Mães

O viral começou de mansinho na minha timeline e não sei como e nem o porquê. De repente, mães começaram a postar fotos suas e de seus filhos em um tal “desafio da maternidade” no Facebook. Escolhiam algumas imagens sempre legais com as crias e marcavam nas fotos outras mães para que fizessem o mesmo. Vi fotos lindas de parto, de barrigões, aniversários, parquinhos. Logo fui marcada por duas amigas. Não participei de imediato porque estava ocupada e sempre, sempre mesmo, posto fotos do meu filho nas redes sociais, então para mim o tal “desafio” não era um desafio e sim mais do mesmo.

Daí chegou o primeiro alerta. Algumas mães disseram nas redes que o tal viral se mostraria, posteriormente, uma campanha contra a legalização do aborto, “não postem, não participem, estamos sendo usadas!” Depois muitas classificaram a campanha como “idiota” e, de repente, um novo desafio foi proposto: Agora a meta era mostrar a timeline que ser mãe não é bolinho não, diferente do que mostra a propaganda de shampoo para bebês. Começaram a pipocar listas e mais listas lembrando o quão difícil é exercer a maternidade em um mundo onde enfrentamos jornada dupla, contamos com pouca ou nenhuma ajuda e não podemos nem de longe mostrar que estamos infelizes sem ouvir: “seu filho tá aí saudável e você se lamentando?”

A dona-de-casa Juliana Reis, 25 anos, no auge do puerpério, decidiu aderir ao segundo desafio e postou no Facebook que amava o filho recém-nascido, mas que esse lance de ser mãe era pesado demais. “Desafio NÃO aceito”, postou. “Me recuso a ser mais uma ferramenta para iludir outras mulheres de que maternidade é um mar de rosas”, completou. “Postem fotos do desconforto com a maternidade e relatem seus maiores medos ou suas piores experiências para que mais mulheres saibam a realidade que passamos. Dizem que no final tudo acaba bem, mas o meio do processo por vezes é lento e doloroso.’

Juliana Reis

O desabafo de Juliana Reis: perfil do Facebook suspenso

Juliana listou um mundo de dificuldades que estava enfrentando, que ia do parto à amamentação e sobre os palpites que escuta, claro, sempre eles.  Parecia esgotada e facilmente me lembrei de como me senti exatamente assim nas primeiras semanas. O post viralizou e Juliana recebeu mensagens furiosas e de ódio. “Por que não usou camisinha?” “Na hora de fazer filho não reclamou!”  E Juliana, que ousou ser verdadeira e não se esconder sob o véu do politicamente correto, teve seu perfil bloqueado no Facebook – lembrando que isso só acontece depois que uma série de usuários denuncia a página como imprópria. Gente que em vez de dizer a Juliana que sentia muito pelo que ela estava passando decidiu pegar pedras. E arremessá-las. Joga pedra na Geni. Ela é feita para apanhar, ela é boa de cuspir, maldita Geni, já cantou o sempre atual Chico Buarque.

Por que as mulheres não podem dizer que estão infelizes? Por que não podem contar ao mundo e as outras que ser mãe é difícil e que, nem de perto, a maternidade se mostrou parecida com àquela do comercial de fralda? Por que também não podem ser felizes? Por que ao mostrar fotos de momentos legais com nossos filhos somos acusadas de ingenuidade? Por que sempre somos colocadas no banco dos réus?

Meu desafio é diário: Uns dias sou feliz, em outros infeliz. Foto: Paola Vianna 

Eu fui feliz em parte da gravidez. Infeliz quando meu filho nasceu e não consegui amamentar direito. Depois feliz quando a coisa engrenou, infeliz quando voltei a um trabalho que me consumia demais e me afastava dele, depois feliz quando me livrei do trabalho, mas infeliz porque a renda caiu, feliz quando ele entrou na escolinha e pude voltar a trabalhar mais, infeliz quando ele quebrou o dedo e eu não estava junto, feliz quando pude buscá-lo na escola quando se machucou de novo, infeliz quando tive que deixá-lo no período integral, feliz quando pude deixá-lo novamente em meio período e por aí vai. Maternidade é assim, feita de nuances. Juliana, fique tranquila, você vai ser feliz. Amigas do desafio da maternidade: força quando as coisas não estiverem cor-de-rosa para vocês.

Leia mais: O pós-parto é como um show de heavy metal 

Leia também: Toda mãe deveria fazer uma ressonância magnética por semana