Renato Caixeta

Isadora, Clara, Déborah (com Benício no colo), Pietro e Renato, instantes depois do nascimento do caçula

O nascimento da primeira filha de Renato Caixeta foi, segundo ele, “traumatizante”. Depois de um dia inteiro de trabalho de parto ele e a mulher, a jornalista Déborah Trevizan, chegaram ao hospital quando ela já tinha oito centímetros de dilatação: “Tinha tudo para ser um parto normal. Mas o médico plantonista não quis esperar e até hoje não sei bem o porquê.” Renato não pôde acompanhar a mulher: “Só fui autorizado a entrar no centro cirúrgico na hora da cesárea, sem saber o que tinha acontecido”, lembra.  “Ver seu filho sendo arrancado da barriga, de forma brutal, não é das coisas melhores do mundo. Acreditávamos que a Isadora tinha que vir na hora dela. Doce ilusão. A partir do momento que você coloca os pés dentro de um hospital fica quase impossível questionar procedimentos médicos”, conclui. Renato lembra que Déborah foi vítima de violência obstétrica. “Ouvimos coisas como ´na hora de fazer não doeu, né?´” Depois dessa experiência, o casal decidiu que o nascimento do próximo filho seria diferente. E começaram a participar de reuniões do Gama – grupo de apoio à maternidade ativa – que incentiva o parto normal e natural. E quando Déborah decidiu que teria o próximo filho deles em casa, Renato a apoiou. “Eu e meus irmãos nascemos em casa, no interior de Minas e isso nunca foi um tabu. Acho que faço parte da última geração que nasceu de parto normal”, conclui.

Quatro anos depois, quando engravidaram de Pietro, ele confessa que o receio da família do casal com o parto domiciliar o contaminou. Mas as reuniões do Gama o deixaram mais forte e Renato confessa que “vestiu a camisa” e ainda estava mais empolgado com a escolha do que Déborah. O trabalho de Renato o afastou da mulher no último mês de gravidez e quando a bolsa dela estourou, na 37.a semana, ele só conseguiu chegar em casa horas depois do início do trabalho de parto. Déborah estava sozinha e muito nervosa, o que comprometeu os planos do casal de ter Pietro em casa. “Foi minha a decisão de ir para o hospital, quando tive certeza que ela estava esgotada. Percebi que não tínhamos mais condições emocionais de ficarmos em casa.” O casal conseguiu, contudo, que Pietro nascesse de parto normal, desfazendo o mito que depois da primeira cesárea a mulher só pode ter filhos fazendo uma outra cesárea.

O parto de Pietro fez Renato acreditar que podia participar ativamente do nascimento dos filhos. Quando Déborah engravidou de Clara, há três anos, eles sabiam que conseguiriam ter o filho da forma que queriam: em casa, ao lado de Isadora, Pietro e da família. E foi assim que a segunda menina deles chegou: “Foi perfeito. Ela nasceu linda, rosa, chorando. Foi um sonho. Uma das melhores experiências que já vivenciei na vida”, lembra.

E quando, no susto, Deborah engravidou do quarto filho do casal, Benício, eles já sabiam qual caminho seguir: “Estávamos treinados”, brinca. Mas Benício demorou para querer nascer. A bolsa estourou quando Deborah completou 42 semanas e cinco dias de gestação. Em compensação, o parto foi muito rápido: “Começou na madrugada, por volta das quatro da manhã. A doula chegou às 05:15, a parteira às 05h45 e Benício nasceu às 06h17”, lembra. “Foi um momento maravilhoso, toda a família acompanhou. Minha filha mais velha, Isadora, cortou o cordão umbilical do Benício e tirou fotos. Clara se comportou maravilhosamente bem. E Pietro já estava acostumado a ver os irmãos nascerem”, conta. Ele não esconde a emoção: “Era só a nossa família em um momento de união que ficará marcado para sempre. Uma das melhores sensações que pude experimentar”, recorda, emocionado.

Quem decide ter filhos em casa está sempre sujeito à opinião dos outros, mesmo sem pedir. “Poucas pessoas entendem. Alguns nos chamam de corajosos. Mas dá para ver nos olhos que acham que somos loucos, irresponsáveis”. Mas no planejamento do parto de Benício, a família não se meteu: “Ninguém se arriscava a dizer mais nada, desistiram de tentar nos fazer mudar de opinião”, lembra.

Renato é muito crítico à postura dos obstetras hoje em dia. “Eles tentam enganar as gestantes para fazê-las optar por uma cesárea”, afirma. “Estabelecem uma relação completamente antiética, regida pelas questões financeiras e pela agenda deles”. Ele aceita compartilhar sua história, porque acredita em um trabalho de “formiguinha” de conscientização da importância do parto normal com menos interferência médica possível.  “Toda mulher é capaz de parir naturalmente, até que prove o contrário. Hospital é para doentes”, completa.