Um dos encontros de pais promovidos pelo naturólogo Tiago Koch. Foto: André Luís

Foi só de uns tempos para cá que começamos a ouvir a palavra ‘puerpério’. Quem é leigo e vai ao dicionário, contudo, não consegue entender direito do que se trata. Aurélio e Hoauiss, os homens que tentam definir e explicar o que as palavras significam, não chegam nem perto do que a gente sente ao dizerem que o puerpério é “o período que decorre desde o parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem às condições anteriores à gestação”. Simplesmente porque essa é uma fase de muitas mudanças, angústias e principalmente incertezas, já que para nós fica claro que não há possibilidade das coisas voltarem a ser como antes.

E se para gente esse é um período de névoa densa e baixa, para os homens, nossos companheiros de jornada, pode significar voar sem instrumentos ou mapas em uma área de muita turbulência. “Eu não conseguia enxergar muitas coisas pelas quais a Bruna estava passando”, confessa o naturólogo Tiago Koch, 36 anos, pai de Iara, 2, e companheiro da pedagoga Bruna Nazzari, 36. Ele conta, ainda, que também não conseguia entender qual era o seu novo papel nessa família que estavam construindo juntos. “Eu me vi sem ferramentas para lidar com o que estava acontecendo”, completa. Foi só depois de procurar ajuda, remexer as gavetas da própria infância e abrir os ouvidos e o coração que conseguiu entender sua parceira e enxergar que o puerpério também podia ser de muito aprendizado para os homens. Depois de participar de rodas de conversa e estudar muito sobre o assunto, Tiago começou a promover o workshop para pais ‘Prazer, homens, meu nome é puerpério’. Essa roda de conversa vai acontecer no próximo fim de semana em São Paulo e já há encontros previstos também para São José dos Campos, Niterói e Campinas.

Blog: Como você descobriu o puerpério?

Tiago: Quando a minha filha, Iara, 2, nasceu eu nunca tinha ouvido falar a palavra puerpério, como a maioria dos homens. E por isso eu não conseguia enxergar muitas coisas pelas quais a Bruna estava passando, justamente por conta dessa falta de conhecimento. Eu só descobri quando fui pesquisar para entender o que estava acontecendo com a minha parceira.

Blog: E o que você via acontecendo com ela?

Tiago: Ela estava extremamente feliz por ser mãe, era uma realização, mas também sentia uma certa melancolia, sofria com os desafios da amamentação e passava por um momento de aceitação do corpo. Ela passava por certas emoções que eu não conseguia acessar de forma empática. E por mais que eu estivesse ali, dando o meu melhor, tudo o que eu tinha para oferecer ainda não era o suficiente, foi um período bem desafiador. E como a maioria das empresas não estão preparadas para a paternidade, eu tive que trabalhar bastante e deixei a Bruna passando um período grande sozinha, em casa. A gente morava em Florianópolis, não tínhamos uma rede de apoio com disponibilidade – uma coisa é você ter muitos amigos, outra coisa é você ter gente com disponibilidade para dar esse acolhimento, e como isso faltou, potencializou algumas questões para ela. Eu me vi sem ferramentas para lidar com o que estava acontecendo.

Bruna, Iara e Tiago. Foto: Nat Brasil

Blog: E as coisas que a Bruna sentia, você achava que era apenas com ela?

Tiago: As coisas aconteciam com ela, mas também aconteciam comigo. Eu não conseguia mais achar espaço para mim naquela relação. Era um momento de muita dependência entre a Bruna e a nossa filha, e eu tinha dificuldade em acessá-las. Eu tinha meus medos, meus anseios, eu não conseguia entender principalmente as questões psicológicas dela, eu não sabia que nesse período cada mulher acessa questões muito específicas de sua própria existência. Para ela começou a ficar muito forte a questão da perda de sua autonomia e liberdade, de perder o direito de ir e vir, muitas vezes dentro da nossa própria casa. E eu, como passava muitas horas fora de casa, não tinha a percepção do que ela estava vivendo, não sabia que muitas vezes ela não conseguia sequer ir ao banheiro na hora que queria, não conseguia tomar banho. Eu chegava em casa e não entendia porque ela estava tão cansada e desgastada. Não conseguia uma comunicação mais estreita com ela e nem ser empático como eu hoje acredito que deveria ter sido, principalmente pela falta de conhecimento, por não saber o quê era aquilo pelo que ela estava passando. Hoje, quanto mais eu estudo, mais eu vejo que a gente não sabe de nada. A consequência disso é que, por não saber o que era puerpério, eu e ela navegamos por lugares indesejáveis. Esse foi o principal motivo pelo qual o projeto Homem Paterno nasceu: uma necessidade individual de buscar conhecimento – e existe pouco conhecimento direcionado para o homem. Claro que esse é um momento muito feminino, mas eu estranhava que nada falava com o homem . Eu tentava falar sobre o assunto com os meus amigos que tinham filhos, mas o papo nunca saía da superficialidade. Com os que não tinham filhos era ainda pior: logo o papo passava para futebol, política. Isso fez com que eu me sentisse sozinho, sentia falta de uma rede de apoio masculina. Eu não tinha com quem trocar e não queria jogar minhas demandas emocionais para minha parceira que já estava enfrentando um período de transformações.

Blog: E onde você foi buscar informação?

Tiago: Com algumas amigas naturólogas que hoje são doulas, com parteiras. Quando eu ia pesquisar no google eu encontrava algumas coisas interessantes sobre paternidade, mas que falavam apenas da relação do pai com os filhos, sobre o processo de educação. Mas qual era o lugar do homem durante a gestação, o parto e o puerpério? O que ele sente, o que não sente, isso não tinha, eu não achei. Aí eu comecei a pesquisar sobre as mulheres, tentar entender o que estava acontecendo com a Bruna. E daí eu percebi como nós, homens, somos castrados emocionalmente e sentimentalmente a vida inteira, como temos dificuldade em sermos empáticos de forma genuína. E o conhecimento pode ser um grande caminho para a gente acessar essa empatia, não diminuindo a dor do próximo e se colocando em um lugar mais acolhedor.

Blog: Você promove um workshop ‘apresentando’ aos homens o puerpério e falando sobre paternidade. Como é isso?

Tiago: É um workshop para homens, porque o objetivo é criar esse espaço seguro onde eles possam se abrir, mergulhar em suas masculinidades e em suas referências paternas, discutir que se quer e o que eu não se quer replicar com seus filhos – acho que esse é o primeiro passo ao se falar sobre paternidade. Eu participei do documentário ‘O silêncio dos homens’, não sei se você já viu, que traz uma chamada muito forte para a paternidade como um grande gatilho de transformação das masculinidades.

Blog: Os pais de hoje têm buscado oferecer uma paternidade diferente da que tiveram?

Tiago: Nos grupos em que eu trabalho e também nos que eu participo o que fica claro para mim é que poucos homens têm referências positivas paternas, por incrível que pareça. Ou a referência é de ausência total ou parcial do pai ou de uma presença negativa. Isso é o mais comum. Há 20, 30 anos haviam outras construções, inclusive de constituição familiar, são poucos anos e muita diferença. Então na própria relação do homem com o pai, por mais que tenha muito amor e isso seja visível, há dificuldade em acessar emoções e sentimentos e demonstrar isso.

Blog: Como foi a sua referência paterna?

Tiago: Hoje eu já consigo acessar isso, refletir, entender o que eu quero fazer diferente com a minha filha e preencher as lacunas da minha vida que deveriam ter sido preenchidas pelo meu pai; eu tive outras referências paternas, eu não tive referências negativas, mas eu tive uma ausência parcial do meu pai. Eu fui criado pelos meus avós, meus pais se separaram quando eram ainda muito jovens e eu não tenho lembranças do meu pai na minha primeira infância e trago algumas questões dessa ausência paterna e materna também, embora eu tenha sido muito amado. Depois eu fui morar com a minha mãe, comecei a visitar o meu pai, mas era uma relação mais superficial, festiva, de vê-lo nas férias.

Blog: E como você começou a fazer diferente do que o seu pai, por exemplo?

Tiago: Já durante o parto da minha filha, estando presente. Quando eu perguntei para a minha onde meu pai estava no meu parto ela não se lembra. O puerpério da minha mãe – e eu acho que ela nem sabia o que era puerpério – foi de total afastamento, de desligamento, da falta de entendimento de que ela precisava sim de um acolhimento, de um apoio. E até por isso que ela e meu pai se separaram, esse foi um dos motivos, essa falta de parceria. E, claro, não estou querendo julgar meu pai, sei que ele deu o que ele podia, mas essa é um das coisas que eu não quero replicar com a minha filha e com a minha parceira, uma coisa que eu vejo que é replicada pelos homens constantemente, é só olhar para o lado que a gente vê se repetindo e algumas vezes de uma forma muito pior. Eu vejo o quanto essa ausência de referências paternas para os homens pode, sim, interferir na paternidade. Não que seja determinante, porque a gente é capaz de construir nossos caminhos, mas isso pode influenciar com certeza.

Blog: E você vê os homens dizer nesses cursos que você dá, nesses workshops, ‘eu quero fazer diferente do que fizeram comigo’?

Tiago: Muito, muito. É o que fica mais forte no curso. E só o fato de os homens estarem em um curso como esse já é fazer diferente, eu ouço os homens dizerem ‘o meu pai nunca estaria aqui’. É uma ressignificação desse lugar de ‘provedor’, é repensar o cuidado. Às vezes um de nós chega pensando que tem problemas e quando ouve um outro homem contando suas questões pensa, ‘caraca, pensei que era eu que tinha problemas’. Quando a gente coloca os homens em um lugar seguro, de acolhimento e de escuta ativa isso é transformador. Porque conteúdo a gente pode passar por e-mail. Agora estar com homens, ouvir outros homens, eu vejo como algo potente e rico. Colocar o homem nesse lugar de vulnerabilidade, de reflexão, de pensar o que ele quer para a vida, o que ele entende como família, quais são suas prioridades. O caminho, depois, cada um vai seguir o seu.

Blog: Como falar sobre puerpério sendo que você é homem e só passou por esse período como espectador?

Tiago: Eu sempre conto um pouco da minha história, para que os homens saibam de onde eu vim, porque estou ali falando sobre isso, e um pouco de conteúdo baseado em evidências científicas e em relatos do curso que eu fiz com o (psicólogo) Alexandre Coimbra Amaral chamado ‘a psicologia do puerpério’. O objetivo é conversar sobre esse período, escutar esses homens sobre o que está acontecendo naquele momento da vida deles, um espaço de troca para que esse cara consiga entender pelo que a mulher dele está passando. A gente conversa também sobre a sexualidade e o envolvimento do casal durante o puerpério.

O naturólogo Tiago Koch

 

Blog: Isso foi uma questão importante para você, entender quando seria possível retomar a vida sexual de vocês como casal?

Tiago: A questão da sexualidade foi um dos maiores desafios sim, mas não no sentido de ficar pensando quando a nossa vida sexual iria ‘voltar’, mas sim como seria essa nova dinâmica. Antes do nascimento da nossa filha a gente tinha um entendimento muito forte, inclusive sexual, e depois a gente tinha se desconectado. Não era mais a questão do ato sexual, mas do cuidado, do afeto, da troca e do carinho. E não é porque ela não queria, hoje entendo, mas sim porque ela não tinha disponibilidade, nem forças. Na época eu não entendia, eu saí do momento do parto totalmente apaixonado por ela, pensava, ‘caramba, que mulher forte, olha o que ela foi capaz de fazer, olha só a potência que é essa mulher’. Mas ela, naturalmente, saiu do parto apaixonada pela nossa filha. O foco dela, a energia era toda direcionada para a Iara. E esse foi o grande desafio. Antes a gente tinha uma troca e agora eu tinha que lidar e entender que eu não era mais o amor da vida dela. E eu falo agora isso de uma forma consciente, mas na época eu passei por esse processo de maneira inconsciente, eu só sentia e talvez não processasse isso muito bem, não entendia o tamanho dessa transformação e me colocava em um papel de julgador. Mas o bom é que houve muito diálogo entre nós, o que fez com que eu conseguisse passar por esse processo da melhor forma possível.

Blog: E como foi na prática que vocês se reencontraram sexualmente?

Tiago: Ainda estamos nesse processo. E o caminho é a comunicação, que não acontece só de forma verbal, mas também com uma disponibilidade afetiva de olhar, de entender o que está acontecendo. E a partir do momento que eu comecei a ter um maior entendimento do que ela estava vivenciando, as coisas começaram a ser construídas de um jeito melhor. Foi tudo uma grande oportunidade de ressignificar meu entendimento sobre sexualidade e sobre sexo, de entender como isso é diferente para o homem e para a mulher.

Blog: O curso desse fim de semana é pago. Como fazer com que esse workshop não seja um encontro de masculinidades brancas, heterossexuais e de classe média-alta?

Tiago: Essa era uma grande preocupação minha, por isso eu criei um braço social do projeto ‘Homem paterno’ que se chama PAPI – Programa de Apoio à Paternidade Integral. O objetivo é fazer oficinas e worshops gratuitos para quem não tem como pagar o valor do curso. Nesse fim de semana, inclusive, há cinco vagas para homens que não tem como pagar, a gente não pode perder a oportunidade de ter um encontro rico e diverso. Quem quiser participar é só me mandar uma mensagem no Instagram do @homempaterno ou enviando uma mensagem no ‘fale com o produtor’ na página de venda de ingressos no Sympla.

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