Foto: Pixabay

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Dia desses um moço disse no meu Twitter que conhecia pessoas que apanharam dos pais na infância e “agradeciam pela educação que tinham recebido”. (Tudo começou porque compartilhei uma matéria da Marie Claire gringa que afirmava que um dos motivos do pedido de separação de Angelina Jolie do marido, Brad Pitt, seria a violência contra os filhos do casal). Outro rapaz perguntou, ao me ver responder o questionamento do primeiro:  “Se ele é o pai das crianças, qual é o problema?

Quando essa polêmica veio à tona na minha rede social, deixei de lado o primeiro susto ao imaginar que Brad Pitt batia nos filhos, para mergulhar em outro: as pessoas realmente AINDA acham isso normal? Meus pais achavam normal, meu avós normal, mas essa geração, composta de pessoas da minha idade ou ainda mais novas, ainda acham aceitável que um adulto, que tem o triplo do tamanho de uma criança use a força, em vez do cérebro, como forma de educação?

“Em que mundo você vive?”, escreveu o moço, no meio do “debate” – não sei se com delicadeza ou com ironia, afinal, na impessoalidade das redes sociais, nunca se sabe se a pessoa realmente quer saber em que planeta esse comportamento não é tolerado ou se está debochando. “Não confunda violência com correção”, emendou. Como dificilmente conseguimos mudar a opinião de alguém no mundo surdo dos 140 caracteres encerrei a conversa com um: “o meu filho eu educo apenas com conversa, ok?”

Tentei lembrar das poucas vezes que apanhei na infância – dava para contar nos dedos, mas lembrei de todas elas e não de forma agradecida. Não me tornei a pessoa decente que acredito que sou hoje porque meu pai me bateu. Pelo contrário. Talvez eu soubesse dialogar mais se visse, desde pequena, que a conversa é um caminho, talvez o único. Educar dá trabalho, conversar consome tempo e nos força a um mergulho diário nas nossas certezas e incertezas – e isso pode ser pouco confortável. O tabefe ou a palmada abreviam esse processo, muitas vezes doloroso, que é descobrir que nem sempre nosso ponto de vista é o mais certo. Ou o único certo.

“Mas uma palmada não faz mal, né?”

Faz, ô se faz. O tapa humilha, sufoca as palavras, silencia o diálogo. Se seu filho acha que vai apanhar ao te contar que tirou nota vermelha/quebrou o brinquedo novo/rasgou o sofá, simplesmente não vai contar que foi ele. Talvez esconda, omita, não assuma que errou, não abra o canal de diálogo para que você faça seu papel de pai e explique sobre a importância de tirar boas notas/de cuidar das próprias coisas/de zelar pelo o que é de todos. Fragilizado e com medo de ser agredido colocará a culpa na escola/no irmão/no cachorro. E pior: já terá introjetado o conceito de que a tolerância e a brutalidade são socialmente aceitas, já que os pais agem assim. Quando adulto, provavelmente será aquela pessoa violenta que ameaça os motoristas dos outros carros, ou chefe incapaz de ouvir ou assumir os próprios erros, ou o covarde em série -daquele tipo que acredita que chutar morador de rua é normal.

Dia desses, aqui em casa, meu marido falou pro nosso filho, brincando: “Olha que eu vou pegar a cinta!”. O guri caiu na risada, sem entender, e perguntou: “Pra quê, papai?” Também rimos, felizes por perceber que nosso filho não tem a mínima noção para que serve “a cinta”, aquele famoso objeto de surra de nossa época. Para ele “a cinta”, assim no feminino, é apenas aquela fivela do cinto que, por sua vez, tem como única função segurar a calça. Já “o chinelo”, que ele troca uma vez a cada dois meses porque não para de crescer, é apenas um calçado que serve para a gente colocar no pé. “E nunca deixar virado, né, senão a mãe da gente morre, papai!”

PS: Esse “PS” serve para lembrar que bater em criança é crime, segundo a lei 13.010 de 2014,“a criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los.”