O gerente financeiro Marcio Pescara, 39, e Vicente, 9 meses

Uma nova geração de pais vem se formando, isso é nítido, basta olhar ao redor. Homens nas consultas de pré-natal e depois nas visitas ao pediatra, nas reuniões da escola e até nos grupos de whatsapp de pais. Embora eles ainda sejam minoria em todos esses espaços, muitos vêm orgulhosamente querendo exercer plenamente o papel de pais e de cuidadores da casa. O gerente financeiro Marcio Pescara, 39, pai do Pedro, 4, e do Vicente, 9 meses, mudou sua cabeça e sua vida depois que a empresa onde trabalha (a plataforma de viagens Expedia), instituiu a licença-paternidade de 12 semanas para todos os funcionários da companhia. No início, duvidou que a nova norma ia ‘pegar’, mas logo foi surpreendido pelo chefe que disse que o benefício era para ser, sim, usufruído. Surpresa ainda maior foi perceber que até um diretor global se afastou durante três meses que tinha direito para ficar com o filho recém-nascido.

“Ele me disse, eu vou tirar a licença-paternidade sim. Se não qual o exemplo que estou dando para os pais do nosso time?”, conta. Além de se conectar mais rapidamente com o filho caçula, Marcio ainda descobriu o que as mães já estão cansadas, literalmente, de saber: que a jornada dupla – tomando conta dos filhos e da casa, é algo cansativo e solitário.  “Além do bebê eu estava cuidando de casa, lavando roupa, lavando louça, lidando com vazamento no banheiro, você tem que cuidar de tudo isso ao mesmo tempo”, conta. “Hoje eu sou muito mais solidário com as mães”, completa.

Blog: Como você recebeu a notícia de que ia ter direito a 12 semanas de licença-paternidade?

Marcio: Foi uma certa surpresa, porque minha esposa já estava grávida e eu sabia que eu teria direito a 20 dias. Depois do nascimento do meu primeiro filho eu tive apenas cinco dias, o que foi desesperador, e no nascimento do Vicente eu sabia que teria direito a 20 dias, era algo que eu já estava esperando. Aí disseram que iam implantar essa política global de 12 semanas de licença-paternidade na empresa onde eu trabalho e minha primeira reação foi pensar, ‘acho que eu não vou conseguir tirar essas 12 semanas porque eu sou gerente de uma área financeira, tem 20 e poucas pessoas no meu time, meu chefe nem vai aceitar que eu tire essa licença’.

Blog: Você duvidou mesmo depois dessa informação chegar via o RH da empresa?

Marcio: Exatamente. Sempre dá aquele medo. E aí quando eu falei com o meu chefe, a única coisa que ele me perguntou foi ‘quando você pretende tirar?’ E aí eu disse que queria sair em dois períodos, três semanas logo depois do bebê nascer e o resto quando minha esposa voltasse a trabalhar, o que foi uma decisão difícil porque eu tinha que encarar a possibilidade de cuidar sozinho do bebê. Daí muita gente comentou ‘nossa, você vai ficar sozinho com seu filho?’ E eu disse: vou. Vamos ver como vai ser. Eu logo imaginei que ia ser uma experiência boa para mim, que ia gerar uma conexão rápida com o meu filho mais novo, algo que geralmente o pai demora mais para ter. E com essa decisão de dividir a licença, a gente conseguia também adiar a ida do nosso filho para a creche, o que era bom.

Blog: Em algum momento você duvidou da sua capacidade de cuidar sozinho do seu próprio filho?

Marcio: Todos os dias (risos). A primeira semana foi desesperadora. Quando minha esposa disse ‘agora estou indo trabalhar, tchau para vocês dois’ eu olhei para ele, ele olhou para mim. Pensei, ‘eu não sei como esse rapazinho funciona, não sei seus horários, quando está com fome, quando está com sono, quando é o momento de trocar a fralda’. A maior dificuldade foi ‘traduzir’ o bebê, porque ele é um ponto de interrogação gigante que você tem que aprender a decifrar.

Blog: Eu vou te contar uma coisa, com a gente, as mães, é a mesma coisa.

Marcio: Sim. E isso é o que é legal, porque os pais também têm que passar por isso.

Marcio e o filho caçula, Vicente.

Blog: Antigamente o pai era visto como aquele que é o provedor, que trabalha muito e que brinca pouco com os filhos, enquanto a mãe é o contrário, aquela que fica em casa e é mais amorosa. Como exercer um papel diferente do ‘imposto’ pelo senso comum?

Marcio: Primeiro você tem que se libertar dessa ideia, ‘eu sou o provedor’. O que você tem que pensar é que os dois são pais, somos cuidadores. Porque tirando a amamentação pura e simples, todo o resto pode e deve ser feito pelo pai. Não tem nenhum empecilho, não tem nada organicamente impossível de ser feito por nós, não tem nada que você diga ‘isso só a mãe faz’.

Blog: E você sempre pensou assim?

Marcio: Não. No meu primeiro filho até eu trocar uma fralda de cocô demorou um tempão. Agora não tem mais isso, até porque se eu não trocar não tem que troque, porque sou que estou cuidando dele. Não tenho saída. E tem coisas que só agora eu estou me dando conta. Antigamente, sei lá, quando meu primeiro filho era pequeno e a gente estava, por exemplo, dando um jantar em casa e ‘ih, ele fez cocô e precisa trocar a fralda’ eu não me levantava da mesa. Hoje em dia eu me levanto primeiro, porque eu já estou acostumado, ‘é o Márcio que cuida do bebê’. Ou se o Vicente está chorando de madrugada sou eu que vou acudir, porque minha esposa tem que trabalhar no dia seguinte.  Muda a mentalidade.

Blog: Foi a licença-paternidade que mudou a sua cabeça?

Marcio: Totalmente. Não tendo essa experiência até a conexão com o bebê é mais difícil, demora. No meu primeiro filho eu demorei mais para curtir ficar com ele, brincar com ele.

Blog: E como é que os seus amigos, colegas de trabalho e família te viram como o pai em tempo integral? Te fizeram aquela pergunta clássica que as mães sempre ouvem, “você ‘só’ cuida do bebê?”

Marcio: Dos homens vieram aquelas perguntas mais engraçadas, ‘mas você vai ficar sozinho com ele? Tua mãe, tua sogra, uma babá vão te ajudar, não?’ E eu respondia, ‘não, sou só eu mesmo’. Também muitos perguntavam como ficava a minha situação na empresa, uma pessoa no Instagram quis saber se a licença não ia prejudicar a minha carreira – e eu achei legal a sinceridade da pergunta, não perguntam isso para uma mulher. E não prejudica, eu preparei todo o terreno para sair de licença, tem uma pessoa que eu preparei para me substituir e durante um tempo eu até acompanhei o que estava acontecendo no escritório até que meu chefe disse ‘não acompanhe, fique em casa”. O meu diretor-sênior, o diretor global, também está de licença-paternidade. Ele me disse, ‘eu vou tirar a licença-paternidade sim. Se não qual o exemplo que estou dando para os pais do nosso time?’

Já as pessoas da minha familia diziam ‘olha, se precisar de ajuda você me liga, tá?’ Ainda tem essa coisa de achar que a mãe cuidando do filho é natural, já o pai vai ser um desastre, é algo que as pessoas geralmente duvidam que possa ocorrer. Eu até busquei não pedir ajuda de propósito, para viver essa experiência cem por cento.

Blog: E o que você descobriu já nesse período sobre a criação de filhos e cuidados com a casa?

Marcio: Consome mais tempo do que eu imaginava, muito mais.

Blog: Quando a sua esposa ficou de licença-maternidade do seu primeiro filho, você chegava em casa e achava que ela não tinha feito ‘nada’, você duvidava dessa ‘falta de tempo’ dela?

Marcio: Muito. Às vezes eu voltava para casa e, sei lá, tinha alguma coisa que estava desarrumada e ela falava ‘não deu tempo de fazer’. Eu questionava, ‘como não deu tempo, era só parar um pouquinho para fazer isso!’ E quando eu saí de licença-paternidade eu achei que ia ter tempo, cheguei a fazer uma lista com as coisas que eu pretendia fazer durante esse período longe do trabalho: eu ia cuidar do Vicente, da casa, ler dois livros, aprender um novo idioma e assistir várias séries – eu até pedi indicações de séries para os amigos. Mas eu cuidei do Vicente e o resto eu não consegui fazer nada, às vezes eu percebia que estava há horas querendo ir no banheiro e não conseguia. Além do bebê eu estava cuidando de casa, lavando roupa, lavando louça, lidando com vazamento no banheiro, você tem que cuidar de tudo isso ao mesmo tempo. Eu não sabia usar a máquina de lavar roupa, por exemplo, eu não sabia o mínimo, nem como ligava. E eu comecei a entender o que é ficar em casa, cuidar de uma casa.

Blog: Voltar ao trabalho vai parecer estar de férias?

Marcio: Sim! Porque o trabalho começa às 08 e termina às 18hs, o de casa não termina nunca (risos).

Blog: Você fez até um perfil no Instagram para contar a sua experiência, até comentou que um pai te questionou sobre preocupações com a carreira. Quem interage mais com você nas redes, as mães ou os pais?

Marcio: As mães, porque os pais não têm o costume de seguir perfis assim nas redes sociais, mas elas marcam os maridos, ‘olha lá, se prepara, olha isso aqui, pede licença-paternidade na sua empresa também!’ Muitas mulheres comentam sobre como queriam que os maridos passassem pela mesma experiência. Ficar com o bebê em casa é um mundo um tanto quanto solitário, e eu enfrentei a fase da introdução alimentar do Vicente, tive de buscar informações sobre esse período na internet, encontrei coisas em blogs maternos e menos em blogs paternos. A parte ‘mais técnica’ do cuidado, vamos dizer assim, eu encontrei em blogs de mães, enquanto os blogs de pais ainda são muito mais focados na experiência de ser pai, na conexão com o filho, porque ainda estamos nesse estágio, a gente ainda não tem licença-paternidade estendida por aí. O dia que tiver, aí vai ter um monte de ‘blogs técnicos’ escritos por pais.

Blog: Depois de passar por essa experiência, você virou um defensor de licença-paternidade estendida?

Marcio: Totalmente. Uma licença-paternidade maior é fundamental. Mas o que me preocupa, devido à cultura machista em que vivemos, é que se o pai tirar a licença junto com a mãe esse cara pode ficar sentado no sofá tomando cerveja e assistindo à televisão enquanto a mulher cuida do filho. Acho que nas primeiras semanas os dois têm que ficar com o filho, sem dúvida, mas o ideal, na minha opinião, é a mulher saiu, voltou a trabalhar, agora é com o pai, para ele vivenciar a paternidade cem por cento.

Blog: Como você ficou depois dessa experiência?

Marcio: Eu acho que eu estou mais solidário com as mães. Menos machista sem dúvida, a gente tenta ser cada vez menos, é uma briga diária com o mundo exterior e ainda mais tendo dois meninos em casa, é difícil criar dois meninos no mundo de hoje. Eu acho que eu me solidarizo muito mais e sinto o quanto é solitário e difícil para muitas mães esse processo. Já para os pais eu desejaria que todos passassem pela experiência pela qual eu passei, que é transformadora para todo mundo.

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