Série “Criança viada” da exposição Queer Museum, cancelada em Porto Alegre em 2017 depois de pressão nas redes sociais

A jornalista Carol Patrocínio, 34, é mãe de Lucca, 15 anos, um menino cisgênero, ou seja, um adolescente que se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu, e também é mãe do Chico, 8. O caçula contou, ainda pequeno, que “talvez fosse uma menina”, conta Carol. “Assim que seu filho fala ‘eu não sou igual a todas as crianças’, ou pelo menos igual à maioria delas, dá um medo de ‘cara, o que vai acontecer? Essa criança vai apanhar na escola!’ E essa é a primeira coisa que toda mãe de LGBT sente, um ‘meu Deus, o que essa criança vai passar, eu queria que fosse fácil!’ E daí eu tenho duas opções: ou eu mudo quem meu filho é ou mundo o mundo. E quando você é mãe, é muito fácil essa decisão, eu vou mudar o mundo. É só isso que eu posso fazer, porque eu não vou mudar meu filho, que é maravilhoso do jeito que ele é”. A jornalista contou a história da descoberta de Chico e da luta da família para que ele tenha sua identidade respeitada ao blog.

Blog: Carol, quem é o Chico?

Carol: O Chico é uma criança incrível, ele tem 8 anos, é meu filho, tive a sorte de ser presenteada com essa criança. O Chico é uma criança transexual não-binária. O que significa isso? Uma criança trans não-binária é a que não se identifica nem como menino e nem como menina. Então o Chico é só o Chico. Aí ele usa as roupas que ele quer, ele brinca com os brinquedos que ele quer, ele está descobrindo o mundo do jeito dele, sem precisar se colocar em nenhuma “caixinha”, o que talvez seja a coisa mais bonita que a gente pode fazer pela gente. 

Blog: E como e quando o Chico mostrou para vocês que era uma criança trans?

Carol: Começou bem pequeninho. O primeiro presente de Natal que ele pôde pedir foi uma boneca. E isso já gerou uma discussão louca na família, o Natal foi horroroso. Mas a gente deu a boneca – a gente não, né, o Papai Noel trouxe a boneca. Depois disso ele pediu um vestido e a gente deu a ele um vestido que era tipo um camisetão. Mas ele disse que não, queria “um vestido que girasse”. Aí o próximo vestido que ganhou foi um vestido que girava. E aí a gente começou a entender que quando ele ia comprar roupa, por exemplo, ele queria ir na parte “feminina” da loja. E aí a gente parou para conversar: “Se ele quisesse comprar um uniforme de futebol, a gente deixaria? Deixaria. Se ele quisesse se vestir inteiro de Ben 10 a gente deixaria? Deixaria. Então por que a gente não deixa ele escolher a roupa da Monster High?” E aí a gente passou a deixar. E ele passou a conseguir fazer as escolhas dele. A gente não tinha mais esse papel de julgar valor. Se não for nada que for colocá-lo em risco, como “quero subir em uma árvore de dois metros”, tudo bem. É só “eu quero brincar de tal jeito”. Ok. Tudo bem. Aí ele começou a se descobrir. E, na escola, começou de acontecer de ele se identificar muito mais com as brincadeiras das meninas, ficar amigo das meninas, todas essas coisas. Daí ele disse para a gente “talvez eu seja uma menina”.

Blog: Ele verbalizou isso?

Carol: Sim, ele verbalizou isso. Ele me chamou para uma conversa, o Chico é super articulado. Daí eu tentei entender, perguntei para ele, “o que é para você ser uma menina?”. Daí ele me explicou, contou as coisas das quais gostava e eu disse: “Você não precisa decidir nada disso agora. Você pode só ir vivendo, experimentando as coisas, vendo o que você gosta, o que você acha.” E daí, depois de um tempo, ele assistiu a um programa de tevê que falava sobre pessoas trans, e aí tinha uma pessoa trans não-binária que explicou com muita clareza “eu não sou nem homem nem mulher, eu sou eu, e eu uso as roupas que eu quero, tem dias que eu me sinto assim e dias que eu me sinto assado.” E para ele aquilo foi um “estalo”, fez super sentido para ele, que disse: “é isso que eu sou!” E a partir daí ele começou a se entender e falar para as pessoas que é uma criança trans não-binária, por que as pessoas perguntam “qual o nome dela?”, porque ele tem cabelo comprido. Daí ele começou a explicar, “eu não sou menino nem menina!”. Ele já está mais seguro para dar essa explicação.

Blog:  Carol, você fala sobre o assunto com muita propriedade, sempre foi um assunto tranquilo para você e para o pai do Chico?

Carol: É uma construção. E dá medo, muito medo. E o primeiro ponto é esse, porque assim que seu filho fala “eu não sou igual a todas as crianças”, ou a pelo menos à maioria delas, dá um medo de “cara, o que vai acontecer?” ou “essa criança vai apanhar na escola!”. E essa é a primeira coisa que toda mãe de LGBT sente, um “meu Deus, o que essa criança vai passar, eu queria que fosse fácil!”. E daí eu tenho duas opções: ou eu mudo quem meu filho é ou eu mudo o mundo, e quando você é mãe é muito fácil essa decisão, eu vou mudar o mundo. É só isso que eu posso fazer, porque eu não vou mudar meu filho, que é maravilhoso do jeito que ele é. E em casa a gente teve muitas conversas, eu, meu marido, meu filho mais velho, para entender tudo isso. A gente se chegou a conclusão que o Chico está se desenvolvendo, ele está se descobrindo. E não vamos bloquear o desenvolvimento dele como pessoa, nem o desenvolvimento educacional ou social. A gente quer que ele seja a melhor pessoa possível e a gente vai dar meios para que ele esteja seguro e para que ele consiga se defender do mundo lá fora.

Blog: E a família estendida? Como avós e tios reagiram a essa descoberta do Chico? 

Carol: Olha, não foi fácil. Nem um pouco fácil. No Natal da primeira boneca meu sogro levantou e foi embora, ele achou um absurdo aquilo. E aí acabou o Natal, ficou aquele clima horrível, meu marido nunca tinha entrado em uma discussão grave com o pai. Os meus pais também tiveram alguns momentos, diziam: “Ah, quando ele está com a gente, a gente prefere que ele não use vestido porque a gente não sabe como reagir”. E aí a gente começou a também oferecer saídas para os avós, que são “ou você pergunta como reagir para a gente, e a gente te ajuda, ou você pode não conviver mais com ele”. Porque é simples. O Chico não vai mudar, não existe essa possibilidade. Essa concessão não existe – e muitas a gente faz, todo mundo que tem filho sabe que muita coisa a gente abre mão, mas essa não, porque essa é a identidade dele. E é muito importante que ele esteja seguro com a identidade dele e que ninguém a questione, principalmente a família.

Mas o Chico também já desenvolveu algumas habilidades. Ele sabe que quando vai para a casa dos avós paternos o vestido ‘não é muito legal’ ou que as bonecas acabam desaparecendo. Daí ele fala, ok, eu vou de (calça) ‘legging’. Ele, sozinho, foi não querendo entrar em embates, não quer que fique chato ir para a casa dos avós, que ele adora. Ele entendeu que não precisa usar vestido sempre, ele pensa, “eu sou quem eu sou, sabe?”. Ele já aprendeu a lidar com os medos e as frustrações dos adultos ao redor dele e é muito maluco que uma criança de 8 anos consiga lidar melhor com as frustrações dos adultos que os próprios adultos.

Blog: E como tem sido a vida do Chico na escola?

Carol: Ele já passou por quatro escolas, agora está em uma escola pública . Com as outras crianças é sempre um desafio. Tem dia que ele chega em casa e fala: jogaram uma bola na minha cara. “Mas o que aconteceu, Chico? Você estava brincando?” “Não. Perguntaram se eu era menino ou menina, eu disse que não era da conta deles e jogaram uma bola na minha cara.” É difícil, porque dá medo. Todo dia dá medo. Meu maior medo é ele largar a escola e é o que acontece com um número gigante de crianças LGBT. Você vai crescendo e sentindo que aquele lugar não é seguro para você.

Tem a questão do banheiro, por exemplo, que parece uma coisa besta.  Para a gente, que tem acesso simples e fácil a qualquer banheiro , deu vontade de fazer xixi, você vai ao banheiro. Para uma criança LGBT deu vontade de fazer xixi, ela segura. Porque o banheiro é o lugar onde a violência acontece, lá não tem câmera, não tem inspetor, são só você e as outras crianças. Na população LGBT adulta, o número de pessoas com problema no trato urinário é imenso. E pensar que meu filho, porque as pessoas não conseguem respeitá-lo, pode ser que tenha um problema que vai levar para a vida. Acontecem diversas coisas que parecem pequenas, mas que somadas ficam grandes. Tenho medo que ele desista, que ache que a escola não é para ele, que canse. E é um cenário bem assustador. E isso acontece em um ambiente teoricamente controlado.

Mas quando eu penso no mundo, eu também tenho medo. Tenho medo de quando ele sai da escola para ir para casa, que são apenas dez minutos de caminhada. Eu morro de medo de alguém olhar e achar que ele “merece” apanhar, que ele merece um estupro corretivo. Porque como o Chico está em um “não-lugar” – ele não é um menino, ele não é uma menina – as pessoas olham para ele e definem o que ele é. “Ele é um garoto que se veste de menina, então ele tá provocando!” E isso é o que a gente escuta de diversas vítimas de abuso. É muito assustador pensar que pode ser que seu filho não chegue bem em casa. Pensar nisso todos os dias. O olhar que as pessoas têm para uma pessoa trans é um olhar totalmente diferente, é um olhar como se ele quase não fosse humano, como se fosse uma “coisa”. Como se ele fosse um fetiche.

Blog: E como é ter um filho transexual no país que mais mata LGBT´s no mundo e que não tem políticas públicas para impedir que essa violência toda aconteça?

Carol: Eu me sinto desamparada totalmente. Se a gente fala de uma coisa tão simples quanto educação de gênero e as pessoas já se dizem “ah, meu Deus, estão querendo ensinar a criança a ser gay!” Não! A gente só quer ensinar as crianças que todas as pessoas precisam ser respeitadas. Todas as pessoas merecem ter uma vida tranquila e leve como a que você tem. Mas todas as pessoas são diferentes e essas diferenças não são abismos, mas sim detalhes. O Chico não é uma criança incrível porque ele é uma criança trans. Ele é incrível porque ele é divertido, inteligente, é alguém que está se transformando em um adulto que eu gostaria de conversar. Só que quando a gente tenta entrar nessas discussões parece que o que a gente quer são privilégios, que as nossas crianças sejam mais acolhidas que as outras. Não é isso. A gente só quer que as pessoas entendam a violência que estão colocando na vida dessas crianças. E na Constituição diz que a educação é um direito universal. Não é. Não é. Porque se uma criança não consegue ter saúde mental na escola, como esse direito está sendo garantido a ela? Não está. E é muito grave isso. E é muito grave porque a gente vê que nesse momento político isso é visto como um exagero, como algo desnecessário. Precisamos criar maneiras e legislações para que todo mundo seja tratado da mesma forma de acordo com essas diferenças. Não adianta eu pedir para uma criança cadeirante para que ela jogue basquete sem a cadeira, né? Não tem como. Então não adianta eu pedir para uma criança LGBT ir para a escola e ignorar a identidade de gênero dela ou a orientação sexual. Porque isso é quem a gente é. 

Blog: Um dos motivos para esse debate ter sido interditado foi essa onda de Fake News e a repetição de uma máxima de que seria ensinada nas escolas a tal “ideologia de gênero”. Você acha que alguém ensinou o Chico a ser transexual?

Carol: Nossa! Não. O Chico só foi, né. A gente só permitiu que ele existisse, na verdade.

A íntegra da entrevista da jornalista Carol Patrocínio, mãe do Chico, está no meu podcast, o Ih, Rita!, disponível no Spotify, Deezer, Soundcloud, Apple Podcasts, Google Podcasts e YouTube. Essa semana, discutimos o “T” da sigla LGBT, ou seja, a vida das travestis e das pessoas transexuais sob a ótica de três entrevistados. Além de Carol Patrocínio, também converso com o Prof. Doutor da PUC-SP, Fabio Mariano, que denuncia a “Política de Morte” promovida pelo Estado contra essa população, ao negar-lhe direitos e reconhecimento social, assunto que foi tema de sua tese de doutorado. O que o Estado brasileiro pratica é crime de ódio, é héteroterrorismo. É extermínio o que ele faz com essas populações”, afirma. Comigo, ainda, a programadora Daniela Andrade, mulher transexual que cansou da violência contra a população trans e está imigrando para o Canadá. “A nossa expectativa de vida é 35 anos, a do brasileiro é de 72 anos. Esse é um país que explicitamente está esfregando nas nossas caras que se odeia a população trans, que travestis e pessoas transexuais não devem ter direitos a absolutamente nada”, afirma.

Leia mais: Sobre como é difícil criar um filho não machista em um mundo machista

Leia também: Parem de tocar Anitta nas festas de criança. Apenas parem