeta, mas se posiciona contra o uso. “Meu filho tem três anos e nunca usou”, afirma. Segundo ele, a chupeta pode prejudicar a amamentação. “Quanto menos bico artificial se oferecer, melhor”, explica. E completa: “Muitas vezes não são os bebês que precisam da chupeta e sim as mães, que não encontram outra saída para fazer os bebês se acalmarem.” Ele sugere ações alternativas para acalmar os bebês, como banho, massagem e música. Mas faz uma ressalva: “A chupeta funciona como calmante, principalmente para as crianças mais orais, que têm mais necessidade da sucção do que outras. E é por isso que elas acabam ganhando um exemplar para tranquilizar um dia mais agitado e acabam se acostumando com ela.” Lilian Mello, mãe de Helena, 1 ano, confessa que deu a chupeta em um momento em que estava exausta: “Queria não ter dado porque sei que há consequências negativas mas, para mim – e acho que para ela também – a chupeta promoveu momentos de paz”, conta.

Renata Jimenez Lopes, mãe de Manuela, 5 meses, confessa que até chorou quando deu a chupeta à filha, então com 1 mês de vida. “Eu sentia que ela tinha muita necessidade de sucção. Se deixasse ela ficava 24hs por dia no peito, mas não mamando. Eu percebia que ela ficava nervosa e chorava se não estivesse sugando algo”, conta. Depois do primeiro mês fiz a tentativa e dei.  “No final achei que fez bem pra ela, ficou bem mais calma e tranquila”. Manuela tem cinco meses e ainda mama no peito, com a mesma pega, segundo Renata. Uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde mostra que os pais das regiões sul e sudeste são os que mais oferecem chupeta aos filhos em todo o país. Por outro lado, os estados da região norte são os que menos usam chupeta e os que mais amamentam as crianças exclusivamente no peito.

A pequena Francine sem chupeta e Cecília, a irmã mais velha, ainda com a chupeta: "Hoje estou mais experiente", afirma a mãe, Mariella.

A pequena Francine sem chupeta e Cecília, a irmã mais velha, ainda com a chupeta: “Hoje estou mais experiente”, afirma a mãe, Mariella.

Mariella Bortoletto deu a chupeta no segundo dia que a filha mais velha, Cecília, hoje com 4 anos, chegou em casa da maternidade. Não sofreu oposição da família “porque todos sempre acham bonitinho um bebê assim”, conta. Mariella ainda não conseguiu tirar o objeto da filha mais velha e relaciona uma série de otites da menina ao uso da chupeta. O pediatra Marcelo Reibscheid concorda: “O uso exagerado pode aumentar ou proporcionar o surgimento de otites. Não se sabe exatamente a causa, mas imagina-se que isto ocorre por migração bacteriana por mudanças nas pressões da tuba de Eustáquio”, explica. Para a filha mais nova, Francine, 2 meses, Mariella nem pensa em oferecer a chupeta porque já tem “mais experiência”. Já Helaine Lustosa teve a chupeta prescrita por uma pediatra para evitar a Síndrome de morte súbita do bebê. “Como fisioterapeuta fui pesquisar a síndrome e o uso da chupeta e vi uma certa lógica. Mas quando era recém-nascida a Laura não quis a chupeta de jeito nenhum”, conta. Laura só pegou a chupeta meses depois, porque se acalmava das coceiras na gengiva no período do nascimento dos dentes. Reibscheid afirma que uma pesquisa sobre o uso da chupeta para evitar a Síndrome da morte súbita foi publicada no “British Medical Journal”: “A parte externa da chupeta ofereceria uma suposta proteção já que ajudaria a manter a boca e o nariz longe das cobertas. Os pesquisadores cogitaram também que o ato de sugar melhoraria o controle das vias aéreas superiores. Mas os dados são preliminares e não são suficientes para justificar o uso da chupeta para esse fim”, completa.

ChupetasA ortodontista Cristiane Rosa se depara diariamente em seu consultório com crianças que começaram cedo com a chupeta e não conseguiram se livrar dela antes do estrago feito. “A chupeta interfere negativamente sobre a amamentação, atrapalha a fala, a mastigação e a deglutição da criança. Os músculos da boca perdem tônus e os ossos da face crescem em desarmonia. A chupeta, e não a genética, é uma das principais causas da criança se tornar respiradora bucal”, afirma. “E a síndrome do respirador bucal pode interferir também no desenvolvimento físico e emocional da criança, já que ela não dorme bem, tem sonolência diurna, irritabilidade e até baixo rendimento escolar, sintomas que erroneamente são confundidos com o DDA, o Distúrbio de Déficit de Atenção”, completa. Dra Cristiane tem colocado um aparelho móvel especial em crianças a partir dos 3 anos. “Elas usam apenas para dormir. O objetivo não é corrigir os dentes, que ainda são de leite, mas para corrigir a respiração, mastigação e deglutição”, afirma.

Segundo o pediatra, a idade ideal para tirar a chupeta é antes dos nove meses – e de maneira radical. “A decisão precisa ser da família toda. Não adianta a mãe tirar e avó dar”, afirma o pediatra. “Dá trabalho, o bebê vai ficar mais agitado durante dois ou três dias, mas depois ele esquece”, garante. A ortodontista se apoia em pesquisas para sugerir que os pais tirem a chupeta um pouco antes: “Bebês que mamam no peito tendem a largar a chupeta mais facilmente entre os 4 e 6 meses”, afirma.

Paula Onofre está grávida do segundo filho e decidida que dessa vez, vai fazer diferente. Ela colocou na balança o que passou com a filha mais velha, hoje com 3 anos e 3 meses: “A chupeta atrapalhou na amamentação e até hoje não conseguimos que ela, que já está com problemas de mordida, largasse. Meu próximo filho não vai saber nem que gosto tem uma chupeta”, decreta.

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