Pai

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Eu cheia de trabalho. Filho com uma cabeleira enorme, já caindo no olho e crescendo para todos os lados como uma moita, precisando urgentemente de um corte. Não tive dúvidas e pedi para meu marido levá-lo à cabeleireira. Ouvi um “alerta”: “Prepare-se, porque hoje vou pedir para cortar o cabelo dele do meu jeito!”

“Como assim do jeito dele?”, pensei. A frase do marido, quase um grito de independência às margens do rio Ipiranga, passava uma mensagem nem um pouco subliminar: a que as coisas, até então, foram feitas do “meu jeito”. O corte de cabelo do nosso filho sempre foi uma escolha minha: um pouco mais comprido, uma coisa meio Paul McCartney no início dos Beatles (ou dos irmãos Gallagher do Oasis, referência aos muito mais jovens).

As combinações de roupas do nosso filho? Sempre escolhidas por mim, a mulher é quem sabe o que fica bem com o quê, né não? O que vai na lancheira? Eu é que sei o que é saudável. Dias em que o videogame é permitido? “Pergunta para a sua mãe. Ela é que sabe, filho”, sempre dizia o marido, resignado.

Tempos atrás escrevi uma matéria sobre o papel do pai. A matéria começou por causa de um meme, daqueles que mostram que as crianças estão sempre lindas, arrumadas e saudáveis aos cuidados da mãe. Sempre descontroladas, mal vestidas e correndo risco de vida quando aos cuidados do pai. A premissa é divertida e engraçada. Mas seria verdadeira? Os homens não sabem cuidar dos filhos como as mães? Quando buscava essas respostas entrevistei o psicólogo e professor da Universidade de Cambridge Michael Lamb (autor do livro “O papel do pai no desenvolvimento da criança. Ed. Wiley). Ele me disse o seguinte: a maioria dos pais quer se envolver mais na criação dos filhos e muitas mães não permitem por uma questão de manutenção de poder. Nossa competência na área de cuidados com as crianças é a única não questionada nesse mundo que duvida da nossa capacidade em todas as esferas. Por isso, maridos, não venham se meter na nossa maternagem, grita nosso subconsciente.

Muitos querem trocar a fralda, ouvem que não sabem, não levam jeito. Querem dar banho: cuidado que cê vai matar essa criança, hein? Passear na rua: não solta da mão dele! Sim, às vezes tratamos os homens como idiotas e não como o cara adulto que colocou um ser humano do mundo com a gente e que, de quebra, está em pleno gozo de suas faculdades mentais.

Se a gente que é parceira da vida duvida deles, imagine quem está ao nosso redor assistindo às aulas diárias de submissão. A cabeleireira perguntou ao meu marido se o corte no guri era aquele “de sempre”. Ao ouvir que não, que hoje era dia da dupla McCartney-Gallagher nos deixar para ser substituída por uma versão do Neymar, disparou: “tua mulher tá sabendo disso?” Marido garantiu que tava tudo tranquilo, favorável e combinado com a patroa, pode passar a máquina dois sem medo.

Ao chegarem em casa tentei esconder o meu choque com o corte de cabelo que eu nunca escolheria, mas que conectou os dois: “Se eu lavar o cabelo cê me ajuda a fazer esse topete de novo, papai?” E lá estão eles num lance só deles e eu aqui cogitando que não sei de nada, a inocente. “Até que cabelo novo do Samuca é bonito”, pensei. Depois cai em mim e vi que o corte de cabelo é horrível mesmo, o que é legal é ver essa conexão dos dois.

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