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Não é de hoje que a gente lê histórias de mulheres que são impedidas de amamentar em público como se fossem criminosas. Mas o fato disso ser “comum” não faz com que a situação pela qual passou a dona de casa Thaís Magalhães, 21, seja menos chocante ou revoltante. Ela me contou que acabava de sair da consulta com seu ginecologista e obstetra na última terça-feira, 10 de julho, quando percebeu que seu filho Otto, 1 mês, estava com fome. Decidiu alimentá-lo sentada em um banco no Terminal de Vila Luzita, em Santo André, enquanto esperava pelo coletivo que a levaria para a casa da irmã. Foi abordada por seguranças que disseram que Thaís  não podia “colocar o peito para fora” porque isso configuraria crime de “atentado violento ao pudor”. “Falaram para eu não insistir senão iriam chamar a polícia”, me conta, voz firme, de quem sabe que foi vítima de algo absurdo, beirando o surreal.

Descubro, em uma rápida pesquisa jurídica, que “atentado violento ao pudor” é o ato de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso”. Fiquei sem entender quem estaria constrangendo quem a cometer um ato lascivo e sexual: o bebê, que ainda não tem consciência de ser gente e só come, dorme, faz xixi e cocô ou a mãe recém-parida, cujo único objetivo naquele momento em que decidiu “colocar o peito para fora” em uma manhã de 10 graus na grande São Paulo era de alimentar o seu filho? (Quem é mãe sabe que nos primeiros tempos depois do nascimento do bebê a gente pensa em sobreviver e dormir, não temos tempo ou disposição para praticar “atos libidinosos” pela rua, uma pena.)

O movimento de desestimular a amamentação é algo sutil, que nasce nos olhares e nas palavras recriminando uma mulher como Thaís e que cresce nos próprios consultórios quando alguns médicos dizem para a puérpera que essa coisa de “dar o peito é para quem mora na África”, “você não precisa disso, pode comprar uma lata de leite em pó, vai até dormir melhor durante a noite sem ter que acordar para dar de mamar”. Dificilmente a gente ouve um profissional da saúde estimular a amamentação explicando para a mulher que o leite de peito é o que existe de melhor para o bebê e que, além de um alimento gratuito que podemos oferecer aos nossos filhos, também é proteção porque carrega em sua composição nossos anticorpos para aquele recém-nascido com um sistema imunológico tão frágil.  Por outro lado, a gente ouve desde a sala de parto que “não vai conseguir” amamentar, que o leite materno “é fraco” ou então que “o bebê é preguiçoso” e não está ganhando peso porque “não sabe mamar”. Eu ouvi cada uma dessas frases ainda na maternidade e assim como milhões de mulheres em todo o mundo saí de lá uma prescrição de leite artificial em mãos –  minha derrota no quesito amamentação já tinha decretada antes mesmo de o jogo começar.

Mas, por outro lado, ou melhor, por todos os outros lados somos bombardeadas com as melhores notícias sobre o leite artificial vendido na farmácia e nos supermercados. Dizem que ele é “tão bom” quanto o de peito. Que te traz liberdade e autonomia porque dando a mamadeira “qualquer um” pode cuidar daquele bebê, “nem precisa ser a mãe”. Que ele custa quase 50 reais a lata e que cada criança precisa de pelo menos duas por semana, ninguém diz. Que ele não tem os anticorpos da mãe e que pode causar alergias nenhuma palavra, negócios são negócios.

E por falar em business, que tal essa informação divulgada pelo jornal The New York Times? O governo de Donald Trump se posicionou publicamente contra amamentação e ameaçou de sanções comerciais os países que apoiam o aleitamento materno em uma reunião da Assembleia Mundial de Saúde. Depois de a história ganhar as páginas de jornais de todo o mundo, Donald Trump veio a público criticar a reportagem do jornal pelo Twitter, disse que tudo não passava de fake news  e que os EUA “apoiam fortemente” a amamentação. O NYT destaca que as indústrias fabricantes de alimentos para bebês faturam em torno de US$ 70 bilhões, ficando fácil a gente supor de que lado o presidente norte-americano está, atenção spoiler: não é do lado dos peitos que fabricam leite materno de graça.

Longe de mim achar que todos esses episódios estão ligados. Acho que ao se alimentar uma cultura de que amamentar é algo imoral e escandaloso o País dos peitos de fora no carnaval se mostra preocupado apenas com “a moral e os bons costumes”. Também acredito que os profissionais da saúde ao estimularem o leite artificial em detrimento ao leite do peito estão, na verdade, pensando no “bem-estar” da mulher que pode “dormir mais” e até “voltar ao trabalho mais rápido” com a ajuda da mamadeira. E que o presidente norte-americano ao ameaçar os países que apoiam a amamentação com sanções está sim preocupado com as mães e seu direito de alimentar seus filhos da forma que quiserem. Donald Trump é um cara bacana, preocupado com a infância e que jamais separou mães de seus filhos bebês na fronteira dos Estados Unidos com o México. Quem acredita nas hipóteses acima acredita em tudo, não é mesmo?

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